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27/09/2004 Frei Betto * O neoliberalismo, que se
esforça em preparar o funeral da história, insiste em que devemos deixar de
pensar. Devemos redizer as nossas palavras e submeter o pensamento ao
pragmatismo tão em moda, como a arte da prosperidade. Ou ao realismo céptico
de quem se dobra ao pensamento único, delegando ao sistema o direito de
pensar por ele. Quem acata tão impensada
sugestão, afasta-se de Platão, que fazia do acto de pensar uma forma de
dialogar. Quem se deixa dominar pelo medo de pensar, evita as contradições e
opiniões divergentes. Neste caso, assimila o pensamento de quem o proíbe de
pensar e se alheia da busca da verdade, confundindo esta com a autoridade. E
o pior: julga que o seu pobre pensar é a verdade lapidar, olvidando que há a
sua verdade, a minha verdade e a verdade verdadeira, como ensinavam os
antigos sábios chineses. Toda verdade humana é
relativa, e o nosso juízo crítico, dotado de bom humor, deve sempre
persegui-la, peneirando-a na dúvida. Se deixamos de lado o bom humor e o
senso crítico, pisamos no alçapão dos dogmas e, lá dentro, somos congelados
com a nossa aparente verdade. Ora, prefiro a maratona de
Descartes, submetendo o meu pensamento ao crivo da dúvida, de modo a
construir, por uma sequência de operações, uma representação mental da
realidade. Pensar é calcular, dizia Hobbes,
que não estava falando da sua conta bancária. Pensar é unificar
representações numa consciência, afirmava Kant, mestre na lapidação de
conceitos. Wittgenstein enfatizava que pensar é elaborar proposições dotadas
de sentido. Pensar não é abraçar o que a
minha mente concebe. É desmascarar o saber travestido de pensamento. Como
lembrava o velho Marx, se toda a essência e aparência coincidissem, as
ciências seriam supérfluas. Quem pensa vê além das aparências. Mas as aparências
seduzem a ciência. Por isso, esta tende a rejeitar a sua irmã gémea, a
filosofia. Destituída de pressupostos filosóficos, a parafernália
tecnocientífica cai na gandaia. Foge da ética como o diabo da cruz. Não é à-toa
que Hanna Arendt desconfiava do juízo político dos cientistas. Não pela falta
de carácter ao aceitarem fabricar armas atómicas, nem pela ingenuidade (foram
os últimos a saber de que modo as armas seriam empregadas), mas porque se auto-exilaram
numa esfera onde «a linguagem perdeu o seu poder». (Ora, convém não divorciar as
ciências da filosofia. O que seria de Galileu sem Descartes? Caso contrário,
não saberemos aprimorar o ser humano). O sistema, entretanto,
insiste: demita-se do seu pensar. Atrofie a sua imaginação política. Não
queira modificar a realidade. Eu reajo: quero ser livre!
Ele me responde: liberdade não é pensar, é desfrutar. E isto não depende da
sua cabeça, mas do seu bolso. Não perca tempo sendo voz discordante ou
fazendo eco às opiniões divergentes. Não vê que a filosofia e a ética foram
banidas das escolas? A minha sina, entretanto, é
pensar. Encontrar as mediações que encarnem as minhas utopias em topias.
Tornar possível o desejável – desbancar a hegemonia dos valores económicos,
livrar a cultura da condição de refém do mero entretenimento, reduzir significativamente
a exclusão social. Estreitam-se sempre mais os
vínculos entre bens culturais e bens de consumo. Um e outro passam a ser
monitorados por um princípio único: satisfação ao consumidor. Portanto, nada
de produções culturais críticas, propositivas, emblemáticas, subversivas.
Tudo deve ser muito "clean", comportado, sentimental, melodramático
e conformista. Penso, logo resisto. E acho graça aos arautos do fim das ideologias. Ora, ninguém é capaz de arrancar os óculos que estão atrás dos olhos e pelos quais enxergamos a realidade. Não ignoro as minhas ignorâncias. Por isso, dilato a minha fome de conhecimento. Exerço a minha actividade crítica. Desmascaro o consensual. Ponho em questão as representações colectivas e as ideias estabelecidas. «Não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí», grito com José Régio. |
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Frei Betto é escritor, autor de "A Obra do Artista – uma visão holística
do Universo" (Ática), entre outros livros.