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31/10/2004 A Constituição que não o é – Ou porque convém votar contra o Tratado
que institui a Constituição Europeia – Os Chefes de Estado ou de
Governo dos vinte e cinco países que formam actualmente a União Europeia
acabam de assinar o Tratado pelo qual se institui uma Constituição para a
Europa. A partir de agora, deverá ir
sendo ratificado por cada um desses países, segundo o procedimento que em
cada lugar esteja estabelecido. Espanha será o primeiro país a celebrar um
referendum em Fevereiro de 2005, como ocorrerá, mais adiante, nos demais que
tenham optado por submeter o Tratado a consulta popular. O previsto é que um ou vários
países não ratifiquem o Tratado se é submetido a referendum, ainda que o
Presidente Chirac já tenha adiantado que, se isso sucede, recorrer‑se‑á
a procedimentos extraordinários para que fique finalmente vigente. Já ocorreu em ocasiões
anteriores: se não sai o Sim à primeira, como ocorreu com o Tratado de
Maastricht na Dinamarca ou com o de Nice na Irlanda, faz-se outro referendum
e assim sem descanso até à vitória final. Esse é o peculiar estilo europeu de
respeitar “democraticamente” a vontade popular. A primeira coisa que é
necessário sublinhar é que a chamada “constituição europeia” não é na
realidade uma Constituição. O que entrou em trâmite de ratificação nos
diferentes estados membros é um Tratado e isso não é somente uma questão de
matizes. Em rigor, nem sequer se devia
falar de constituição no título do projecto de Tratado (“Projecto de Tratado
pelo qual se institui uma Constituição para a Europa”). Recorre-se ao termo
“institui” para poder incorporar forçadamente o conceito constitucional,
precisamente porque não são os povos os que “se constituem” numa carta magna.
Nos instituem uma constituição porque não se desejou que nos constituamos.
Parece um jogo de palavras mas tem a sua importância. Significa, por um lado, que o
texto que se vai submeter a ratificação não nasce de um autêntico processo
constituinte. Isto é, que não se origina na soberania do povo, que é a fonte
dos poderes democráticos, mas que deriva de instituições de representação
indirecta. Também não é por acaso que se
tenha tanto empenho em falar de constituição quando na realidade não o é. A
questão é que, ao fazê-lo, está-se a fazer crer que contém as máximas
garantias que implica uma Carta Magna. Mas não é verdade. Em todo o caso, as garantias
constitucionais permanecem nos diferentes estados e precisamente por isso
também não é verdade que, deste ponto de vista, se trate de um “avanço”, como
afirmam os seus defensores. Este Tratado, como outros, incorpora-se depois às
constituições nacionais mas ao não nascer, para o conjunto europeu, como
norma de normas carece do poder moral e legal que tem uma constituição no seu
espaço nacional. O Tratado apresenta também
uma limitação fundamental que o diferencia do que é uma constituição. Qualquer
destas tem a função ou a capacidade de limitar e regular democraticamente os
poderes. Esse é justamente o sentido e a vantagem de dispor de uma norma
suprema com a máxima legitimidade moral e legal. Mas o Tratado Europeu não
pretende isso nem pode consegui-lo. Na realidade, limita-se a estabelecer um
marco, desenhado pelos próprios governos, para regular as relações entre
eles. É uma norma de regulação de relações intergovernamentais. Não que isso
seja pouco num espaço político constituído por vinte e cinco nações, mas a
verdade é que não é nada mais do que isso. Finalmente, considerar como
constituição o que não o é tem um efeito virtual imediato: já ninguém se
proporá que há que fazer uma verdadeira constituição. Ao apresentar o Tratado como
se na realidade fosse uma Constituição, sem sê-lo, comete-se uma verdadeira
fraude porque se está a evitar pela via dos factos consumados que possa haver
uma constituição autêntica no futuro. Em definitivo, este Tratado
nasce sem a legitimidade democrática que têm as autênticas constituições que
nascem da soberania popular. Não constitui uma norma suprema que proporcione
as garantias que estão efectivamente associadas às cartas magnas e limita‑se
a ser um instrumento de regulação intergovernamental. Não obstante, nem sequer tudo
isto é o seu problema principal. O que me parece mais negativo
deste Tratado que nos vai ser proposto para ratificar como se fosse uma
Constituição é o projecto social, político e económico que oferece aos
europeus. Do meu ponto de vista, não é
um instrumento útil na hora de constituir uma sociedade política mais justa
ou democrática, uma sociedade mais vertebrada ou igualitária, ou uma economia
mais capaz de proporcionar riqueza e bem-estar. Naturalmente, tudo é questão
