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Novembro 2006 Alain Bihr * Em 1993, para defender um tratado de livre comércio, o presidente
Bill Clinton citou Adam Smith, que a seu ver tinha estabelecido que «os
hábitos do comércio contradizem os da guerra». Desde há mais de dois séculos,
a ideia de que uma disposição natural para a troca explicaria o capitalismo e
favoreceria a paz deve muito a Adam Smith. Esta génese do capitalismo só
esquece um detalhe: as relações de produção... Quando, onde, como e por que razão apareceu o capitalismo? Estas
perguntas já fizeram correr rios de tinta nos últimos dois séculos, muito por
culpa da dificuldade desta problemática, da diversidade de pontos vista e dos
ângulos de análise. Tratando-se de questões relativas às origens de um
fenómeno, por definição sempre obscuras, as respostas estão continuamente a
ser postas em causa, à medida que se descobrem novos materiais
historiográficos e se inventam novas hipóteses. Mas estas divergências
devem-se igualmente à aplicação de princípios de explicação diferentes,
implicando cada um deles uma forma particular de pôr a questão. A primeira explicação de conjunto das origens do capitalismo é aquela
cuja formulação acompanhou a constituição do pensamento económico clássico, a
partir da segunda metade do século XVIII. É também a que conheceu, desde
então, a mais ampla difusão, continuando a inspirar a maior parte das abordagens
da história do capital e do capitalismo. De resto, devido a essas origens,
continua a ser marcada pelos pressupostos do pensamento liberal. A sua característica principal é atenção privilegiada, quando não
exclusiva, ao mercado. Na sua perspectiva, a formação do capital como
relação de produção e o desenvolvimento do capitalismo como modo de produção
reduzem‑se, no essencial, à extensão e consolidação da esfera das
relações comerciais. Ela escrutina por isso, com muito cuidado, o surgimento
e os resultados dessas relações, as condições que os favoreceram mas também
os obstáculos que lhes travaram o caminho, as sinergias ou, pelo contrário,
os conflitos entre o desenvolvimento do comércio à distância e as estruturas
políticas que estiveram no centro destes processos, as formas comerciais do
capital que se desenvolveram graças a eles, etc. Sem que sejam
necessariamente mal conhecidos ou negligenciados os escolhos que muitas vezes
travaram, ou bloquearam, o sentido da marcha, a ideia que sobressai do
conjunto de estudos inspirados por este paradigma liberal é que o capital e o
capitalismo resultam da dinâmica definitivamente instalada das relações
comerciais, elas mesmas entendidas como a forma normal, ou mesmo como a forma
por excelência, da relação social. UMA DEFINIÇÃO QUE IGNORA A HISTÓRIA Uma das primeiras expressões deste princípio pode ser encontrada na
obra principal de Adam Smith, Investigação acerca da natureza e das causas
da riqueza das nações (1776), que passa por ser a fundadora da economia
política clássica [1]. Desde as primeiras páginas, o autor afirma a sua
convicção da existência no homem de uma «tendência que o leva a traficar, a
fazer trocas de uma coisa por outra», tendência especificamente humana de que
não encontramos quaisquer traços nas outras espécies animais. Tendência que
Adam Smith considera definitivamente fundamentada na mútua dependência dos
homens que vivem em sociedade, sendo a troca melhor do que a generosidade
para satisfazer as exigências desta última: «(...) O homem tem quase
continuamente necessidade de receber ajuda dos seus semelhantes, e seria em
vão que esperaria que essa ajuda dependesse apenas da bondade alheia. Será
muito mais seguro consegui‑la se o homem se dirigir aos interesses
pessoais dos outros e se os persuadir de que é para sua própria vantagem que
devem fazer o que pretende que eles façam. É o que faz aquele que propõe a
outrém um negócio qualquer, seguindo a seguinte proposição: “Dê-me aquilo de
que preciso e receberá de mim aquilo de que você precisa”». Desta tendência para a troca resulta, segundo Adam Smith, um impulso
para o desenvolvimento da divisão do trabalho, tendo cada um desde logo
interesse em se especializar no tipo de actividade para a qual a natureza, a
tradição ou a experiência pessoal o tornaram mais apto: «Desta forma, a
certeza de poder trocar todo o produto do seu trabalho que exceda o consumo
próprio, por um excedente semelhante do produto do trabalho dos outros que
lhe possa ser necessário, encoraja ainda cada homem a dedicar-se a uma
ocupação particular e a cultivar, aperfeiçoando-se, tudo o que nele exista de
talento e inteligência para este tipo de trabalho». Da mesma forma, pode dizer-se que, para Adam Smith, a troca comercial
e a divisão do trabalho que ela implica, ao mesmo tempo como condição e
resultado, são consideradas como sendo um estado natural (nos vários sentidos
do termo) da sociedade, tendo como base o pressuposto de que esta não é, por
seu lado, mais do que a reunião de uma enorme quantidade de indivíduos puramente
egoístas, quer dizer, ao mesmo tempo perfeitamente autónomos (porque
proprietários privados do produto do seu trabalho, tal como dos seus meios de
produção) e unicamente movidos pela consideração do seu interesse pessoal na
mútua dependência que com outros estabelecem. É fácil percebermos que isto constitui um mito, no sentido próprio de
relato fabuloso que pretende explicar as origens e fundamentos do mundo em
geral e das instituições humanas em particular, se tomarmos em atenção, desde
logo, o carácter tautológico da explicação fornecida: Adam Smith pressupõe
que o estado natural da sociedade é precisamente aquele de que ele tenta
explicar a génese e o processo de desenvolvimento, a saber, uma estrutura
socio-económica caracterizada por um conjunto de produtores privados unidos
apenas por um sistema de relações comerciais. Repararemos de seguida que, se
o estado natural da sociedade tivesse sido alguma vez esse, o capitalismo
deveria ter nascido quase imediatamente após o fim da pré-história humana.
