|
Informação Alternativa |
|
Portugal |
|
19/03/2005 Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque Palestina, um balão de ensaio António Louçã * A campanha de pressões económicas, políticas e militares contra o Irão e a Síria está a ser realizada conjuntamente por Israel e pelos Estados Unidos. É uma campanha que tem o objectivo imediato de recuperar posições perdidas pelo sionismo no Sul do Líbano, na primeira derrota militar importante que sofreu desde 1948. Mas também é uma campanha com objectivos mais ambiciosos, de médio prazo, que pretendem redesenhar todo o mapa do Médio Oriente. Nesses planos estratégicos Israel e os Estados Unidos estão solidamente unidos. Sabem o que querem e para onde vão. Mas nós estamos aqui para falar de outra coisa. Estamos aqui para falar do papel de cada um nessa divisão de trabalho imperialista e dos métodos que utilizam para atingir os fins em causa. Não vamos recuar até à grande limpeza étnica de 1948, a Naqba, nem até essa outra iniciada em 1967 e que ainda hoje continua. Interessa-nos a situação que existe hoje na Palestina. E o que existe é um grande laboratório de métodos que em boa parte os Estados Unidos também estão agora a aplicar na região. Começa-se sempre por partir do mesmo princípio que os norte-americanos no Vietname: cada vietnamita é um guerrilheiro vietcong, como lhe chamavam os ocupantes. Vamos imaginar que esse princípio era certo, e que a inegável simpatia dos povos pela resistência equivale a um empenhamento de armas na mão. Ainda assim, o modo de lidar com os alegados combatentes é inadmissível. Para começar, os chamados “assassínios selectivos”. Mais adiante já veremos que selectividade é essa e quem é seleccionado. Para já fiquemos com o assassínio. Os governos israelitas justificam-no com a necessidade de eliminar “terroristas”. No entanto, uma potência ocupante, que ocupa e controla um território, também é suposto que detenha os suspeitos e que os submeta a julgamento. Dizem-nos que se trata de “combatentes irregulares”, sem uniforme, como foram aliás os de todos os movimentos de resistência, desde o maquis em França, aos exércitos de Tito na Jugoslávia, aos partisans na Frente Leste. Segundo as leis da guerra, o chamado “combatente irregular” só pode ser abatido em combate. Estes, têm sido mortos a andar de automóvel, a fazer compras, a dormir. Raramente se lhes dá voz de prisão ou ordens para se renderem. O velho refrão que faz de Israel “a única democracia do Médio Oriente” começa logo aqui a ser desmentido. Numa democracia os esquadrões da morte não substituem os tribunais. E até mesmo nas ditaduras latino‑americanas os militares que participavam nas execuções extra-judiciais faziam-no geralmente fora das horas de expediente e de cara tapada. Em Israel o vício deixou de prestar à virtude essa homenagem hipócrita. Os governos e os estados-maiores do exército regular assumem-se abertamente como assassinos, acrescentando que são selectivos. Mas como haviam os EUA de protestar contra esta prática, se eles próprios debatem desde há anos a legalidade ou não de fazer assassinar pela CIA chefes de Estado estrangeiros? As detenções, quando há detenções, são outro assunto significativo. Durante a chamada “Operação Escudo Defensivo”, em Março de 2002, vimos imagens e relatos. Aldeias inteiras em que os homens dos 14 aos 60 anos foram separados das crianças, das mulheres, dos idosos. Vimo-los agachados, em longas filas, de olhos vendados, de mãos atadas e com um número escrito no braço. Por vezes, depois de vendados e algemados, ainda eram enterrados até à cintura, para não poderem mover-se. Alguns israelitas sobreviventes do Holocausto indignaram-se com a marcação de números nos braços dos prisioneiros palestinianos. Depois vem o período de internamento. Os números não dizem tudo: quase 10.000 palestinianos estão hoje detidos em prisões israelitas. Mais significativo ainda é o que lá se passa. As humilhações, as violências, por vezes os homicídios e as torturas indizíveis cometidas pelos carcereiros norte-americanos – esses