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09/07/2004 Leonardo
Boff * Há um fato
que faz pensar: a crescente violência em todos os âmbitos do mundo e da sociedade.
Mas há um que é perturbador: a exaltação aberta da violência não poupando
sequer o universo do entretenimento infantil. Chegamos a
um ponto culminante com a construção do princípio da auto-destruição. Por que
chegamos a isso? Seguramente são múltiplas as causalidades estruturais e não
podemos ser simplistas neste campo. Mas há uma estrutura, erigida em
princípio, que explica em grande parte a atmosfera geral de violência: a
competitividade ou a concorrência sem limites. Ela vigora
primariamente no campo da economia capitalista de mercado. Comparece como o
motor secreto de todo o sistema de produção e consumo. Quem for mais apto
(forte) na concorrência quanto aos preços, às facilidades de pagamento, à
variedade e à qualidade, este vence. A competitividade opera implacável
darwinismo social: selecciona os mais fortes. Estes, diz-se, merecem
sobreviver, pois dinamizam a economia. Os mais fracos são peso morto, por
isso são incorporados ou eliminados. Essa é a lógica feroz. A
competitividade invadiu praticamente todos os espaços: as nações, as regiões,
as escolas, os desportos, as igrejas e as famílias. Para ser eficaz, a
competitividade deve ser agressiva. Quem consegue atrair mais e dar mais
vantagens? Não é de se admirar que tudo passa a ser oportunidade de ganho e
se transformou em mercadoria, do electrodoméstico à religião. Os espaços
pessoais e sociais que têm valor mas que não têm preço como a gratuidade, a
cooperação, a amizade, o amor, a compaixão e a devoção, ficam cada vez mais
acantonados. Mas estes são os lugares onde respiramos humanamente, longe do
jogo dos interesses. Seu enfraquecimento nos faz anémicos e nos desumaniza. Na medida
em que prevalece sobre outros valores, a competitividade provoca mais e mais
tensões, conflitos e violências. Ninguém aceita perder nem ser engolido pelo
outro. Luta defendendo-se e atacando. Ocorre que após a derrocada do
socialismo real, com a homogeneização do espaço económico de cunho
capitalista, acompanhada pela cultura política neoliberal, privatista e
individualista, os dinamismos da concorrência foram levados ao extremo. Em
consequência, os conflitos recrudesceram e a vontade de fazer guerra não foi
refreada. A potência hegemónica, os EUA, são campeões em competitividade,
usando todos os meios, inclusive armas para sempre triunfar sobre os outros. Como
romper esta lógica férrea? Resgatando e dando centralidade àquilo que outrora
nos fez dar o salto da animalidade à humanidade. O que nos fez deixar para
trás a animalidade foi o princípio de cooperação e de cuidado. Nossos
ancestrais antropóides saiam em busca de alimento. Ao invés de cada qual
comer sozinho como os animais, traziam ao grupo e repartiam solidariamente
entre si. Daí nasceu a cooperação, a socialidade e a linguagem. Por este
gesto inauguramos a espécie humana. Face aos mais fracos, ao invés de
entregá-los à selecção natural, inventamos o cuidado e a compaixão para
mantê-los vivos entre nós. Hoje como
outrora são os valores ligados à cooperação, ao cuidado e à compaixão que
limitarão a voracidade da concorrência, desarmarão os mecanismos do ódio e
darão rosto humano e civilizado à fase planetária da humanidade. Importa
começar já agora para que não seja tarde demais. |
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Teólogo