Informação Alternativa

Portugal

29/01/2006

 

A realidade de substituição

 

Rui Pereira *

TMI-AP

 

«Grande é a verdade, mas maior ainda, do ponto de vista prático,

é o silêncio a respeito da verdade»

Aldous Huxley

 

Quando, há menos de um ano, a Audiência de Lisboa do Tribunal Mundial sobre o Iraque (TMI) desmontou, entre outros, os mecanismos do dispositivo de propaganda associados à guerra contra o Iraque, esse trabalho consistiu, sobretudo, na análise de um ruído orquestrado goebelianamente, empenhado em disseminar a sua estridência até ao mais remoto dos confins do mundo.

 

Era, já então, bastante previsível que essa ordem de batalha não poderia manter-se indefinidamente. Não apenas porque os recursos mediáticos envolvidos numa orquestração daquela magnitude – talvez a mais formidável de sempre – não eram ilimitados mas, também, porque a realidade local não o autorizaria. E, sobretudo, como nos lembrava, há exactamente 60 anos, Huxley, o célebre autor de Admirável Mundo Novo, todos «os maiores triunfos, em matéria de propaganda, foram conseguidos não com fazer qualquer coisa, mas com a abstenção de a fazer».

 

Que se passa, hoje em dia no Iraque? A resposta a esta pergunta, paradoxalmente, depende mais do posto de observação de quem a fizer, do que da situação que porventura se viva in situ. De acordo com o dispositivo de propaganda oficial, passa-se ali, o que, por exemplo, se passava nas ex-colónias portuguesas, durante as guerras do final do regime. As NT (Nossas Tropas) controlavam os TO (Teatros de Operações), que eram incidentalmente atingidos por operações terroristas dos, assim apropriadamente chamados, “turras”. Vocábulo, note-se, de uma extraordinária polissemia oculta, onde funcionam duplamente as ressonâncias do “terrorista”, com as do “esturricado”, negro...

 

Assim no Iraque. Não só a tropa norte-americana mantém as suas posições, como está a formar um corpo militar cipaio – indígena – para ser atingido pelas explosões dos grupos insurgentes, na vez dos “nossos rapazes”, o que sempre é uma forma mais conveniente de fazer a guerra, comprá-la já feita.

 

Noutro paralelo noticioso, a tropa norte-americana deu origem, substância e condições de corporização a um regime parlamentar, onde funcionam mecanismos eleitorais e constitucionais verdadeiramente insólitos, mesmo, à luz de todas as outras informações distribuídas pelo próprio dispositivo de propaganda.

 

Porque a linha de propaganda em prática há cerca de um ano, sensivelmente, apresenta duas bifurcações: a regularidade com que vão sendo apresentadas as “explosões suicidas contra a polícia iraquiana e alvos civis” (entram sempre crianças, velhos e mercados nestas notícias, mesmo quando as deflagrações ocorrem em postos militares de recrutamento), por um lado. E, por outro lado, um processo político de negociação, parlamentar, legislativo e judicial ficcionado à precisa maneira pela qual ele é reconhecível aos olhos do ocidente. Isto é, como se aqueloutro Iraque já “normalizado” vivesse algo de comparável com os processos parlamentares, legislativos e judiciais deste ocidente afogado no bocejo do seu infinito tédio de boite de alterne.

 

O problema destas linhas de trabalho consiste na evidente e gritante realidade que as dimensões da tragédia abismal para que foram conduzidos o Iraque e o seu povo, quer pelo autoritarismo de um Saddam Hussein apoiado por russos e norte-americanos, quer por uma ONU sancionadora por interposta pessoa, quer finalmente por uma invasão militar externa que transportou e utilizou, ela própria, as armas proibidas que dizia ir lá procurar. As dimensões desta tragédia (des)humana não permitem articular as duas linhas da propaganda, acções de guerrilha permanentes e de grande escala, por um lado. Normalidade democrática floral, pelo outro.

 

A isso se deve o silêncio. Que constrói, pelo esporádico noticioso e pelo tumular do comentário outrora tão estridente, uma narrativa liofilizada, uma espécie de realidade de substituição que todas as fontes razoavelmente independentes – sobretudo na cultura do jornalismo anglo-saxónico, com frequência difundido na Internet – desmascara aos olhos de todos aqueles que tentam ver mais além do que o exibido pela metadona informativa em que consiste o produto dos media oficiais. Sobretudo, dos media periféricos e especialmente incompetentes em matéria de jornalismo internacional como, entre outros, os portugueses.

 

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* Jornalista.