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União
Europeia |
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30/05/2005 Veto
à Constituição mostra que os franceses querem retoma do carácter republicano da UE Emir Sader A França havia sido chamada, por Engels, de «laboratório de experiências políticas». A revolução de 1789, seguida pelas de 1848 e da Comuna de Paris, em 1871, mostravam como o país sempre apresentava os fenómenos da forma mais radical e aguda. O governo de Frente Popular, nos anos 30, e as barricadas de 1968, pareciam reiterar esse papel da França. No entanto, dali para a frente, a França aparentemente tomava outro rumo. Se a eleição de François Mitterrand em 1982 parecia realizar o sonho da esquerda francesa, com o seu programa republicano, a viragem desse governo, logo na primeira crise, um ano depois de eleito, para abandonar esse programa e aderir às políticas neoliberais, apontava noutra direcção. A esquerda francesa ficou descaracterizada, a ponto de que a alternância se deu com a direita. A greve de 1997 ameaçou retomar a tradição republicana da esquerda francesa, com a substituição do governo de direita pelo do socialista Leonel Jospin, que recolheu alguns aspectos da movimento altermundialista, que começava a surgir. Porém, aos poucos o seu governo foi retomando o projecto de privatizações e terminou, melancolicamente, sendo excluído até mesmo do segundo turno das eleições presidenciais pelo candidato da extrema-direita. Porém, outra França se manifestava. É a França de ATTAC, do Le Monde Diplomatique, de José Bové, dos grupos radicais da esquerda, do Fórum Social Europeu. A mesma França que já havia quase derrotado o projecto de unificação europeia no referendo que consultava sobre a adopção da moeda única. A França que disse não ao projecto de Constituição Europeia é a França antineoliberal, que defende os direitos republicanos, contra o seu abandono por parte dos que levam a cabo a proposta de unificação da Europa. Decisiva para o resultado foi a crise interna dos socialistas, na qual um sector significativo, embora perdendo a consulta interna, manteve capacidade de mobilização das bases socialistas. Estas votaram maioritariamente – 55% a 45%, a mesma proporção do resultado geral – pelo “não”, contrariando a orientação da direcção do partido. Como um dos países pilares da unificação europeia, juntamente com a Alemanha, o “não” francês não é um não qualquer – como os da Dinamarca e da Suécia, em consultas anteriores. Por isso instala uma crise no centro político do projecto de unidade europeia. Esta, nascida ainda em tempos do Estado de bem-estar social, foi mudando o seu carácter, até induzir o modelo anglo-saxão no coração da unidade europeia. Por isso foi derrotada. Como consequência, a crise não se instala apenas no governo francês – que com razão considera que os franceses votaram contra ele –, mas também no processo europeu, que deve ser confirmada pelo previsível “não” holandês ainda nesta semana. O “não” francês é o “sim” a uma outra França, sintonizada com o movimento altermundialista. |