Informação Alternativa

Portugal

Outubro 2004

 

Manifesto do Grupo de Apoio à Audiência Portuguesa

do Tribunal Mundial sobre o Iraque (Porto)

 

Sim, sr. Bush

Diga, sr. Bush

Como queira,

sr. Bush

O Estado português é cúmplice

dos crimes cometidos no Iraque

 

«não perguntes por quem os sinos dobram (…).

(…) eles dobram por ti»!

John Donne (1572-1631)

 

Desde 2001 quiseram que acreditássemos que o Iraque tinha armas de destruição maciça e, por isso, o ocidente corria perigo!

 

A MAIORIA DE NÓS NÃO ACREDITOU!

 

Desde 2001 quiseram que acreditássemos que, mesmo não havendo essas armas, o Iraque seria o cadinho do terrorismo internacional!

 

A MAIORIA DE NÓS NÃO ACREDITOU!

 

Depois quiseram que acreditássemos que a guerra seria limpa, breve e cirúrgica, útil para derrubar um ditador odioso e restituir a liberdade e democracia ao violentado povo iraquiano.

 

A MAIORIA DE NÓS, NÃO ACREDITOU!

 

Mais tarde quiseram que acreditássemos que a guerra tinha acabado no início de Maio de 2003!

 

A MAIORIA DE NÓS, DE NOVO, NÃO ACREDITOU!

 

Em desespero de causa quiseram que acreditássemos que o povo iraquiano readquiriria a sua soberania nacional a partir de fins de Junho de 2004!

 

A MAIORIA DE NÓS, AINDA ASSIM, NÃO ACREDITOU!

 

Disseram-nos, por fim, que queriam velar pelo mundo, defender-nos, proteger­‑nos, dar­‑nos paz, garantir a nossa segurança, tornar o planeta mais livre e democrático… e no entanto…

 

CONTINUAMOS TEIMOSAMENTE A NÃO ACREDITAR!

 

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Desconfiados, achamos que a luta contra os infiéis tinha sido originada pela decisão iraquiana – em Novembro de 2000 – de instituir o euro como moeda de referência para as suas transacções de petróleo o que – a ser seguido pelos restantes produtores – poderia despoletar uma hecatombe na economia americana habituada a fabricar dólares/papel 24 horas por dia.

 

Desconfiados, a maioria de nós nunca acreditou em nada porque também sabíamos que, como disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico nos princípios deste ano, a pacificação era imprescindível para que «os recursos naturais do Iraque, petróleo incluído, pudessem ser utilizados em benefício de toda a gente»! Desconfiados, afirmámos que sabíamos quem era “toda a gente” e dissemos que seria essa gente a beneficiar dos lucros da rapina!

 

Desconfiados, pusemos em causa as provas – não por termos tido expectativas quanto ao carácter do regime de Saddam Hussein generosamente apoiado durante anos pelas administrações americanas, nomeadamente na chacina ao povo curdo – mas porque tínhamos a certeza que, mais tarde ou mais cedo, um qualquer Colin Powel viria dizer que tinha «dúvidas sobre a veracidade de algumas alegações a respeito de armas de destruição maciça»!

 

Desconfiados, nunca tivemos ilusões sobre guerras limpas ou cirúrgicas! A reconstrução do Iraque tem permitido o desafogo económico de múltiplas empresas da coligação nomeadamente as afectas a Dick Cheney, actual vice-presidente de W. Bush!

 

Desconfiados, nunca aceitamos que esta guerra pudesse servir a paz: o mundo não está hoje mais seguro e a violência alastrou a zonas onde antes não tinha guarida! Desconfiados, percebemos o golpe: «(…) depois de destruir os taliban, depois de destruir o regime de Saddam, a mensagem aos outros é: Vocês são a seguir (…)» decretava o “Príncipe das Trevas” americano, Richard Perle no início da invasão ao Iraque.

 

NUNCA ACREDITÁMOS, SEMPRE DESCONFIÁMOS MAS NUNCA PENSÁMOS QUE O DESPUDOR E A IMPUNIDADE PUDESSEM CHEGAR TÃO LONGE!

 

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Desde a 2ª Guerra Mundial os EUA, enquanto Estado ou clandestinamente intervieram em mais de 30 países soberanos, à bomba ou com acções tipo “Rambo/Rangers do Texas”.

 

A história tem demonstrado, factualmente, que os Estado Unidos têm uma paranóia compulsivamente imperial, desmedida, funcionando como uma espécie de Rei Midas ao contrário: transformam em guerra, miséria e sofrimento tudo aquilo em que tocam! Sem necessidade de disfarçar ou aparentar tudo se passa em tempo real: é assim porque é assim! Invade-se porque se pode, ocupa-se porque se quer, pilha-se porque é preciso. Para o imperialismo americano e seus apaniguados o mundo é um tabuleiro de xadrez com um só rei e trinta e um peões.

