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19/03/2005 Audiência
Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque A agressão ao Iraque no quadro da política geral do imperialismo norte‑americano Jorge Figueiredo * A invasão e ocupação do Iraque em Março de 2003 não é um facto
isolado na política geral do imperialismo estadunidense. O expansionismo
tornou-se a política de Estado dos EUA já no principio do século, quando o
presidente McKinley ordenou a guerra de conquista das Filipinas (assim como a
invasão e ocupação de Cuba) baseado numa “revelação divina” que teria
recebido. A sua execução levou ao massacre de 200 mil patriotas filipinos,
assassinados friamente pela tropa norte‑americana. Personalidades
eminentes como o escritor Mark Twain protestaram contra a infâmia cometida
nas Filipinas, mas a jovem burguesia norte‑americana queria expandir
mercados para a sua indústria e, além disso, utilizar aquele país como
entreposto carvoeiro para a sua frota naval e base para a conquista da China.
Passados mais de cem anos, verifica-se que a única coisa de
substancial que mudou foi o nível de ambição. Os presidentes dos EUA também
recorrem a “divinas inspirações” para os massacres que ordenam, também querem
expandir o seu domínio — agora a nível planetário — e garantir fontes de
aprovisionamento de energia, substituindo o carvão pelo petróleo. Trata-se de
uma política consistente, fria e deliberada do Estado norte-americano. Há
inúmeros documentos oficiais e oficiosos que a descrevem. Pode-se afirmar que
esta é, hoje, a política da classe dominante dos EUA. Pouco importa o partido
de turno ou a personalidade que esteja no governo. Não se pode entender uma questão particular — como a última invasão
do Iraque, em 20 de Março de 2003 — sem que se tenha compreendido previamente
a questão de ordem geral. Esta é a política geral do imperialismo
estadunidense desde o princípio do século XX até hoje. A execução de tal
política significou uma série monstruosa de atrocidades durante mais de um
século, guerras, invasões, massacres, golpes de Estado, golpes sujos,
chacinas, esquadrões da morte, assassinatos de chefes de Estado e
responsáveis políticos. A lista negra dos crimes cometidos pela barbárie
imperialista é tão grande que dispenso-me de recapitulá-la aqui pois iria
gastar todo o tempo disponível. Basta dizer que nunca houve um único golpe
militar na América Latina em que os golpistas não tivessem tido previamente o
sinal verde da Embaixada Americana. Basta recordar por exemplo que 60 mil
polícias e militares latino‑americanos passaram pela infame School
of Americas, em Fort Benning, Georgia, e que a seguir os Esquadrões da
Morte começaram a disseminar-se por todo continente, mesmo entre países
geograficamente distantes entre si como o Brasil e os da América Central.
Recordo factos como este para mostrar a continuidade da política
estadunidense, em que o Iraque é apenas o mais recente episódio. Pode-se afirmar, então, que não há nada de novo nos EUA? Não, não é
verdade. A partir do desaparecimento da URSS e do mundo socialista, poderoso
factor de contenção, o imperialismo ganhou uma nova agressividade. Isto
verificou‑se com qualquer dos presidentes, Bush pai, Clinton e Bush
filho. Desde então o imperialismo sente‑se livre para actuar urbi
et orbi. Desde 1990 o número de agressões directas aumentou de forma
bárbara (Afeganistão, ex-Juguslávia, Colômbia, Haiti e Iraque). As ameaças
explícitas contra outros países (Síria, Paquistão, Irão, Coreia, etc.) também
aumentaram. Hoje, o número de bases militares americanas no mundo chega à
ordem dos 800. Há uma linha de continuidade na política dos governos americanos.
Com o de Bush, no entanto, intensificaram-se as ambições hegemónicas da
classe dominante estadunidense. O seu roteiro foi cristalizado no documento
“Um novo século americano”, elaborado pelos neo-conservadores e aprovado no
ano 2000. É um projecto de longo prazo para a dominação mundial por parte dos
Estados Unidos. Foi lançado, paradoxalmente, numa época histórica em que a economia
real dos EUA começa a entrar em decadência, numa nítida perda de velocidade.
As bases da sua pretensão têm de repousar, por conseguinte, sobretudo no
domínio da tecnologia militar. Por outro lado, a presente fúria expansionista americana tem tudo a
ver com o esgotamento progressivo dos recursos mundiais e pelo controle do
remanescente. Dentre estes recursos avulta, no imediato, o petróleo. O seu
esgotamento no planeta Terra já tem data anunciada no calendário. O ritmo
actual de consumo, 84 milhões de barris por dia, não poderá ser sustentado de
forma indefinida. A Curva de Hubbert mostra que estamos num plateau
que poderá perdurar até 2007 e a partir dessa data será o declínio
inexorável. Quando foi realmente atingido o pico da produção só saberemos
provavelmente a posteriori. Embora oficialmente o governo procure
ignorar o problema, a classe dominante americana está agudamente consciente
desta realidade. Daí a ânsia pelo controle rápido dos recursos remanescentes
no Médio Oriente e na Ásia Central, onde o Iraque é uma cabeça de ponte. Esta estratégia desesperada do imperialismo estadunidense tem uma
forte componente exterminista. Exterminista, sim, porque ameaça destruir as
condições de habitabilidade da espécie humana neste planeta. Não se trata só
do petróleo, problema mais gritante. Trata-se, em última análise, de todos os
recursos existentes, desde a água, às florestas, aos bancos pesqueiros, à
diversidade genética das espécies vegetais, ao ar que se respira. Assim,
pode-se e deve-se acusar o império estadunidense de exterminismo num sentido
amplo — e não apenas no sentido imediato e directo, ou seja, das mortes e da
barbárie que leva a todos os rincões do mundo. Mas no caso do Iraque esta política exterminista está a concretizar‑se
também no sentido directo e de uma forma atroz. Os 12 anos de embargo e
bombardeamento do Iraque levaram à morte de centenas de milhares de pessoas.
