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09/02/2005 Ramón
Chao A Paul Lafargue devemos muito mais do que esse primoroso tratado que admiro e me agradaria praticar, O direito à preguiça. Em 1871, Lafargue funda a Nova Federação Socialista, fermento do Partido de Pablo Iglesias. Passado pouco tempo, cerca de 1880, escreve esse Direito à preguiça, cujas primeiras linhas recordam o Manifesto do seu sogro. Marx tinha escrito em Fevereiro de 1848: «Um fantasma percorre a Europa: o fantasma do comunismo. Todas as forças da velha Europa se uniram em santa cruzada para acossar esse fantasma: o Papa e o czar...», e Lafargue diz, mais de trinta anos depois : «Uma estranha loucura se apoderou das classes trabalhadoras das nações em que reina a civilização capitalista (...). O trabalho é a causa de todas as degenerações intelectuais , de todas as deformações orgânicas». É pouco acessível a obra jornalística de Lafargue. O que se consegue hoje é sugestivo, e basta modificar alguns termos para que adquira plena actualidade. No artigo A Língua francesa assinala que o idioma de Molière sofreu uma mudança total depois da Revolução de 1789: «a língua da nova burguesia, a que se falava na tribuna da Assembleia nacional, expulsou a língua da aristocracia derrotada. Uma associação de gramáticos publicou em 1831 um Suplemento ao Dicionário da Academia com 11.000 novos termos, que os revolucionários tinham introduzido e se empregavam nos debates parlamentares». Sem dúvida o credo neoliberal de Reagan, Thatcher... e Vargas Llosa, e a sua linguagem politicamente correcta, produz efeitos tão perniciosos, pois nunca, desde a época de Lafargue, se produziram acções de semelhante amplitude contra o idioma. Não só a ditadura da propaganda decreta o que é benéfico ou compreensível para o consumidor, mas também o Poder, inspirando-se na técnica publicitária transforma a linguagem da vida quotidiana, e tenta criar os códigos aceitáveis que não firam a sensibilidade dos afectados por um mundo destruidor. Por exemplo, já o franquismo impusera mudanças semânticas: não havia operários, mas produtores; nem greves, mas paragens. Os despedimentos colectivos chamam‑se agora reestruturações de empresa. Aos sindicatos chama‑se serviços de proximidade social, e os patrões já não reclamam despedimentos, mas flexibilidade, e para designar a transladação de uma actividade para outro país, adequou-se o termo deslocalizar. Por serem mais neoliberais, os ingleses vão mais longe, e utilizam o neologismo empregabilidade, o que complica ainda mais as negociações, já embrulhadas por si mesmas, nas instâncias europeias. As empresas que se deslocalizam para ir explorar os tailandeses, não são incívicas, mas cidadãs. E quando é sabido que o assalariamento se baseia numa relação inaceitável de subordinação, fala‑se de cultura de empresa. Os chefes de pessoal converteram‑se em gestores dos recursos humanos. Num dos seus ensaios, o linguista Alain Rey afirma: «Na vida social os vocábulos novos servem para dissimular uma intenção ou uma acção real. De facto, expressam um ponto de vista político [...] À margem do seu sentido objectivo, transmitem intenções que podem ser manipuladoras». Quando existe uma palavra simples e precisa, por exemplo cego, e se substitui por invisual, desqualifica-se cego e as suas declinações verbais, adverbiais, adjectivas ou proverbiais (cegador, cegar, cegueira, ceguidão, ceguinho...). Substituindo uma palavra por uma proposição, o que modificamos é a própria sintaxe da língua. Apesar das afirmações dos linguistas, a língua não é uma norma neutra, que serve para descrever as fragilidades da comunicação. Está cheia de contradições que permitem todo o tipo de manipulações ideológicas. Toda a tentativa de suprimir essas contradições com subterfúgios semânticos conduz à deterioração da língua e, simultaneamente, do nosso pensamento. Em 1984, George Orwell conta as dificuldades de Winston e Julia com uma língua cujo sentido foi desvirtuado por uma ideologia totalitária. Os dois apaixonados encontram‑se nos bairros populares à procura de livros e jornais antigos a fim de dar com os verdadeiros nomes, mudados pelas «maquinações do poder». Orwell estabelece uma relação entre a língua da democracia e a da ditadura. O facto de o Poder manipular
a língua delata que sabe muito bem que nos causa dano e trata de se escudar
por detrás das palavras. |