 

MAS A IMPUNIDADE TEM LIMITES! DESTA VEZ “A CULPA NÃO VAI MORRER SOLTEIRA”!

 

Em 1946 o Tribunal de Nuremberga julgou e condenou alguns dos principais criminosos nazis dignificando a história e a memória!

 

Nos anos 60 a opinião pública mundial julgou moralmente – com o Tribunal Cívico Bertrand Russell – os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Vietname.

 

Pouco tempo depois do 25 de Abril de 1974 o Tribunal Cívico Humberto Delgado organizou­‑se para julgar, também moralmente, a Pide e os múltiplos agentes da repressão do fascismo.

 

«Nada pode apagar

o concerto dos gritos (…)

(…) dos povos destruídos

dos povos destroçados (…)»,

 

escreveu Sophia Mello Breyner (1919-2004) na sua Cantata da Paz. Chegou, por isso a altura de construir o dia inteiro e limpo criando condições para julgar (infelizmente só em termos morais) Bush, Blair, Aznar, Barroso e toda a panóplia de comentadores e opinion makers que ajudaram a construir uma monstruosa mentira!

 

Na tradição do Tribunal Russell foi constituído em 2003 o Tribunal Mundial sobre o Iraque (TMI) com o propósito de investigar os crimes perpetrados contra o POVO IRAQUIANO, debater as motivações da agressão e a teia de embustes criada, acusar os autores e seus cúmplices, fortalecer a acção mundial pela paz contra as políticas belicistas.

 

Este Tribunal (de opinião) é composto de várias sessões a culminarem numa sessão final em Istambul, Turquia, a 20 de Março de 2005. Depois de realizadas iniciativas em Londres, Bombaim, Copenhaga, Nova York e Roma deverão acontecer algumas outras em Espanha, Grã-Bretanha, Egipto, Coreia do Sul e Portugal.

 

«Sabemos que o Iraque tem armamento de destruição massivo, biológico e químico. Pode estar na iminência de possuir armas nucleares» afiançava no Parlamento português, em 2002, o actual Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, tirocinando certamente para servir de estalajadeiro na Cimeira da Guerra realizada nos Açores no ano seguinte.

 

Porque além de não acreditarmos também não esquecemos, “metemos os pés ao caminho”: a 12 de Novembro, pelas 21 horas, na Cooperativa ÁRVORE ocorrerá no Porto uma sessão destinada a analisar e pontuar a mercadoria putrefacta – e respectivos “comissionistas” – que quiseram, e despudoradamente continuam a querer, vender-nos!

 

Esta iniciativa vai inserir-se na AUDIÊNCIA PORTUGUESA DO TMI a realizar em Lisboa, provavelmente no início de 2005 e à qual deram já o seu apoio centenas de pessoas entre as quais se destacam,

 

António Borges Coelho, historiador,

António Capelo, actor,

António Reis, actor,

António Ramos Rosa, poeta,

Assembleia Libertária do Porto (adesão colectiva),

Associação dos Médicos Portugueses para a Prevenção da Guerra Nuclear e de Todas as Guerras (adesão colectiva),

Avelino Gonçalves, professor,

Carlos Vale Ferraz, escritor,

Corregedor da Fonseca, deputado,

Diana Andringa, jornalista,

Eduarda Dionísio, escritora,

Fausto, cantor,

Fernando Rosas, historiador,

Frei Bento Domingues, padre,

João Gil, músico,

João Semedo, médico,

João Teixeira Lopes, professor universitário/deputado,

Jorge Silva Melo, encenador,

José Leitão, actor/encenador,

José Mário Branco, compositor,

José Viale Moutinho, escritor,

Júlio Cardoso, actor/encenador,

Luiza Cortesão, Professora Universitária,

Manuel Freire, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores,

Manuela de Freitas, actriz,

Margarida Gil, cineasta,

Maria do Céu Guerra, actriz,

Maria João Pires, pianista,

Maria José Morgado, magistrada,

Mário Cláudio, escritor,

Miguel Urbano Rodrigues, jornalista,

Movimento pela Paz, organização cívica/Porto (adesão colectiva),

Nuno Grande, médico,

Nuno Teotónio Pereira, arquitecto,

Padre Mário de Oliveira,

Paulo de Carvalho, músico,

Pedro Bacelar de Vasconcelos, jurista,

Rui Vieira Nery, musicólogo,

Saldanha Sanches, jurista,

Vasco Lourenço, militar,

Vera Mantero, coreógrafa.

 

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Nem que seja preciso «ressuscitar da morte às arrecuas» que nos querem dar urge dar voz à verdade, responder afirmativamente à indignação! A trapaça e o contrabando não são inevitáveis e muito menos será aceitável fazer de conta que não poderia ser de outro modo. Se a invasão, ocupação, pilhagem e delapidação do Iraque forem deixados impunes saberemos em breve que,

 

«Ontem comecei

a aprender a falar

Hoje aprendo a calar

Amanhã deixo

De aprender»

Erich Fried (1921-1988)