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19/03/2005 A Comissão, a directiva e
o Tratado Durão Barroso assumiu o papel
de defensor oficial de uma proposta de directiva que nem sequer é de sua
paternidade; e por causa dela arrisca-se a ver chumbado o Tratado
Constitucional europeu em França, o que, aliás, o chumbaria tout court,
porque carece da unanimidade dos 25 Estados membros para entrar em execução.
A costumeira obstinação barrosista arrisca-se a derrotar o “projecto global”
que os liberais têm para oferecer à Europa. Ainda bem, se assim for. A última sondagem em França –
publicada esta semana no Le Monde – assinala um recuo de 10 pontos no “sim”
ao Tratado, face à sondagem de há três meses. O “sim” ainda alcança 56%, mas
o número de hesitantes é vasto e as intenções firmes de voto são maiores na
área do “não”. O que parecia um resultado adquirido deixou de o ser. Uma proposta – a directiva
Bolkestein – encontra-se entre os factores que estão a deslocar as opiniões
para o “não”. Os eleitores não percebem como pode esta Constituição “constituir
um avanço social”, se ela não impede o cauchemar da pior directiva dos
últimos anos. De que adianta o Tratado, se é em nome dele que se prepara a
lei que dualizará os mercados de trabalho na Europa? Nos países do centro da
Europa, a directiva Bolkestein marca a agenda política. Hoje mesmo, em
Bruxelas, uma manifestação europeia dirá como está o grau de mobilização
cidadã. Mas até os últimos dias de uma instituição de maioria conservadora,
como é o Parlamento Europeu, deu indicações de que a directiva é de resultado
incerto. Com efeito, a comissão parlamentar de ambiente e saúde pública
aprovou, por grande maioria, um parecer muito crítico. E na comissão de
cultura e educação, da direita à esquerda, os eurodeputados consideram que
este domínio deve ficar de fora do âmbito de aplicação da proposta. Porque
não querem o fim das políticas públicas de apoio aos bens culturais. Na realidade, a directiva é
problemática em dois domínios essenciais na definição do seu âmbito de
aplicação; e no critério que usa para promover a criação de um mercado único
europeu de serviços – o princípio do “país de origem”. O texto distingue
entre “serviços económicos de interesse geral” e “serviços de interesse geral”
(para bom entendedor, os serviços públicos). E declara restringir a aplicação
do novo quadro legal apenas aos primeiros. Sucede que em muitos serviços
públicos já se pratica o outsorcing ou a gestão privada. E, assim, a
directiva não evita que o mercado livre de prestação de serviços entre nos
serviços públicos pela porta do cavalo. Mas o que acentua a
contestação é que tal liberalização se faça na base das leis do “país de
origem”. Trocando por miúdos, uma empresa francesa de mediação de trabalho na
Europa desloca a sua sede social para um recôndito país da União como, por
exemplo, a Lituânia. A partir daí, poderá exportar trabalhadores para
serviços em França de acordo com as leis da Lituânia e não ao abrigo das leis
do “país de destino” desse contrato. Poderá, até, empregar trabalhadores
franceses em França, de acordo com as leis de trabalho e direitos sociais ou
ambientais em vigor na Lituânia. Não é preciso ser adivinho para perceber a
oposição que tal suscita. Em países muito atingidos pelas deslocalizações, o
horizonte só pode ser de tempestade. E a dualização dos mercados de trabalho
é a consequência mais que previsível deste pesadelo. É compreensível o pânico na direita francesa e entre os socialistas do “sim”, a braços com uma maciça rebelião dos seus eleitores. Em defesa do “sim”, os socialistas envolvem-se em todos os movimentos de contestação social, procurando demonstrar que Tratado e Bolkestein são coisas diferentes. Mas, por outro lado, é o crescimento da contestação social que está a fundir, nas ruas, os dois documentos. Quanto a Chirac, ante o êxito da greve geral da semana passada, decidiu abrir os cordões à bolsa. E logo a seguir, declarou “inaceitável” a directiva Bolkestein. Ele sabe que a quebra do “sim” se deve à deslocação dos eleitores para um “não” de esquerda. Mas nada disso interessa a Durão Barroso. Está a direita em risco de perder o essencial – o Tratado – e Barroso insiste na Bolkestein. Barroso é como os neocons de Washington, só sabe marchar em frente. Pode ser que se estampe e que a Europa ganhe com isso. |