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19/03/2005 Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque Nós, o Islão e o Iraque Cláudio Torres * Há sempre outras e velhas histórias que nos ajudam a perceber melhor algumas andanças do passado e a sua repercussão em tempos mais recentes. A pouco e pouco, por melhores conhecimentos da arquitectura naval e por descobertas da arqueologia subaquática, fomos constatando, por exemplo, que é aqui, na porção meridional da costa portuguesa, desde o Algarve até Peniche, que se encontram e se agregam os elementos fundamentais, que viriam a permitir a expansão marítima portuguesa de inícios da Idade Moderna. Desde tempos antigos e sobretudo em época islâmica, em finais do primeiro milénio da nossa Era, nos portos de Sagres e Lisboa, onde os marítimos e comerciantes do Mediterrâneo entram em contacto com os navegadores do Golfo de Biscaia e do Báltico, começa a processar-se uma troca de saberes e tradições, uma simbiose inovadora nas técnicas de construção naval. Deste encontro de tradições marítimas, nasceu uma nova embarcação que depois viria a chamar‑se caravela. Interessa destacar que foi nesta zona, nesta plataforma ibérica, que surgiu essa inovação tecnológica e várias outras, que permitiram, alguns anos depois, aquelas aventuras marítimas que todos conhecemos. Foi também aqui, nesta parte da Europa – não é por acaso que tenha sido em Lisboa, e não em Londres, Amesterdão ou Roma – que nasceu e germinou a grande expansão europeia para o resto do mundo. Foi daqui de Lisboa e do Algarve, que foi dado o grande salto da história moderna. E depois, ao analisar melhor, para tentar perceber as causas, notamos que a sociedade lisboeta, depois dos tempos de islamização de estreito relacionamento com o Mediterrâneo, tinha sofrido uma poderosa convulsão social no período revolucionário de 1383-85 que consolidou no poder uma burguesia nascente, forte e criativa. Foram estes homens enriquecidos no comércio mediterrânico com os mares do Norte, já nessa altura mais ou menos aristocratizados, que dinamizaram e comandaram as primeiras expedições, servindo-se dos velhos saberes antes veiculados pelos mercadores e embarcadiços muçulmanos. O Islão, depois de ter valorizado e actualizado as civilizações clássicas, abre também uma outra porta para Oriente. Foi ele a demandar as rotas da Pérsia, da Índia, da China – que começam a penetrar, a sintetizar, a fecundar a velha civilização mediterrânica. Em simultâneo, com a sua expansão para Ocidente e formação do al-Andalus onde enraizou a criativa civilização de síntese que foi o Islão Ibérico, o Oriente e o Ocidente puderam criar a plataforma matricial daquilo que hoje chamamos civilização ocidental. De certa forma, aqui foram testadas as técnicas e moldados os saberes de uma nova época, de uma outra forma de ver o mundo. Hoje ainda, neste caldeirão de culturas, continua perene o mito do paraíso perdido, das mouras encantadas, dos palácios e jardins, das córdovas e alhambras. Continua como que uma espécie de saudade de uns tempos onde até os camponeses eram poetas como a tradição insiste em lembrar dos tempos de Silves muçulmana. Sem esta abertura ao Oriente, nos finais do Mundo Antigo, sem a renovação criativa trazida pela civilização islâmica, não teria sido possível cimentar na Península Ibérica a plataforma técnica e cultural necessária à afirmação europeia e sobretudo equacionar os princípios orientadores do mundo moderno. Há vários anos que a nossa equipa, através de uma longa investigação arqueológica, procura nas terras do Sul e concretamente em Mértola, não só as provas arquitectónicas e monumentais da presença do Islão, como, sobretudo as marcas e artefactos quotidianos de uma civilização que, nesta região foi dominante durante meio milénio. De uma civilização que a nossa historiografia tradicional, alimentada pelo regime anterior ao 25 de Abril, apenas utilizou para justificar os feitos bélicos dos nossos heróis conquistadores, apresentando o outro, o vencido, o mouro, como simples figurante, ou apenas a imagem da sua cabeça cortada pela espada vingadora de Santiago. Esta representação iconográfica macabra continua patente por exemplo nos escudos de armas das cidades de Évora e Silves. A imagem do Islão era então associada a guerreiros conquistadores vindos das orlas do deserto que, á espadeirada, se tinham instalado nas nossas cidades e aldeias, tendo aqui permanecido durante séculos, até serem expulsos pelos cristãos vitoriosos. Afinal, passados tantos anos