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16/04/2005 A Europa e o dilema
francês O salão, com as suas colunas, veludos e doirados foi
preparado para receber 80 jovens cuidadosamente seleccionados. Eles
representariam, num directo televisivo, o “povo” no Palácio da República. O “povo
do futuro”, o que mais teria a ganhar com a Constituição para a Europa.
Durante duas horas, esse povo interrogou o Presidente. E suspeito que este
não convenceu. À mesma hora, no Zenith de Paris, os comunistas abriam a
todas as sensibilidades do “não” de esquerda o meeting que tinham marcado
para esse dia. Casa cheia para ouvir Marie George Buffet pelo PCF; Mélenchon,
socialista; Besancenont, trotskista; Sarre, republicano de esquerda; Francine
Bavay, verde; ou José Bové, Yves Salette e Nikonoff pelos movimentos sociais,
entre três dezenas de oradores. E nestes, dois dos jovens que foram afastados
da selecção de quantos se iriam encontrar com Chirac no grande salão... A mês e meio dos votos, o objecto da polémica é um
best-seller editorial e o debate é popular. Por cá, o tema é marginal. Mas
desengane-se quem pense que assim continuará se o “não” vencer. E pode vencer. Porque pode, Chirac entrou na liça,
recebendo um povo seleccionado. E porque pode, preferiu esse número mediático
a um debate com contraditório. Sucede que o “número” com os jovens acabou por ser
sintomático da ansiedade francesa. O que se viu foi um Presidente didáctico,
mas à defesa. As perguntas acabaram por reflectir o profundo mal-estar que
atinge a sociedade. À maioria das questões, Chirac respondeu com um “mas isso
não tem nada que ver com a Constituição”. E nas outras, a sua preocupação foi
pedir aos franceses que não tivessem medo do futuro. Poucos momentos
televisivos ilustraram tão bem o divórcio entre as ansiedades populares e o
discurso político dominante nas elites. Naquela sala estiveram, por momentos,
dois mundos o “de cima”, paternal, transmissivo, explicando aos “de baixo”
que a vida não corre assim tão mal e, com mais do mesmo, poderá ser melhor; e
os “de baixo”, invocando a realidade das suas experiências de vida para
duvidarem das promessas de papel. Chirac não conseguiu desfazer esta
impressão. Nem conseguiu ser convicto na “missão impossível” que tinha: mostrar-se
europeu de esquerda, “social”, quando o Presidente que a França conhece é o
do liberalismo dentro de fronteiras. Chirac não conseguiu encontrar a “justa
medida” desta equação. Porque ela, simplesmente, não existe. A procissão ainda vai no adro. Mas as sondagens não
enganam. O “sim” partiu com 40 pontos de avanço. Mas os últimos 15 estudos
dão, consistentemente, entre 51 e 55 por cento ao “não”. Mais significativa é
a sua decomposição geracional o “sim” só ganha entre os muito jovens e os
mais idosos. No meio, nas idades do emprego, ganha o “não”. E este cresce à
medida que aumenta a insegurança no trabalho. Diferentemente do referendo de
Maastricht, o que pesa são as razões sociais e não as da grandeza perdida da
França. E mesmo onde estas duas pulsões se cruzam, o discurso dominante que
exprime o mal-estar, não é a saudade de Joana d'Arc ou os malefícios da imigração,
mas a defesa dos serviços públicos “à francesa”. Por outras palavras, o que
decide o referendo não é a Turquia, mas a directiva da liberalização dos
serviços no espaço europeu – usando jargão eurocrata, a “harmonização” por
cima ou por baixo. Neste momento, o “sim” resume-se a dois argumentos fortes:
o “não” representa a incerteza e o enfraquecimento da França na União. Todas
as outras razões – que o tratado, por exemplo, salvaguarda o modelo social
europeu – pura e simplesmente não colam à vida. Eis, então, o paradoxo: tendo
que combater a ansiedade social do presente, o “sim” acaba a pedir um voto de
medo, pela negativa; e devendo afirmar o seu europeísmo, esgota-se num
nacionalismo quase provinciano. A percentagem de indecisos é ainda grande. O “sim” oferece
um cenário que se conhece, mas não se deseja; o “não” propõe um horizonte
incerto contra a perpetuação do presente. Num país de tradição submissa, o
resultado seria simples. Mas a França levanta periodicamente o seu
inconformismo. Pode acontecer o que os líderes europeus mais receiam – terem
que pensar no dia seguinte... A cegueira de Bruxelas pode ter, a 30 de Maio, encontro com o destino. Ou percebe que muito tem que mudar, nem que seja para que os mesmos continuem a mandar; ou finge que nada aconteceu e contaminará de inconformismo francês toda a Europa “de baixo”. A “incerteza” do “não” são duas magníficas certezas: a travagem do plano liberal e um extraordinário sobressalto democrático. Numa palavra, a transformação dos “consumidores” de Europa em protagonistas da sua refundação. |