|
Informação Alternativa |
|
União
Europeia |
|
30/05/2005 De tratado constitucional a comédia de enredo Pascual Serrano O processo de aprovação na União Europeia do seu
tratado constitucional está a adoptar um formato de comédia de enredo cada
vez mais absurdo. À partida já começa por ser algo peculiar que se denomine
tratado constitucional a algo, a União Europeia, que se constituiu várias
décadas antes, em 1967, ano em que se fundiram as três comunidades económicas
europeias e se criou o conselho de ministros. Os dirigentes da UE, com a sua obsessiva estratégia de
querer fazer as coisas nas costas dos cidadãos, meteram‑se em labirinto
de que ninguém sabe como sairão e em que, qualquer cenário, está repleto de
situações absurdas e paradoxais. A situação da comédia de enredo neste momento é que
oito países aprovaram o texto constitucional por via parlamentar e um,
Espanha, por referendo. Dos 15 que faltam fazê‑lo, oito tinham optado
pelo referendo e sete pelo procedimento parlamentar. Com o NÃO francês
assistimos a que a constituição que elegemos em Espanha para a Europa não é a
que quer a França, pelo que, em princípio, não poderia entrar em vigor aquilo
que votámos. Alguns “ilustres” como Giscard d’Estaing, um dos “pais” da
criatura, tem-no muito claro: «pediremos aos franceses que votem de novo. Não
há outra solução». Afinal de contas é o que fizeram com os dinamarqueses para
que aprovassem o tratado de Maastricht. Votaram até que saiu que sim. Pelo
menos nas repúblicas bananeiras enganavam as pessoas na recontagem, aqui tomam‑nos
directamente por imbecis e querem que votemos até que saia o que eles querem.
Com a mesma proposta, os espanhóis poderiam sugerir que também se volte a
votar no nosso país porque também não saiu a opção que agradava a alguns de nós.
Inclusive, pensando‑o bem, nas eleições da minha terra também não
ganharam os que eu desejava, talvez pudéssemos votar até que ganhassem os
meus. Outra opção, a que sugerem os apoiantes franceses do
NÃO e que parece mais razoável, é voltar a renegociar o tratado para aceitar
as exigências cidadãs e que possa ser ratificado agora com as mudanças
requeridas pela opinião pública. Nesse caso, já teríamos dois tratados
aprovados, o do referendo espanhol e oito parlamentos e o do referendo
francês. Com Espanha não haveria muitos problemas, seria tecnicamente viável
aceitar a constituição aprovada em França, afinal de contas a opção maioritária
em Espanha foi a daqueles a quem era indiferente qual constituição porque a
abstenção foi maioritária. E não esqueçamos a divertida situação que enfrentam os
países que não o ratificaram. Devem votar, seja no Parlamento seja em
referendo, um projecto constitucional já recusado por um dos grandes países
europeus fundadores sem saber se se reformará? O que aconteceu com este absurdo processo é como se uma comunidade de vizinhos tivesse que se pronunciar sobre um assunto e votassem cada mês os de um patamar, em alguns patamares não votassem todos, só um delegado de patamar, e não tivessem decidido que fazer se todos os patamares não estavam de acordo. Por isso nas comunidades de vizinhos primeiro discutem o assunto e depois votam todos ao mesmo tempo. É o que fazem as pessoas nos colégios, nas associações de vizinhos e nas associações taurinas. Mas parece que isso era muito perigoso para a nomenklatura europeia, corriam o perigo de transformar a União Europeia numa democracia. E esse modo de eleger constituições já só o fazem países atrasados como a Venezuela, onde estiveram meses a debater a constituição, as organizações sociais propuseram mudanças, o órgão legislativo preparou‑a e todos os cidadãos votaram‑na um dia com 80% de participação. Hoje os venezuelanos passeiam‑se em Caracas com uma constituição no seu bolso e os europeus com um cartão de um clube de futebol e uma foto com a Ana Obregón que arranjaram no aeroporto. Somos os países avançados. |