de opiniões, mas o relevante é a letra do texto. Se se lê com detalhe, é
evidente que a Carta nasce principalmente para consolidar um projecto europeu
cuja coluna vertebral é o dinheiro e as finanças. Tal e como tem vindo a
ocorrer até agora, o que de verdade merece especial concretização, maior
disciplina legal, programação privilegiada e máxima proeminência são as
questões monetárias e financeiras. A Constituição assume sem
praticamente matizes as ideias neoliberais em voga nos últimos anos. A livre
circulação de capitais, a independência do Banco Central Europeu, a
estabilidade de preços como o seu fim exclusivo ou a entronização do
princípio de flexibilidade e de liberdade de mercado como guias da actividade
económica são os princípios que se dão já como imutáveis na hora de desenhar
as políticas e governar a integração Europeia. Com o Tratado aprovado não
haverá outra via para o desenvolvimento económico e social que não seja o que
leva a fortalecer os mercados e a privilegiar o investimento e os fluxos de
capital privado. Tampouco neste aspecto se
pode dizer honradamente que se trate de um “avanço” já que vem consolidar
princípios retóricos cuja natureza irreal e verdadeiro efeito social e
económico ficaram demonstrados já no século XIX. Nem sequer se permitiu
acomodar algumas das mais tímidas e reformistas propostas da social‑democracia
que permitiram que a Europa atingisse níveis de bem-estar que agora nos
parecem inclusive invejáveis. O Tratado fundamenta‑se
em ideias neoliberais legítimas, em princípios de política económica que se
podem defender com plena liberdade. Ninguém pode censurar que existam
neoliberais que tratem de pigmentar com as suas ideias os projectos europeus
na maior medida possível. O problema é que se negue a possibilidade efectiva
de debater e, o que é pior, que se queira ocultar e dissimular suas
autênticas consequências sobre a economia e a sociedade europeias. O incremento da pobreza, a
desigualdade, a generalização da precariedade no emprego, a diminuição das
despesas sociais e do alcance do Estado de Bem-estar, a individualização
insolidária dos comportamentos humanos, a mercantilização da vida social, a
banalização cultural, a perda de referências morais e o predomínio de uma
ética hedonista e vazia são já traços indiscutíveis da nossa realidade social.
E o são como resultado dos princípios e das ideias que agora quer estabelecer
definitivamente este Tratado. Não se pode aceitar que a forma e os princípios
neoliberais de governo que fizeram com que a sociedade Europeia e mundial
tenham ido a pior se apresentem agora como as pré‑condições do
progresso e do bem-estar social. Tudo isso se traduz
claramente no articulado do Tratado, que se refere com extraordinária
concretização aos compromissos financeiros, à disciplina macro‑económica,
aos princípios flexibilizadores e ao predomínio do mercado, mas que de modo
nenhum se aproxima com idêntico detalhe aos assuntos sociais. A disciplina aplicada às
questões económico‑financeiras que interessam aos grandes capitais e
empresas contrasta com a ambiguidade com que se formulam os objectivos e as
políticas sociais, a respeito dos quais só aparecem referências, mais do que
compromissos, sumamente esfumadas e inconcretas. E, mais uma vez, deixa-se de
lado o que sim seria um avanço imprescindível para impedir que o euro se
converta numa fonte permanente de desequilíbrios internos: a criação de uma
autêntica fazenda europeia e a disposição de um orçamento comunitário com
capacidade de intervenção para corrigir as assimetrias e para impulsionar o
desenvolvimento económico integrado, vertebrador e solidário. O novo tratado europeu não
representa um avanço em nenhum aspecto substancial. Ou melhor dito, só num:
no aprofundamento de um projecto europeu neoliberal que não foi capaz nem de
aprofundar na democratização institucional, nem na igualdade efectiva dos
territórios, nem na universalização de valores progressistas na Europa, como
as últimas vicissitudes da Comissão demonstram bem às claras. O chamado “déficit
democrático” das nossas instituições europeias permanece e de facto
engrandece‑se ao manifestar-se com mais países envolvidos no projecto.
A Constituição também não avança em fórmulas que façam da Europa um espaço
social e político mais independente dos Estados Unidos em matéria militar ou
de segurança. É normal que o texto seja
defendido pelos liberais, mas o que dá trabalho entender é o que devem ter
visto nele os progressistas que o defendem. Penso concretamente nos
socialistas que têm às suas costas uma ampla tradição de luta pelo Estado
Social de Direito e que doutrinalmente defendem as políticas social‑democratas.