Ora foi preciso esperar muito mais para que isso acontecesse! Não tratarei aqui o alcance e o significado ideológico (apologético)
global de uma abordagem destas, que leva a conceber o capitalismo como o fim
da história humana, como o estado ideal do desenvolvimento social, porque
nele desabrocharia plenamente a quintessência comercial das relações sociais.
Limitar-me-ei a referir dois dos principais limites desse paradigma do
simples ponto de vista da inteligência do devir histórico. Em primeiro lugar, ao focar-se principalmente, ou mesmo
exclusivamente, no processo de circulação comercial, esta abordagem de
inspiração liberal acaba por negligenciar, e mesmo ocultar totalmente, as
relações de produção, entendidas aqui no seu sentido mais estrito como
o conjunto dos procedimentos, normas e instituições que condicionam a unidade
dos produtores e dos seus meios de produção, sem a qual nenhuma produção
poderia ter lugar. Ora, antes de colocar em circulação os produtos do
trabalho social, sejam de que natureza forem, antes de os transformar em
mercadorias, é preciso começar por os produzir; e são as condições que
presidem a essa produção que comandam em definitivo o destino dos produtos do
trabalho social. E, inclusivamente, a possibilidade ou não, para esses produtos,
de se tornarem mercadorias. Por não levarem em linha de conta as relações de
produção, os estudos inspirados por este paradigma liberal têm quase sempre
dificuldade, ou até falham redondamente, quando se trata de explicar por que
razão, longe de surgirem espontaneamente, as relações comerciais puderam
desenvolver-se em certas condições e circunstâncias, enquanto outras
condições e circunstâncias lhes eram sistematicamente desfavoráveis. Por
exemplo, por que razão o imenso império chinês permaneceu pouco receptivo às
relações comerciais durante milénios, enquanto as mesmas conheceram uma
expansão notável ao longo da Antiguidade mediterrânica. Em segundo lugar, e de resto pelos mesmos motivos, esses estudos não
compreendem a natureza da verdadeira revolução que se opera nas relações de
produção com a formação do capital e o desenvolvimento consequente do
capitalismo. Porque o próprio do capitalismo não é que o produto do trabalho
social nele tome geralmente a forma de mercadoria. Se «a riqueza das sociedades
em que reina o modo capitalista de produção se anuncia como uma “imensa
acumulação de mercadorias”», como constata Marx na abertura de O Capital
[2], é sobretudo e essencialmente porque as condições tanto subjectivas (as
forças de trabalho) como objectivas (os meios de produção) do trabalho social
em si mesmo se transformaram em mercadorias. Isto pressupõe, como Marx
demonstra longamente, a expropriação dos produtores e a sua redução ao
estatuto de «trabalhadores livres», não tendo outra escolha que não seja a de
venderem a única coisa de que ainda são proprietários, isto é, a sua força de
trabalho. Dito de outro modo, é nas relações de produção que jaz o segredo da
formidável expansão da esfera da circulação comercial que caracteriza o
capitalismo e de que este se orgulha: a segunda não é mais do que a aparência
sob a qual se manifestam as primeiras. De facto, não existe qualquer dinâmica trans-histórica de crescimento
e de desenvolvimento das relações comerciais. Por todo o lado, em todos os
tempos, a esfera da circulação comercial e monetária, partindo da
constituição de capital comercial a que pode dar origem, continua a ser
subordinada às relações de produção stricto sensu: às regras e
instituições que regulam as relações dos produtores com os seus meios de
produção, bem como as relações dos produtores e dos não-produtores entre eles
(a divisão social do trabalho) e por fim as relações dos produtores e dos
não-produtores com o produto do trabalho social. São essas relações de
produção que determinam tanto a possibilidade como os limites do
desenvolvimento da circulação comercial e monetária e, consequentemente, a
eventual formação e acumulação de capital comercial. Da mesma forma que são
as relações de produção que determinam a forma, a intensidade e em definitivo
os resultados dos inevitáveis efeitos de dissolução que, por retroacção, o