ao menos ainda se sabe que têm lugar em Abu Grahib e em Guantánamo. Os prisioneiros palestinianos, pelo contrário, podem ser conduzidos, de olhos vendados, a uma prisão secreta que não sabem onde fica, onde nunca vêem a luz do dia. Familiares, amigos, advogados – ninguém sabe onde estão nem pode visitá-los. É o chamado “Edifício 1391”, denunciado pelas organizações israelitas de direitos humanos HaMoked e B’Tselem. Quando se descobriu a existência dessa prisão, ela foi confirmada pelo governo israelita. Informações sobre a sua localização continuam, no entanto, a ser recusadas. Conhecem-se casos de pessoas que lá passaram mais de um mês e foram depois transferidas para outras prisões, sem nunca saberem onde tinham estado – uma violação flagrante da 4.ª Convenção de Genebra. A chamada “Operação Escudo Defensivo” foi durante a Intifada de Al-Aqsa a ilustração mais cabal dos métodos do exército israelita. Não vamos aqui descrevê-la nos seus detalhes, mas convém notar que ela foi, como sempre, desencadeada a pretexto de acções militares da resistência palestiniana. Ora esses pretextos não devem ocultar que a operação, desencadeada em Março de 2002, já estava a ser preparada vários meses antes, provavelmente desde os atentados de 11 de Setembro. No final de Janeiro de 2002, transpirou para o diário israelita Ha’aretz a notícia de que o exército preparava uma operação inspirada no modelo utilizado pelos nazis para esmagar a insurreição do ghetto de Varsóvia, em Abril de 1943. Ora, não se tratava da comparação feita com grande veemência pelo activista israelita dos direitos humanos e dirigente do Centro Alternativo de Informação, Michel Warshawski. O vademecum, o livro de cabeceira, o catecismo dos oficiais israelitas para a preparação dessa operação era mesmo o relatório do general das SS Jürgen Stroop. Um membro destacado do governo, Ra’anan Gissen, confirmou candidamente a notícia e justificou o estudo da técnica nazi: a situação, disse ele, ia ser muito parecida, quando o exército tivesse que lutar rua a rua e casa a casa contra os palestinianos. E era parecida – se era! Em especial ao entrarem no campo de refugiados de Jenin, as tropas israelitas depararam com forte resistência e sofreram pesadas baixas. Salvou-as o estudo que tinham feito do relatório Stroop. Recordaram a técnica do general: destruir os edifícios onde se entrincheiram os defensores do ghetto. Stroop fê-lo com canhões e lança-chamas. Sharon e Saul Mofaz fizeram-no com canhões e bulldozers. Desse modo, evidentemente, mataram por igual os combatentes e os não-combatentes. Com o recolher obrigatório em vigor, os civis tinham que ficar em casa, enquanto os bulldozers destruíam os edifícios. Se saiam eram abatidos, se ficavam eram esmagados. Ainda hoje não se conhece ao certo o número de vítimas que houve em Jenin. O exército israelita começou por falar em centenas de mortos, e depois corrigiu-se para falar em “poucas dezenas”. O Supremo Tribunal israelita proibiu ao exército, na 6ª feira 19 de Abril, que removesse os cadáveres, mas, no domingo 21, quando a imprensa foi autorizada a entrar no campo, já os cadáveres tinham sido removidos. Hoje há uma versão de testemunhas palestinianas e uma versão de porta‑vozes israelitas (os soldados israelitas são proibidos de testemunhar). A investigação da ONU foi boicotada com o apoio dos EUA, mas o prestável Kofi Annan acabou por ir buscar, não se sabe aonde, a convicção de que não houve um massacre em Jenin. Noutras cidades, como em Nablus, a resistência foi menor, mas o número de vítimas pode ter sido maior. Em todo o mundo, foi grande o entusiasmo da extrema-direita por esta operação. Neofascistas com sólidas credenciais anti-semitas apareceram subitamente a aplaudir Israel. Vladimir Shirinowski apressou-se a lamentar as suas anteriores afirmações anti-judaicas e não hesitou em inventar para si próprio uma costela judaica. Jean-Marie Le Pen, conhecido por ter desvalorizado Auschwitz como um detalhe da História, foi ao ponto de descobrir uma comunhão entre a sua campanha contra a islamização