de investigação arqueológica, não encontrámos nenhuma marca da passagem de exércitos árabes ou berberes, nenhuma prova de invasores ou massacres. Não encontrámos nada disso. Ao contrário, e excluindo alguns mercadores levantinos e alguns homens de religião que pregavam o Corão, o que domina de facto, tanto na sociedade urbana com na rural, é um fenómeno de continuidade. As populações do Sul, os artesãos ou camponeses continuaram a ser os mesmos. Apenas, lentamente, ao longo dos primeiros séculos, se foram convertendo à nova religião que por razões sociológicas, melhor se adaptaria aos tempos que corriam. Só no século XI, trezentos anos passados da chamada “invasão” de 711, haveria no actual território português uma escassa maioria muçulmana, embora já fosse mais considerável o número daqueles que falavam a língua árabe. Ou seja, hoje sabemos ser falsa a ideia, constituindo mesmo uma das grandes falsidades históricas, o facto da islamização ser resultado de uma grande invasão militar de árabes e berberes vindos das Arábias e do Norte de África. É certo que também entraram na Península alguns profissionais da guerra. À medida que eram contratados pelos senhores das cidades, também, naturalmente, foram chegando alguns mercenários berberes, sobretudo para guarnecerem as fortalezas e as portas das cidades. Porém, antes da militarização imposta a partir do século XII pelos impérios magrebinos, não foi tanto uma conquista militar e muito mais um poderoso movimento de expansão religiosa veiculado através das grandes rotas marítimas do comércio. A guerra, como todos sabemos, e excluindo os fabricantes e vendedores de armas, nada de bom trouxe a ninguém. Peço desculpa aos militares presentes, mas poucas vezes um militar trouxe qualquer benefício à civilização. Nunca foi veículo de saberes, de falares, de cultura. Quem transmitiu novidades, veiculou conhecimentos, reforçou os contactos civilizacionais, foi o mercador, o comerciante. Se o objectivo normal do soldado é matar para saquear, o mercador, para vender o seu produto, tem de dialogar, tem de convencer. O gesto apaziguador do diálogo passou sempre obrigatoriamente pelo comércio, pela troca, pelo intercâmbio de coisas, e portanto também de ideias. Durante a nossa actividade de prospecção e escavação arqueológica encontrámos provas de uma profunda islamização em todos os territórios do Sul, embora mais acentuada nas cidades onde, ao longo de gerações, se tinham instalado grupos de mercadores vindos de todas as partes do Mediterrâneo. Não seria tarefa fácil distinguir entre todos esses orientais, os que eram judeus, muçulmanos ou cristãos. E entre os cristãos, os que eram ortodoxos romanos, bizantinos ou cristãos monofisitas de Alexandria. Foram aliás estas comunidades de levantinos que, ao longo de gerações, trouxeram para a Península as grandes religiões do Livro como o judaísmo, o cristianismo nas suas variadas heresias, e naturalmente o islamismo quando este se afirmou mais pela sua simplicidade ritual do que pelas armas. Portanto esta nova visão histórica começou a abrir outras perspectivas, a permitir outras abordagens e a historiografia actual começou a admitir que o Islão não é qualquer coisa estranha ao Mediterrâneo e à Península Ibérica, imposta por exércitos de conquistadores. Tal como acontecera com o cristianismo umas centenas de anos antes, também o Islão foi penetrando lentamente, primeiro nas comunidades populares mais pobres e desprotegidas e depois integrando-se solidamente em camadas cada vez mais alargadas, até fazer parte intrínseca da população portuguesa do Sul – numa proporção já claramente maioritária em finais do século XI. O Islão e a sua cultura faz parte de nós próprios e do nosso passado. Pertence à nossa genética cultural. Desta forma, o Islão e as suas marcas civilizacionais não podem ser expulsos da nossa cultura, de nós próprios. Nós não podemos extirpar a matriz da nossa própria identidade, a lógica do nosso passado, e principalmente as raízes dessa simbiose fantástica que é a cultura mediterrânica. Conhecimentos médicos e matemáticos, saberes da terra e da água, formas e técnicas de construir, sabores das coisas e acordes musicais, são marcas solidamente ancoradas num passado que é também presente. Sinais identificadores de uma certa maneira de amanhar a terra, de gerir a água e as coisas da vida, de saber esperar pelo tempo. Todo esse mundo não só é indissociável do nosso passado, como, certamente, continuará a desempenhar no futuro um papel importante na identificação e