desenvolvimento da economia comercial e monetária, incluindo o capital
comercial, provocam neles. Numa palavra, se a elite da economia comercial e
do capital comercial está incontestavelmente entre os operadores da formação
da relação capitalista de produção, é na estrutura e dinâmica das relações
pré-capitalistas de produção que é preciso procurar as razões do facto de a
sua acção ter podido, ou não, chegar a um tal resultado. E, sob esse ângulo, as diferentes relações de produção que surgiram
no decurso da transição da pré-história à história ou ao longo desta última
não são certamente equivalentes. Aquelas que estruturam as sociedades “asiáticas”
não oferecem grande coisa ao desenvolvimento das relações comerciais e ainda
menos à acção dissolvente do capital comercial. Aquelas que caracterizam o
mundo antigo mediterrâneo fornecem-lhe, pelo contrário, um quadro e uma base
extremamente favoráveis; e, ainda assim, mostram-se muito permeáveis à sua
acção dissolvente: esta contribui nomeadamente para a concentração da
propriedade fundiária e para a expropriação de uma parte importante dos
produtores agrícolas. Mas, longe de conduzir à formação da relação capitalista
de produção, o conjunto do processo só desemboca nunca extensão da
escravatura e na constituição de uma plebe mantida com fins clientelistas,
devido nomeadamente à dependência económica e à tutela política na qual a
propriedade fundiária continuou a manter o capital comercial. São definitivamente as relações de produção feudais, como as que se
constituíram lentamente na Europa ocidental durante a Alta Idade Média, até
se cristalizarem nos séculos IX e X, por fusão entre as estruturas herdadas do
Baixo Império Romano e as da «comuna germânica» importadas pelos invasores,
que vão permitir o amadurecimento de diversas condições primordiais de
formação do capital. Sublinhei as originalidades fortes que constituem estas
relações feudais: a posse ou propriedade deixada aos servos de uma parte dos
seus meios de produção, do seu tempo de trabalho e do produto do seu
trabalho; a emancipação das cidades relativamente à estrutura
político-ideológica da propriedade fundiária, podendo estas desde logo dedicar-se
apenas ao desenvolvimento da economia comercial e do capital comercial; e,
por fim, a fragmentação do poder político, que o enfraquece globalmente e lhe
interdita a reconstituição de toda a estrutura imperial. ACUMULAÇÃO AO SERVIÇO DA BANCA Da sinergia entre estes diferentes factores, ela própria
característica das relações feudais de produção, resultará, em primeiro
lugar, o desenvolvimento do comércio: do comércio longínquo entre centros
urbanos, para começar, por ser a mais lucrativa das formas de comércio e a
única inicialmente aberta à acção do capital comercial; do comércio próximo,
depois, entre os centros urbanos e o campo que os cerca, por intermédio do
desenvolvimento de um artesanato comercial conexo do desenvolvimento do
capital comercial, mas também e sobretudo pela integração crescente da
produção agrícola e dos produtores agrícolas (servos, fazendeiros livres,
proprietários alodiais), conduzindo rapidamente a crescentes diferenciações
sociais entre eles, enquanto faz nascer uma camada de lavradores ricos lado a
lado com trabalhadores braçais empobrecidos e jornaleiros já expropriados. As relações de produção feudais terão assim contribuído directamente
para a acumulação da riqueza monetária nas mãos dos mercadores, dos usurários
e dos banqueiros, assim como para a sua concentração, nomeadamente sob a
forma de companhias comerciais com múltiplas sucursais, aliando as práticas
do negócio, da banca e dos seguros. Era essa a primeira condição essencial de
possibilidade de formação das relações capitalistas de produção. ______ * Professor de Sociologia na Universidade de Franche-Comté. Este texto foi
extraído de La Préhistoire du capital (Page deux, Lausana). [1] Adam Smith, La richesse des nations, Flammarion, Paris,
1991, tomo I. As citações seguintes são extraídas desta edição (em português:
A Riqueza das Nações, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1976). [2] Karl Marx, Le Capital, Éditions Sociales, Paris, 1948,
tomo I, p. 51 (em português: O Capital, Edições Avante!, Lisboa,
1990). |