Informação Alternativa

Portugal

19/03/2005

 

Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque

Iraque: questões humanitárias

 

Fernando Nobre *

TMI-AP

 

A difícil situação humanitária vivida actualmente no Iraque é a resultante directa de dois períodos distintos mas interligados:

 

1. O embargo imposto ao Iraque pelas Nações Unidas, após a primeira guerra do Golfo, em 1991.

 

A esse respeito basta referir o relatório da UNICEF que já em 1999 alertava para o facto do embargo ter provocado de 1992 a 1997, directa ou indirectamente, cerca de 1,5 milhões de mortos na população iraquiana dos quais cerca de 500.000 eram crianças com menos de 5 anos. Um verdadeiro genocídio portanto! De referir que esse embargo, que não beliscou sequer a fausta vida do ditador Saddam Hussein e seus fiéis que alegremente continuaram a construir os seus palácios..., desestruturou e empobreceu por completo os serviços de saúde do Iraque como pude constatar em 1995 quando me desloquei ao Iraque a convite do crescente Vermelho Iraquiano.

 

Durante a última década não podemos também esquecer a silenciosa tragédia humana que atingiu sobretudo as crianças e os recém nascidos no sul do Iraque sobretudo na região de Baçorá: foram e são numerosas as vítimas do urânio “empobrecido”, utilizado nas bombas e outras munições durante a I guerra do Golfo, como foi repetidamente denunciado mas prontamente silenciado pelo Bispo Católico de Baçorá. Durante este período, a população iraquiana, flagelada pelo embargo e pelo seu governo corrupto e facínora, só não foi muito mais duramente atingida graças ao programa “Petróleo por Alimentos” das Nações Unidas que abrangia 2/3 a 3/4 da população.

 

2. A II Guerra do Golfo, ainda em curso, ilegítima e ilegal como hoje todo o mundo sabe.

 

Este segundo período que deu seguimento imediato ao primeiro período, o do embargo, que já tantos sofrimentos e provações tinha ocasionado, só agravou a situação de caos. A crise humanitária vivida neste último período, da responsabilidade do poder ocupante, deveu-se e deve-se sobretudo à falta de sensibilidade e à prioridade e supremacia dada às questões petrolíferas sobre as questões humanas assim como à insegurança tremenda que se vive no território. Foi e é notório durante esta guerra, que a água, a electricidade, os cuidados de saúde e a segurança alimentar e das pessoas, a reabilitação das infra­‑estruturas e o investimento no desenvolvimento não foram as prioridades do poder ocupante o que contribuiu para a enorme instabilidade, insatisfação, frustração e revolta das pessoas.

 

Em conclusão, pode afirmar-se que o iraquiano pagou, e continua a pagar, um elevadíssimo preço desde o início da década de 90.

 

Com o caos hoje instalado, e para o ilustrar basta referir os raptos em catadupa e as centenas de atentados ocorridos em todo o território iraquiano no 3.º trimestre de 2004 que provocaram cerca de 600 mortos e 1200 feridos, as instituições humanitárias estão na impossibilidade de actuar com um mínimo de planeamento e eficácia o que deixa desde já antever um futuro sombrio, também do ponto de vista humanitário, para o povo iraquiano.

 

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* Doutor em medicina, cirurgião e urologista