salvaguarda da nossa cultura e identidades, na possibilidade de resistir melhor a uma inevitável desumanização imposta por uma globalização selvagem. Estas são, a meu ver, considerações que não podemos deixar de lembrar quando tentamos abordar as consequências da invasão do Iraque. As consequências da nossa cumplicidade neste acto de agressão. É que a Península Ibérica – e também Portugal, naturalmente – têm a obrigação histórica e moral de respeitar os seus laços de cultura e de sangue com o Mediterrâneo ao qual estamos indissociavelmente ligados. Ao contrário, a Inglaterra e os EUA têm mantido com os países islâmicos um relacionamento histórico mais recente, quase sempre atravessado por uma postura de sobranceiro domínio colonial. Nós, os países ibéricos, temos a cultura islâmica dentro de nós. Este Mediterrâneo é estruturante da nossa própria existência, da nossa razão de ser. Daí as nossas responsabilidades acrescidas naquilo que já aconteceu, e que vai continuar a acontecer ao povos iraquiano, palestino e afegão e quem sabe – se não for estancada esta política de agressão – a todos os povos do Magreb. É nossa obrigação denunciar esta atitude de soberba e intransigente ignorância, esta barbaria purificadora contra povos e gentes que pensam de outra maneira. É nossa obrigação reconquistar a confiança e a amizade que sempre nos ligaram, a nós, ibéricos, aos povos do outro lado do Mediterrâneo. Não podemos continuar a ter vergonha de circular em Marrocos ou na Tunísia, onde, a partir do momento em que passamos a cúmplices da invasão do Iraque, somos olhados de outra forma. Onde éramos recebidos com amizade, como irmãos, nasceu a desconfiança: “vocês foram cúmplices, vocês são coniventes”. Infelizmente, algo está em riscos de se quebrar no relacionamento com aqueles países, com as suas instituições universitárias e de cultura, com quem tínhamos as melhores relações, com quem temos em curso nos últimos anos importantes projectos de cooperação e investigação. Vai ser mais difícil levar a bom termo os projectos de colaboração em curso, como por exemplo a aproximação entre pequenas e médias cidades do Mediterrâneo que temos vindo a acalentar. A última assembleia, que reuniu os representantes políticos e culturais de pequenos centros urbanos de quinze países mediterrânicos, foi em Bejaia, na Argélia, uma bela cidade portuária que procura salvar a sua identidade com a ajuda de outras cidades‑porto da Península Ibérica e da Itália. O objectivo é criar uma rede de intercâmbio e ajuda técnica entre as antigas cidades-estado do Mare Nostrum, entre estas células culturais que afinal atingiram o seu apogeu em época islâmica. Há anos também que estamos a trabalhar na construção de uma rede de museus de arte islâmica em todo o Mediterrâneo. É certo que é uma rede virtual que reúne os mais importantes museus da União Europeia, do Magreb e Próximo Oriente. Porém têm sido estabelecidos fortes laços de conhecimento e colaboração. Entretanto já foi concluído, e também com a colaboração da nossa equipa de Mértola, um projecto de Museu Sem Fronteiras, centrado na arte islâmica e que permitiu a publicação em várias línguas de mais de uma dezena de guias e manuais que divulgam as manifestações artísticas desta civilização ao longo dos séculos. Queremos olhar o passado, compreender como tudo começou, saber das causas, sem a pretensão de querer voltar para trás, sem lamentar o brilho de outros tempos e civilizações. Porque o que nos anima, o principal objectivo de tantos outros grupos e associações, é construir uma cultura mediterrânica moderna e democrática, assente num passado que também é presente, erguida sobre a nossa própria ossatura cultural. E de repente, ao arrepio de todos estes esforços de aproximação, surge este acto de agressão, de vingança cega, que veio abrir antigas feridas e fechar muitas portas que, laboriosamente, estavam a ser entreabertas. É por tudo isto que nós devemos acusar os agressores directos, comandados pelos EUA e também os seus cúmplices, como o governo português, culpados de crime cultural, de crime contra a humanidade. Recentemente a imprensa noticiou a visita ao Iraque do nosso antigo primeiro-ministro, António Guterres, destacando que as autoridades americanas não tinham autorizado a sua visita às ruínas da cidade de Babilónia. A justificação não foi sequer por razões de segurança e por preocupações de risco pela sua vida. A causa simples e prosaica é que este sítio arqueológico, entre os mais importantes do mundo, onde têm trabalhado gerações de