Desconheço que tipo de debate realizaram no seio dos seus partidos, mas
duvido muito que a imensa maioria dos seus militantes conheçam bem o texto e
possam estar a favor de algo que tão longe está do seu ideário. De facto, em França há
correntes socialistas que manifestaram a sua negativa a votar favoravelmente
um texto que não recolhe os ideais e os compromissos não já do socialismo
mais radical mas da social‑democracia mais moderada. Algo parecido teria que dizer
dos sindicatos que anunciaram o seu voto favorável ao Tratado. Ainda que tema
que a única explicação desta posição ante um texto tão sumamente ambíguo,
conservador e pouco operativo para defender os interesses dos trabalhadores seja
a domesticação ideológica a que levou a sua dependência financeira dos
governos. Não posso entendê-lo de outra maneira. Como em tantas outras
ocasiões, agora quer‑se recorrer ao discurso da fatalidade fazendo-nos
crer que, se não se aprova o Tratado, tudo o que tem de positivo a integração
europeia saltará pelos ares. E assim, acusa-se os temos uma ideia diferente
da Europa de inimigos genéricos da integração europeia. Para salvar a própria
posição política demoniza‑se os que pensam de modo diferente, ridicularizam‑se
as suas razões, não se escutam os seus argumentos e utilizam‑se os
argumentos do poder para transmitir um discurso que não responde à realidade
dos factos. Mas esse é um argumento e uma
atitude perversa, antidemocrática e rejeitável. Por que se tem de votar a
favor de mais um Tratado como se fosse uma carta magna quando não o é? O democrático não é que cada
cidadão expresse a sua preferência para que a decisão resultante corresponda
à preferência maioritária? Para que serve então votar a
favor do que na realidade não se prefere? Que poderes imensos são os
que nos querem fazer crer que o branco é negro? Como é possível que os que
dizem não ser liberais mas socialistas, verdes, ou inclusive comunistas
assumam sem mais um projecto que não faz senão institucionalizar as ideias
que dizem combater? Parece‑me que, como em
tantas outras ocasiões, os cidadãos têm o dever de expressar a sua
preferência autêntica. É necessário que se saiba que na Europa há cidadãos,
espero que muitos, que não querem que a Europa seja somente um processo que
privilegia o monetário e a liberdade financeira, que renuncia a instrumentos
essenciais para o bem-estar social e que subordina os objectivos sociais à
consecução de equilíbrios macro‑económicos nominalistas cuja conveniência
nem sequer foi demonstrada com carácter indiscutível. Opor-se a que este Tratado
seja o que marque o horizonte da Europa não equivale a estar genericamente
contra o projecto europeu. Pelo contrário, é a base para poder avançar para
uma Europa mais democrática e social, mais equitativa e mais satisfatória
para a imensa maioria dos seus cidadãos. É lógico que num espaço
político como o europeu haja uma grande diversidade de projectos. Inclusive
poderia aceitar-se que é melhor algo que nada. Mas como conseguiríamos
manifestar a nossa preferência os que não nos sentimos identificados com as
ideias neoliberais se votamos a favor do Tratado? Enfrentar-se ao Tratado
manifestando as suas carências sociais, o seu decisivo escoramento para o
liberalismo e a sua indesejada assunção de princípios que impediram avançar
suficientemente para a igualdade e o progresso social e económico é
imprescindível para que possam tomar-se em conta outras leituras alternativas
ao projecto europeu. Trata-se, pois, de votar
contra o Tratado mas de manifestar ao mesmo tempo a nossa vontade de avançar
para outro estado de coisas. E, sobretudo, de transladar à cidadania a
natureza dessa outra Europa pela qual expressamos a nossa oposição ao
Tratado. Por isso ninguém pode acusar os manifestamos a nossa oposição ao
Tratado de coincidência com os extremistas de direita que se opõem a qualquer
processo de integração europeia. Os que acreditamos com
sinceridade que outro mundo é possível temos de começar a construí-lo a
partir da nossa própria casa e desde já. E isso passa por pôr todas as pedras
democráticas que possamos no caminho dos que procuram, pelo contrário, que se
consolide o mundo de que não gostamos. Tão simples como isso. Ao menos, nesta ocasião Rodríguez Zapatero teve a valentia política e
a coerência de convocar um referendo em Espanha. Isso é de agradecer mas há
que exigir que se facilite um debate plural, sensato e rigoroso e que não se
acabe por impor a demagogia, o catastrofismo e a dissimulação. Mas não
esqueçamos que isso não depende somente dos demais mas também de nós mesmos,
dos que pensamos que outra Europa é possível. NOTA: O Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa pode ser obtido em português aqui. |