Aviões estadunidenses bombardearam então, fria e deliberadamente, instalações
para o tratamento de água, centrais eléctricas, hospitais e escolas. Com a
invasão, em Março de 2003, agravou‑se a política criminosa da
coligação comandada pelos EUA. Foi cometido no Iraque — assim como na
ex-Juguslávia e no Afeganistão — um crime nefando de lesa humanidade: o
espalhar de 330 toneladas de urânio empobrecido, o equivalente a várias
bombas nucleares, que terá efeitos teratogénicos ao longo de milhares de
gerações futuras. O envenenamento químico, radiológico e genético atinge até
mesmo os próprios soldados estadunidenses. Mas nada disto transparece na
desinformação publicada pelos domesticados media que se dizem “de
referência”. Na verdade, nem mesmo a tropa hitleriana cometeu crimes que
perdurassem ao longo de milhares de gerações futuras. O IV Reich americano é
muito pior do que o III Reich hitleriano. Poderia alinhar aqui os inúmeros factos que constituem o dossier
Iraque. Este dossier é imenso. Ele compreende factos como: ·
as mentiras em
que se baseou toda esta guerra de agressão, como a das célebres armas de
destruição maciça que nunca existiram; ·
o assassínio da
população civil da cidade de Faluja por meio de napalm e armas químicas como
gás de mostarda e gases que afectam o sistema nervoso, tal como foi
reconhecido pelo próprio ministro da Saúde do governo títere iraquiano; ·
a política
degradante da tortura e humilhação de prisioneiros, autorizada e ordenada por
Bush; ·
os mais de 100
mil mortos civis desde o início da invasão; ·
a tentativa de
implantar Esquadrões da Morte no Iraque, de acordo com o modelo adoptado para
a América Latina; ·
a tentativa de
provocar guerras inter-religiosas entre a população iraquiana e de seccionar
o país de acordo com divisões étnicas (tal como fez o imperialismo na
Juguslávia); ·
o roubo, o saque
e a pilhagem de riquezas arqueológicas milenares que constituem um património
de toda a humanidade; ·
o roubo do
petróleo iraquiano, com a legislação ilegal imposta pelo “governo” do
fracassado Paul Bremer. Esta lista de malfeitorias poderia estender-se, e muito. Vou
poupá-los, aqui, da grande cópia de pormenores que poderiam ser relatados. Os
crimes mencionados já são mais do que suficientes para uma condenação. Mas,
além da condenação deste Tribunal, o imperialismo americano será condenado
também pela própria história. Mesmo neste momento negro em que vive a
humanidade, em que aparentemente não há forças suficientes para conter o
império decadente mas ainda dominante, há alguns motivos para optimismo. Tal como todos os impérios do passado, o americano também cairá. Ele
não poderá manter‑se indefinidamente. Por um lado temos a resistência
dos povos de todo o mundo, de que é exemplo a luta exemplar e heróica do povo
iraquiano. A demografia mundial é favorável à humanidade. Mesmo que se
disponha de muitas armas e muita tecnologia, só se pode dominar quando se
ocupa o terreno. Mas para isso seria preciso que o povo americano estivesse
disposto a morrer em defesa da pequeníssima fracção de arqui-milionários que
constitui a sua classe dominante. Nada indica que isso esteja para acontecer.
Ao contrário, cresce e aprofunda-se o movimento anti‑guerra dentro dos
próprios EUA. No próprio dia da segunda posse de Bush, 20 de Janeiro de 2005,
houve grandes manifestações de resistência em Washington. E hoje, neste
segundo aniversário da invasão do Iraque, estão a haver centenas de
manifestações em centenas de cidades do mundo todo, inclusive nos próprios
EUA. Por outro lado, as contradições económicas dos EUA são
inultrapassáveis no âmbito do sistema actual. O seu endividamento interno é
colossal, a sua economia é parasitária e vive às custas da exploração do
resto mundo, o seu défice na balança de transações correntes é da ordem dos
US$ 600 mil milhões por ano, os seus défices orçamentais são gigantescos, a
sua dívida externa é a maior do mundo, o dólar afunda‑se, a ameaça da
deflação pesa como um fantasma sobre os EUA e o resto do mundo. Um simples
erro quanto à política monetária do “fio da navalha” conduzida por Greenspan
pode resultar num colapso sistémico. A entropia que caracteriza o sistema
monetário e financeiro pode fazer que um pequeno incidente venha a
transformar‑se numa macro‑catástrofe. A possibilidade de a actual crise arrastada transformar-se
subitamente num colapso sistémico, tal como em 1929, é muito real. Se e
quando isto acontecer o império americano poderá esboroar-se. Povos, países e
até continentes inteiros poderão libertar‑se, pois as oligarquias
locais já não poderão contar com apoio externo. Devemos estar preparados para
isso, preparados para aproveitar as ocasiões favoráveis que surgirem — as
“janelas de oportunidade”, como dizem alguns — a fim de conseguir desenlaces
num sentido favorável e progressista. Seria trágico se tivéssemos
oportunidades e não as soubéssemos aproveitar por falta de consciência. Dar um desenlace favorável à crise do império apodrecido é essencial para a sobrevivência da humanidade. O desenlace tanto pode ocorrer no sentido da sua libertação ou, ao contrário, do extermínio. Não devemos desanimar perante as actuais condições históricas, perante a correlação de forças actual que nos é desfavorável. Ela pode e deve ser mudada. Aumentar a resistência e elevar o grau de consciência da humanidade é um imperativo de sobrevivência. ______ * Economista |