da França por imigrantes magrebinos e a campanha militar israelita. Duas semanas depois de Jenin, fez notar ao Ha’aretz que os israelitas fizeram aí o mesmo que ele, como oficial pára-quedista, tinha feito na guerra da Argélia. Se Le Pen o diz, deve ser verdade. Ele sabe do que fala, ele que torturou sistematicamente os prisioneiros argelinos e ainda hoje se orgulha dessa galhardia. Não vamos aqui detalhar alguns outros aspectos da prática corrente do sionismo que vieram à superfície com particular vigor durante a “Operação Escudo Defensivo”. Vandalização de escolas e bibliotecas, demolição do Centro Cultural Khalil Sakakini, em Ramallah, destruição dos discos rígidos nos computadores de ministérios, repartições de finanças, hospitais, serviços de estatística – tudo são aspectos precursores da pilhagem dos museus de Bagdade. Tão-pouco vamos entrar na degenerescência do exército israelita, no apodrecimento da sua disciplina. De uma tropa de conquista tornou-se uma tropa de ocupação. Nos checkpoints aprendeu a humilhar as mulheres que vão ao mercado, as crianças que vão à escola, os trabalhadores que vão trabalhar, os doentes que vão ao hospital, as pessoas que se deslocam para procurar emprego ou para visitar a família. Dessa aprendizagem, o exército israelita fez um uso especialmente cruel durante a operação de Março e Abril de 2002. A sensação de um poder ilimitado e o encorajamento à brutalidade que partia da própria cadeia de comando levou numerosos soldados a dedicarem-se à pilhagem. Aos sobreviventes israelitas do Holocausto, também impressionou a especial predilecção dos soldados ocupantes pela prática de raparem a barba aos muçulmanos que a tinham. Recordações sinistras doutros tempos. Durante a operação, os desmandos da soldadesca chegaram a um ponto tal que o exército teve de tomar medidas sobre dois temas: os escudos humanos e as pilhagens. A partir de Setembro, e depois de muito hesitar, o estado‑maior de Shaul Mofaz proibiu o uso de escudos humanos: palestinianos idosos que eram colocados em frente de atiradores israelitas, vizinhos que eram obrigados a tocar à porta de vizinhos procurados pelo exército e que eram obrigados a revistar-lhes as casas, para o caso de estarem armadilhadas. O hábito de usar escudos humanos era tal que de Setembro até ao final de 2002 ainda houve 29 processos por esse motivo. Quanto à pilhagem de bens dos civis, houve 61 processos. Diga-se de passagem: o exército israelita é mais severo com os ladrões do que com os assassinos: nos dois primeiros anos da Intifada de Al-Aqsa houve apenas 20 investigações sobre incidentes em que foram mortos civis palestinianos, e nessas investigações apenas dois soldados foram arguidos. É mais grave roubar um palestiniano do que matá-lo. Entre a violência quotidiana e os grandes picos de brutalidade, como a “Operação Escudo Defensivo”, o governo israelita vai levando a água ao seu moinho. O objectivo é a limpeza étnica, habitualmente designada na política sionista sob o eufemismo “transferência”. Como os nazis fizeram contra a elite católica polaca, assim procede a tropa israelita contra a elite palestiniana: aterrorizá-la e levá-la a fugir. A toda a família palestiniana com instrução e com um mínimo de recursos, trata de persuadi-la de que não tem futuro na Palestina. É esta também uma das funções dos “assassínios selectivos”: decapitar o povo palestiniano. Entre os assassinados temos casos como dirigentes do Hamas sem qualquer função militar: o sheik Ahmed Yassin que vivia na sua cadeira de rodas desde a infância; e o médico pediatra Abdelaziz Al-Rantisi. Temos dirigentes políticos de outros movimentos: Abu Ali Mustapha, de Ramallah, e o Thabet Thabet, de Tulkarem. E temos intelectuais sem uma responsabilidade política directa, como os professores universitários Yasir Abu‑Laimun e Khalid Salah. E poderiam citar-se muitos outros casos. Juntam-se os problemas do quotidiano. Um dos maiores é a destruição do sistema de ensino palestiniano, que era até aqui relativamente bem sucedido. Hoje, ele encontra-se, no