investigadores, as ruínas da mítica capital da antiguidade, o local onde nasceu a civilização humana, a fantástica cidade dos jardins suspensos, das torres de Babel e das aventuras de Gilgamech, é hoje simplesmente um acampamento militar dos soldados americanos. Entre paredes milenares de adobes, foram escavados ninhos de metralhadora, tanques de assalto estão hoje enterrados no local onde os arqueólogos, de pincel na mão, descobriram os artefactos de milhares de anos e que hoje são o orgulho dos maiores museus do mundo. Na imensa planície aluvional da velha Mesopotâmia, uma simples elevação (um tell) surge aos olhos de qualquer comandante militar como ponto estratégico. Não é portanto de admirar que os novos ocupantes do país, na sua qualificada e celebrada incultura, tenham naturalmente utilizado os velhos zigurates ou o que resta deles e mesmo alguns dos mais veneráveis minaretes como o de Samarra, como pontos de vigia e instalação das suas baterias. Assim como as condutas de petróleo foram desviadas para as refinarias americanas, também os palácios de muralhas sobrepostas dos Assurbanipal e dos Nabucodonosor, os belos revestimentos em esmaltes policromos, os depósitos de tabuinhas com inscrições cuneiformes onde foram gravados os caracteres do primeiro alfabeto, aqueles frisos de animais esculpidos com um naturalismo que raras vezes voltou a ser atingido na história da humanidade... tudo isto está a saque, arrancado das paredes e das vitrinas dos museus, desenterrado do solo e passado a patacos no comércio internacional de antiguidades. Percorridas as vias habituais da privatização e cumprido o ritual das casas de leilões, a maioria destas peças pertencentes ao património nacional iraquiano, vai inevitavelmente desembocar nos museus e colecções privadas de Washington ou Londres. Este saque programado de obras de arte não pode, de forma nenhuma, comparar-se ao massacre de milhares de iraquianos sob as bombas inteligentes e danos colaterais e que continuam todos os dias a encher os hospitais. Porém, com a destruição e extravio do património cultural de um povo, pode ficar em perigo não só a identidade nacional, como a própria sobrevivência de uma comunidade a quem arrancaram a alma. É como se numa pequena vila ou cidade do nosso interior fosse desmontada a sua velha igreja e transportada para outro país, ou como se fosse implodida a vetusta ruína do seu castelo. Embora, muitas vezes, pareça que as gentes da terra não prestam muita atenção às suas coisas antigas, não só com elas se identificam, como, quase sempre, elas servem de referência e de alimento à sua ligação com a terra e com a comunidade a que pertencem. O facto é que no Afeganistão e sobretudo no Iraque, além de uma programada destruição e saque de um património de valor incalculável e que nunca mais poderá ser reposto, as forças de ocupação, ao tentar apagar as marcas históricas de um passado glorioso, estão sobretudo empenhadas em humilhar um povo, retirando‑lhe, depois da liberdade, a sua própria dignidade. É por isso que é urgente levar esta denúncia ao conhecimento de toda a humanidade. É necessário juntar forças para evitar que continue este genocídio cultural. Nesta batalha, a Península Ibérica, e Portugal concretamente, podem e devem desempenhar um importantíssimo papel. Sobretudo devido a um passado comum, a uma cultura repartida, a uma mesma forma de viver e saber viver o Mediterrâneo, a uma longa experiência no relacionamento com o Islão e, mais do que tudo, devido a um respeito mútuo muito antigo, tudo isso não permite que possamos fugir às responsabilidades, obrigando-nos a assumir neste contexto um papel interventor e solidário de denúncia pública. Mesmo sem o querer, assumimos claramente o esforço de continuidade iniciado pela utopia do al‑Andalus, que, ainda hoje, para todo o Mediterrâneo representa o pólo agregador de todos os povos, religiões e saberes; a síntese de todos os sonhos possíveis de convivência pacífica entre comunidades diferentes. Por isso foi mais dramática a atitude de criminosa cumplicidade do governo português, esquecendo e desprezando as tradições culturais do país. O povo espanhol já reagiu, conseguindo o regresso imediato dos seus soldados do Iraque. Saibamos também em Portugal exigir que a nossa política externa respeite os laços históricos e culturais com o Mediterrâneo, sabendo gerir com inteligência e acerto o normal e amistoso relacionamento com os vizinhos muçulmanos que, afinal, pertencem à nossa família genética e cultural. _____ * Arqueólogo. |