|
Informação Alternativa |
|
União
Europeia |
|
21/05/2005 O Não que vem das profundezas BAUDRILLARD: a uma semana do referendo, este filósofo
interroga-se sobre a tenacidade do Não francês, «para lá da razão política».
Essa é, de facto, a grande revelação, tanto mais significativa quanto a
desproporção de meios entre os dois campos é abissal. As lideranças
partidárias a favor do Sim representam 70 por cento do eleitorado francês; na
televisão, a repartição entre Sim e Não, é de 75 para 25; na imprensa escrita,
a desigualdade é ainda mais acentuada; e, finalmente, existe um envolvimento
aberto do poder de Estado e das instituições europeias, que abdicaram do
dever de isenção, em favor do Sim. Apesar de tudo isto, apesar de nas cidades
francesas as frases mais benignas do Tratado inundarem, à chinesa, a paisagem
urbana, o “inexplicável” acontece: pelo menos metade dos franceses não se
impressiona nem se deixa convencer “pelos que sabem”. Uma «dissidência
silenciosa» está a tomar conta da França. E o filósofo conclui pela
existência de «um cadáver na montra». Esse cadáver não é exactamente o Tratado ou a Constituição,
como prefiram chamar‑lhe. É o modo de existência da política
contemporânea, a intolerabilidade de um exercício do poder onde tudo o que se
pede ao povo «é o consenso», o «Sim ao Sim», porque aí se encontram «os bons
do lado do Universal» contra os outros, «os enviados para as trevas da
História». Baudrillard compara este Não «das profundezas» ao que,
faz dois anos, tentou evitar a ocupação anunciada do Iraque. Em ambos os
casos, segundo ele, os de cima procuram impor as suas escolhas contra as
opiniões da maioria. E o Não representaria, simplesmente, a rejeição desse
modo de existir da política. «O Não não é um Não à Europa, é um Não ao Sim»,
à sua arrogância totalitária. Tem
razão. L’Europe divine,
Jean Baudrillard para o Libération, 17.05.05. -------x------- NEGRI: um segundo filósofo, este situado na extrema‑esquerda
do pensamento político, interveio na liça, mas pelo lado do Sim. Numa breve
entrevista ao Libération, Toni Negri explica que o Tratado é mais um
passo para acabar com a «merda do Estado-nação», incapaz de se afirmar como «contra-poder
à dominação imperial». O sentido do seu voto destinar-se-ia, assim, a evitar
o desaparecimento da Europa... O filósofo italiano é, seguramente, um dos mais
criativos teóricos marxistas contemporâneos. A sua última grande obra, Império,
inspirou milhares de activistas dos movimentos por uma globalização
alternativa. Sucede que um dos aspectos mais polémicos do livro – que o poder
na sociedade capitalista globalizada deixou de ter centro ou centros, para se
exprimir em rede – recebeu, com a invasão do Iraque, um poderoso desmentido
factual. Afinal, o Império “ainda” tinha centro. A História pesava “ainda”
sobre as novas tendências que o autor iluminava com a sua análise e da qual
deduzia um novo antagonista – a “multitude”. Agora, pelos vistos, esta
precisa da ajuda da Europa do Tratado para se bater contra «o golpe americano
no Império». O mais curioso na posição de Negri é que o seu
argumento se exprime enquanto pura razão de política fria. Como se o autor se
tivesse esquecido, de novo, que os modernos antagonismos não dispensam “as
profundezas” da História. Se há evidência na disputa francesa, é a de que só o
Não leva a Europa a discutir‑se. Mais: só o Não provoca a emergência
de um novo protagonista no debate europeu – precisamente a “multitude” tão
incensada pelo filósofo... Oui, pour faire
disparaître cette merde d’Etat-nation, entrevista de Toni Negri ao Libération,
13.05.05. -------x------- PACHECO PEREIRA: não é por causa da “Multitude” e muito
menos devido ao Império, que Pacheco Pereira decidiu esta semana entrar
abertamente no debate sobre a Europa do Tratado. O seu ponto de vista não
está ainda detalhado, mas creio não me enganar se disser que o seu Não é
contra os saltos no abismo que fazem tábua rasa das histórias das nações e se
estampam por “excesso de voluntarismo”. Pacheco passou uns anos pela Europa – vulgo Bruxelas e
Estrasburgo – e viu o mesmo que eu: que a “Europa” é uma construção
tecno-iluminada, divorciada das opiniões públicas e, acima de tudo, um
casamento de interesses sem grama de paixão. Do diagnóstico, presumo que
Pacheco infira que não se deve andar depressa demais ou, pior, que se dêem os
passos errados que alimentam as “profundezas” das reacções soberanistas. Se
este é o argumento, merece discussão séria. Aliás, a discussão séria começa
exactamente onde acaba a chantagem miserável que visa condenar cada um de nós
a dizer simplesmente Sim ao Sim, porque a alternativa é o caos. A 29, se os
franceses votarem por quantos reclamam, na Europa, o direito à inteligência,
se verá que não. Está na hora de organizar o movimento do “Não”, Pacheco Pereira, 18.05.05. |