entanto, desarticulado. O primeiro problema, para as crianças e para os professores, é o de saírem de casa: com períodos de recolher obrigatório que podem prolongar-se até 80 dias, com escassas horas de intervalo para fazer compras, não há ano escolar que resista. O segundo problema para crianças e professores é o de conseguirem ir de casa para a escola: passar por checkpoints, ziguezaguear nos estaleiros da construção do Muro e agora, ainda pior, fazer quilómetros até à porta mais próxima de um muro já fechado, na esperança de lá chegar a uma hora de abertura, que é muitas vezes imprevisível. Qualquer família empenhada em garantir um futuro aos seus filhos mediante uma boa instrução, deve desenganar-se. O facto é que esta política de desmoralização das elites palestinianas obteve um certo êxito: segundo o activista israelita de direitos humanos Jeff Halper, entre o início da Intifada de Al-Aqsa e Maio de 2002 foram cerca de 150.000 palestinianos, predominantemente de classe média a abandonar os territórios ocupados. Resta, entretanto, o que é o maior dos problemas para o sionismo. O povo palestiniano mais habituado à dureza da ocupação resiste a deixar-se expulsar. Tudo se tem tentado. Os camponeses são alvejados por colonos durante a apanha das azeitonas. As árvores são arrancadas e destruídas. A água torna-se cada vez mais inacessível: onde há um poço, o muro interpõe-se entre ele e a população. A água que abunda nas piscinas dos colonatos falta nas torneiras dos lares palestinianos. A economia é sistematicamente destruída. Uma após outra, oficinas metalúrgicas são bombardeadas como supostas fábricas dos “mísseis Khassam”. A venda de adubos é impedida, sob o pretexto de que podem servir para o fabrico de bombas. Em Fevereiro de 2004 o exército israelita chegou ao ponto assaltar o Cairo Amman Arab Bank para roubar 9 milhões de dólares. A própria Administração Bush viu-se obrigada a esclarecer que não era isto que ela entendia por “apreender os fundos de organizações terroristas”. Hoje a taxa de desemprego palestiniana anda pelos 65% e metade da população vive com menos de dois dólares por dia. Na cidade de Gaza, 41% das famílias vendem os seus bens para poderem comprar comida. 23% das crianças sofrem de subalimentação aguda ou crónica. Todos os pretextos servem para destruir casas ou para deportar famílias palestinianas, ao abrigo de um uso sistemático das punições colectivas. Mas a miséria e o sofrimento do povo palestiniano não resolveram o problema fundamental da colonização sionista. Segundo nota o deputado israelita Meron Benvenisti, nascem mais crianças palestinianas em Hebron num só dia do que os colonos todos que lá existem. Apesar do esforço frenético de alargamento, expansão e multiplicação dos colonatos, estes continuam a ocupar apenas uns 2% do território cisjordano. E por isso se tornaram indispensáveis dois planos israelitas que são complementares: a construção do Muro e a evacuação da Faixa de Gaza. O Muro vai ter uns 350km (o dobro do Muro de Berlim), procurando anexar os colonatos da Margem Ocidental e todo o território adjacente ou útil para a rede rodoviária que os serve. Onde há uma remota possibilidade disso, fabrica-se um lugar santo: o túmulo de Raquel em Belém é um caso recente. Aí o Muro faz mais uma curva e anexa também o local e todo o caminho até ele. Com estes e outros truques, mais de metade da Cisjordânia deverá ficar do lado israelita do Muro. A evacuação de Gaza vai criar, segundo o sociólogo israelita Baruch Kimmerling, o maior campo de concentração do mundo: 37% da população palestiniana apinhada em 1,25% do território. Mas a esse campo de concentração há-de chamar-se Estado palestiniano e há-de endossar-se a responsabilidade pela diáspora palestiniana que existe e por aquela que todos os dias se continua a engendrar. Por muitas metamorfoses que atravesse a política de Israel, ela é uma política colonialista, que visa destruir o povo palestiniano como entidade própria e dispersá-lo pelos quatro cantos do planeta. A isto chama‑se genocídio. _____ * historiador |