Informação Alternativa

União Europeia

06/10/2004

 

Morte subterrânea

 

Tiago Soares

Planeta Porto Alegre

A Shell é uma daquelas empresas não muito queridas pelos ambientalistas. A multinacional, segunda maior petrolífera do mundo, entusiasmada exploradora de minérios, petroquímica e gás, contava, pelo menos, com um argumento para ganhar a simpatia perdida – a Royal Dutch/Shell não se mete com energia atómica. Bom, isso até agora. De acordo com investigação levada a cabo pelo website britânico Corporate Watch, a companhia teria transformado uma antiga usina petroquímica sua, desactivada em 1988, num depósito irregular de lixo radioactivo.

A história começa com Raymond Fox. Morador de Reading (cidade inglesa nos arredores de Londres), Fox mudou-se, em 1988, para uma casa construída em terreno adjacente a uma usina desactivada da Shell. Em 1997, investigando um vazamento que, vindo das antigas instalações da petrolífera, escoava para a sua propriedade, Fox teria entrado em contacto com material altamente tóxico. Pouco tempo depois, caiu gravemente doente. Vítima de hemorragias, desmaios e dores agonizantes, cabelos caindo aos montes, Fox foi diagnosticado como alvo de fortíssima intoxicação.

Uma coisa, porém, chamou a atenção do médico que o examinou. As amostras de tecido analisadas indicavam, além da presença de elementos comuns ao processo petroquímico – como metais pesados e outras toxinas – uma carga altíssima de urânio, plutónio, cobalto 60 e outras substâncias radioactivas.

Levantada a hipótese de contaminação radioactiva, o terreno da residência de Fox passou a ser objecto de medições de radioactividade por cientistas independentes e agências ligadas ao governo inglês. Algumas dessas medições – incluindo uma realizada pelo renomado físico nuclear Chris Busby a pedido da BBC – indicavam altíssimos níveis de contaminação por plutónio.

A gravidade do episódio levou Fox a pedir reparação pelos danos sofridos na Justiça inglesa, além de encaminhar processo à Comissão Europeia (CE) – no que contou com o apoio de cientistas e parlamentares. Quando inquirido a respeito do caso pela CE, o governo inglês apontou para a possibilidade da contaminação ser resquício de testes com armas nucleares realizados na década de 1950.

Um detalhe, porém, fazia com que a explicação oficial não colasse – os isótopos (átomos de um mesmo elemento químico, com o mesmo número de protões mas diferente número de neutrões) remanescentes dos testes nucleares ingleses simplesmente não batiam com os encontrados na residência de Raymond Fox.

Uma possível solução para o mistério emergiu de investigação paralela realizada pela BBC e pela Corporate Watch. Em reportagem especial transmitida pela emissora estatal britânica em 5 de Outubro de 2003, um cientista nuclear que, na entrevista, prefere manter-se anónimo (segundo reportagem do Corporate Watch publicada em Julho de 2003, tratar­‑se­‑ia de David Geenwood, pesquisador ligado ao University College Hospital, de Londres) afirma que a usina desactivada da Shell esconderia um pequeno reactor nuclear. O cientista, que afirma ter visitado a instalação inúmeras vezes nas décadas de 60 e 70, diz, na entrevista, que o reactor seria utilizado para experimentos nucleares tocados pela transnacional. A Shell nega tal alegação.

Oficialmente, o flerte da Shell com a energia nuclear é restrito ao período entre 1973 e 1982. A companhia, que em 1973 adquiriu 50% da General Atomic (subsidiária da Gulf voltada para o desenvolvimento de tecnologia para fins nucleares), teria aparentemente perdido o interesse no sector após anos de altíssimos investimentos revertidos em lucros minguados. Alguns documentos, apenas recentemente revelados pelo governo inglês, mostram, porém, que o interesse da empresa pelo sector vem desde a década de 50.

Registros publicados em 14 de Setembro último pelo Corporate Watch revelam que a companhia teria, entre outras coisas, negociado contratos com o governo inglês relativos à produção de “água pesada” (isótopo utilizado na produção de armas atómicas), além de mostrar interesse no desenvolvimento de propulsores atómicos de uso naval. Os documentos (arquivados sob as legendas AB16/1856 e AB16/1856) cobrem um período que vai de 1950 a 1959, e evidenciam uma relação bastante próxima entre a Shell e o programa nuclear do governo inglês.

Iniciadas há dois anos. as investigações ainda são incipientes. Elas continuam, em boa parte, apoiadas nos esforços de activistas e jornalistas independentes. Apesar do pouco ânimo do governo inglês em pronunciar-se sobre o caso, e das tentativas cegas da Shell em dar o assunto por encerrado (quando perguntado sobre o episódio, o porta voz da companhia costuma responder com um explicativo «o nosso negócio é petróleo»), o quebra-cabeças espera ainda por novas peças. Afinal de contas, algumas coisas – como descobriu Raymond Fox – simplesmente não podem continuar enterradas para sempre.

 

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Fontes:

 

BBC – Radio 4’s “The Bunker”

http://www.bbc.co.uk/radio4/history/document/index_2003.shtml

 

Corporate Watch – Shell Profile

http://www.corporatewatch.org.uk/profiles/oil_gas/shell/shell1.html

 

Corporate Watch – Shell Shock

http://www.corporatewatch.org.uk/newsletter/issue14/issue14_part1.htm

 

Corporate Watch – Nuclear Contamination in Reading: A Very British Cover-Up

http://www.corporatewatch.org.uk/news/ray_fox2004.htm

 

Corporate Watch – Shell's Nuclear Past

http://www.corporatewatch.org.uk/news/shell_past.htm

 

IOP – The Bunker Review

http://ej.iop.org/links/q62/L,SqzSKNG7srKiaTgSR+Vg/jr34b1.pdf

 

Nuclear Crimes

http://www.nuclearcrimes.com