Informação Alternativa

Portugal

17/03/2005

 

Na Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque

 

Padre Mário de Oliveira

 

De amanhã até domingo, 20 de Março, estarei em Lisboa. Vou sentar-me como jurado, na audiência final do TMI-Tribunal Mundial sobre o Iraque, que decorrerá até ao final da tarde de domingo, no edifício da Torre do Tombo. Estarei a prestar este serviço na sessão de abertura e no sábado durante toda a manhã e parte da tarde. Por volta das 17 horas, terei de me ausentar, uma vez que já havia assumido outro compromisso, antes deste. Tenho de proferir uma conferência-debate sobre IGREJA E CRISTIANSIMO, e participar do jantar-em-conversa, que se lhe segue. O convite veio de uma Associação que integra cristãs e cristãos de diversas Igrejas, na sua maioria protestantes. Com esta, creio que é a 4.ª vez que sou convidado, quase sempre depois de ter saído um novo livro meu.

 

Como sabem, já fui chamado a intervir, como depoente, no final de 2004, na audiência do TMI, realizada no Porto e agora não pude dizer que não ao convite a integrar o corpo de jurados, nesta audiência final do TMI, em Lisboa. É um indeclinável dever que, como ser humano, como cidadão e como presbítero da Igreja do Porto, de modo algum enjeito, pelo contrário, assumo com toda a frontalidade. Ao Império norte­‑americano e seus estados satélites em todo o mundo (o Estado português, na pessoa do então primeiro ministro Durão Barroso, protagonizou toda aquela pouca vergonha e imoralidade sem nome a que deram o pomposo nome de Cimeira dos Açores, de onde saiu a declaração de guerra contra o Iraque) e ao senhor Bush, não hesito em declarar que estão a ser assassinos no Iraque, por mais que eles tentem ficar para a História como os libertadores do Iraque.

 

No século XXI, a libertação dos povos oprimidos há-de fazer-se com recurso a outros processos, que não a guerra imposta pelo Império. De resto, é inequívoco que o Império de turno nunca liberta os povos. Quando intervém militarmente e em força, como o fez no Iraque, é porque tem grandes interesses económicos e estratégicos em jogo e que quer salvaguardar. A sua intervenção é sempre para submeter os povos, fazê­‑los seus vassalos, substituir os dirigentes que não colaboram com ele por outros que garantidamente colaborem. Libertação, é palavra que o Império não conhece, por mais que a pronuncie. Assim como não conhece a palavra democracia, embora a tenha constantemente na sua boca assassina.

 

A este propósito, faço minhas as palavras indignadas do companheiro solidário José Mário Branco, que tem estado a trabalhar a tempo inteiro para o TMI. Escreveu­‑as num e­‑mail que enviou às pessoas cujos endereços constam do seu livro de endereços. Leiam-nas e reflictam. E dêem um murro na mesa, antes que “eles” nos dêem murros no estômago, na cabeça e em todo o corpo, numa tentativa de nos atingirem também a alma! [...]. Façam por aparecer e participar. Com a nossa dignidade, venceremos o Império e os seus satélites. Os lacaios nunca se deram bem com mulheres, homens de pé! Eis.

 

E-mail do José Mário Branco

 

Caras Amigas e Caros Amigos,

 

Há momentos em que precisamos de cair em nós, e perceber que o mundo está degradado e degradante, que isso acontece por razões concretas – e que cada um de nós pode fazer qualquer coisa para o mudar.

 

Este é um desses momentos, e decidi dirigir-me pessoalmente a todas as pessoas que tenho na minha lista de endereços.

 

Vai realizar-se em Lisboa (sexta à noite, sábado manhã-e-tarde, e domingo à tarde) a Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque, no Auditório da Torre do Tombo, ao lado da Faculdade de Letras, na Universidade.

 

Esta iniciativa, na qual tenho trabalhado a tempo inteiro nos últimos seis meses, tem sido boicotada de todas as maneiras pela comunicação social – apenas dois artigos no Público e uma curta entrevista na SIC-Notícias. Mas as mentiras do discurso único que nos domina quanto à política imperial dos EUA, essas entram-nos em casa a toda a hora. As mentiras e as omissões. São as palavras escolhidas dos pivots, é o medo dos jornalistas e a blindagem das agendas de redacção.

 

O Tribunal Mundial sobre o Iraque é um tribunal de opinião. É um recurso de quem não pode, pelos meios que deviam ser normais, encontrar forma de contrariar esta avançada orwelliana, este golpe-de-estado comunicacional fascizante, esta sensação de que “se calhar mais vale estarmos calados”.

 

O importante nesta iniciativa não é só aquela guerra distante. É a maneira como estamos a ser levados a viver com ela. É um problema de aqui e de agora. Tudo é feito para nos habituarmos a ficar calados. Para, quando chegar a nossa vez, não sermos capazes de reagir.

 

Há assuntos tão consensuais, e no entanto são tratados em voz baixa, entre olhares discretos e cúmplices, meias palavras, entrelinhas. Não vá prejudicar-se “a vidinha”... Ou será que estamos a voltar aos anos 30 ?

 

Venham à Audiência! Não é uma manif, é um encontro de pessoas que nos vão contar o que está a ser feito em nosso nome. Pessoas que não se deixam calar: o Iraque é um horror numa lista (recente e futura) de coisas horríveis. E nós, pelo menos oficialmente, somos cúmplices.

 

Venham à Audiência! Faz dois anos que começaram a matar umas centenas de milhares de seres humanos, cuja culpa é terem petróleo debaixo dos pés – depois de terem morto uns milhões dos mesmos com o embargo, porque a aspirina e o leite condensado podiam servir para fazer armas de destruição maciça… Faz dois anos que o fazem, em nosso nome. Faz dois anos.

 

Venham à Torre do Tombo, à Torre do grande Tombo que os pariu. Que os há-de tombar.

 

Começa na sexta às 21h30. Continua no sábado e no domingo.

 

Vai estar bom tempo – se lá estivermos muitos.

 

Um abraço do José Mário Branco.