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08/01/2005 Governo português acusado
de cumplicidade na invasão do Iraque Ana Rita Ferreira A secção portuguesa do
Tribunal Mundial sobre o Iraque (TMI) tornou pública, na quinta-feira, a sua
acusação contra o Governo português «pela sua cumplicidade na agressão do
Iraque». No documento de acusação,
este «tribunal de opinião pública» – na linha do tribunal Russell sobre a
guerra do Vietname – acusa o Governo de Durão Barroso de ter prestado «apoio
diplomático e político à política dos beligerantes», através da cedência da
Base das Lages para a realização da «cimeira da guerra», da participação nessa
cimeira, «envolvendo-se na decisão da invasão», e da cedência da base para
apoio ao trânsito de militares e equipamento americanos durante a guerra. A acusação vai mais longe e
condena também a nomeação de José Lamego como representante junto do «governo‑fantoche»
iraquiano, o envio da GNR para o Iraque, em colaboração com as «forças
ocupantes», e o recente prolongamento da sua missão pelo Governo de Santana
Lopes. Numa sessão, que decorreu na
Biblioteca‑Museu República e Resistência – à qual assistiram Vasco
Lourenço, Saldanha Sanches ou Maria José Morgado –, coube a José Mário
Branco, membro da comissão organizadora, explicar que este documento irá
agora ser apresentado na audiência portuguesa do TMI, a realizar entre os
dias 18 e 20 de Março, em Lisboa, exactamente quando se assinalam dois anos
desde o início da guerra no Iraque. O TMI foi constituído em 2003
por um conjunto de organizações e personalidades empenhadas no movimento
contra a guerra e recebeu este nome por adoptar a forma de um tribunal, uma
vez que procura reunir provas e preparar depoimentos, embora não tenha os
poderes próprios de um tribunal. No fundo, este “tribunal” visa esclarecer a
opinião pública sobre a «agressão conduzida pelos EUA e pela Grã—Bretanha»
contra o Estado iraquiano e obter «uma condenação moral e política» sobre
esses factos, tal como explicou Manuel Raposo, outro dos elementos da
comissão organizadora da audiência portuguesa. À semelhança do que vinha
acontecendo noutros países, também em Portugal se constituiu, em Maio do ano
passado, uma secção do TMI, que elaborou a acusação agora apresentada. Esta
acusação também contempla os EUA e a Grã-Bretanha por terem levado a cabo «um
ataque e uma invasão ilegais contra um país soberano», por não terem poupado
as populações civis iraquianas, pelas torturas infligidas aos prisioneiros,
pelas pilhagens do património cultural e pela «apropriação ilícita» dos
recursos naturais iraquianos. SESSÃO FINAL EM JUNHO Eduardo Maia Costa,
procurador-geral adjunto e um dos juristas da comissão organizadora que
elaboraram o documento, afirmou que a acusação vai propor à mesa que irá
constituir o tribunal da audiência portuguesa – e que não incluirá ninguém da
comissão organizadora – que condene «estes crimes de guerra e crimes contra a
humanidade», que exija «a retirada imediata da GNR do Iraque» e que reconheça
«o direito do povo iraquiano de resistir pela força à ocupação». O advogado Garcia Pereira, o
historiador António Louçã, o médico e presidente da AMI Fernando Nobre, o
jurista José Manuel Pureza, os coronéis Vasco Lourenço e Carlos Vale Ferraz e
o general Pezarat Correia são, para já, alguns dos nomes confirmados para
prestarem depoimentos no tribunal. Todas as conclusões da audiência
portuguesa, tal como as de todas as outras audiências nacionais, serão
apresentadas na sessão final mundial do TMI a realizar em Istambul, na Turquia,
no próximo mês de Junho. O arquitecto Manuel Raposo
encerrou a sessão, concluindo que «o Governo português participou em todas as
fases da agressão, desde a difusão de mentiras até agora, com a prorrogação
da missão da GNR», pelo que é necessária uma «denúncia insistente» destes
factos para que «a população tome consciência da barbárie e inverta o curso
político». |