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União
Europeia |
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23/04/2005 Imagine, por um momento, a
vitória do “não” À esquerda, caíram durante estes meses todos os argumentos
para ratificar o Tratado Constitucional, com excepção de um: chumbá-lo é pior
que tê-lo. Que é hiperliberal na economia, qualquer um sabe. Que é guerreiro e entrega a defesa da Europa à NATO,
também. Mesmo em matéria de democracia e direitos, sem dificuldade
um europeísta moderado reconhecerá que o texto é, no mínimo, coxo. Por outras palavras, se fosse para Portugal, nenhum
socialista compraria uma tal Constituição. Nem mesmo um social-liberal. Mas é da Europa e então se conclui diferente, eis o acordo
possível, e mais vale este que nenhum. Depois de aprovado, mudar-se-á o que
esteja pior. A Europa sempre foi assim – uma construção colectiva feita
através de pequenos passos. Será verdade? Infelizmente, não é. Este tratado não é um “pequeno passo”. É, isso sim, uma
ruptura com a estratégia dos pequenos passos, um acto refundacional. Este é o primeiro dos tratados que reclamam para si
dimensão constitucional - e esta não é uma diferença meramente simbólica. Não é a mesma coisa fixar num tratado entre Estados o
conjunto da legislação europeia que configura a ordem económica liberal ou fixar
tais escolhas políticas num texto constitucional. Do mesmo modo, uma coisa é fixar em tratado uma arquitectura
de poder ou blindá‑la constitucionalmente. Principalmente quando essa
arquitectura estabiliza um sistema de poder com dois únicos verdadeiros
centros – o Banco Central Europeu (não eleito) e um Conselho Europeu de
primeiros-ministros onde quatro põem e dispõem. Acresce que este poder só
pode ser alterado por unanimidade de todos os Estados membros. Trata-se de um poder extraordinário colocando a moeda e o
controlo da inflação acima da economia, do trabalho e das instâncias da
política, ele é uno e coeso para efeitos internos; mas dependendo da
unanimidade do Conselho para a política externa, só existirá no mundo desde
que acompanhe quem manda em Washington. Não vos pergunto se esta é a Europa desejável. Pergunto
simplesmente se esta é a Europa possível. E respondo pela negativa. Se os cidadãos decidirem deixar de ser “consumidores” de
Europa, outra será possível – a que os tem por actores. O ciclo de referendos
é a oportunidade de dizer stop a uma construção europeia em velocidade de
cruzeiro liberal e que se dissociou perigosamente das expectativas dos seus
cidadãos. Portanto... admitamos, por um momento, que vence o “não”. Primeiro acto: as elites entram em estado de choque. Em
conclave sem fumo branco. Confesso que até pagava para ver. Mas, para lá
deste exercício de distribuição da justiça, morrerá a Europa por causa disso?
Claro que não. A construção europeia foi suficientemente longe para assinar a
sua certidão de óbito. E é demasiado importante para que a estrada seja
regressiva. A questão relevante é outra: saberão as elites entender os
sinais de França? Não e sim. Não – sob o chumbo francês, os governos farão aquilo que
melhor sabem: meter a cabeça na areia e fingir que nada ocorreu. Fá-lo-ão por
exclusão de partes. Porque não podem, de imediato, renegociar o tratado – isso
reabriria por todo o lado o processo de ratificação e muitos dos que o
fizeram por via parlamentar teriam agora de enveredar pelos referendos. Por
outro lado, faltar-lhes-á a coragem política para admitirem o óbvio: que este
tratado morreu. Candidamente, vão dizer que prosseguem as ratificações e no
fim se verá. E sim – a primeira certeza do “não” é a suspensão das
principais directivas da agenda liberal. Ninguém se atreverá a insistir no
projecto de liberalização dos serviços (Bolkestein) ou na selvajaria do
alargamento do horário máximo de trabalho para as 65 horas por semana. A
Europa “de cima” jogará, por uns tempos, à defesa. E essa é a sua primeira
boa notícia em muitos anos. Fá-lo-á, não por contrição. Mas porque, sendo
cega, apostará ainda no isolamento de França no processo de ratificação. Mas do “outro lado”, a partir de 30 de Maio o “não” terá
muitos e muitos mais adeptos. Mesmos nas elites, serão muitos a dizer que a
cegueira foi longe de mais. E é esta nova arrumação de forças que anunciará
um tempo de refundação assente na democracia. Se o “não” vencer, a Europa terá a sua Constituição.
Outra, redigida por representantes eleitos para o efeito. Menos do que isso, em pleno século XXI, não é admissível. |