Informação Alternativa

Portugal

12/11/2004

 

Depoimento na 1ª Audiência Portuguesa

do Tribunal Mundial sobre o Iraque (TMI)

 

Padre Mário de Oliveira

Decorreu ontem à noite, na Cooperativa Árvore, a Sessão do Porto da Audiência Portuguesa do TMI – Tribunal Mundial sobre o Iraque. A sala estava repleta. Faltou a grande Comunicação Social. Nem jornais. Nem rádios. Nem televisões. O Império ainda não precisa, para já, de proibir estas iniciativas. Basta-lhe não as noticiar. Pensa o Império que com esta sua postura tem o futuro nas mãos. Engana-se. Com esta sua postura, o Império mostra a sua verdadeira face de besta cruel e inumana. A sessão condenou a guerra e exigiu a desocupação imediata do Iraque por parte das tropas estrangeiras. E fez revelações de estarrecer. Partilho aqui na íntegra a intervenção que fiz na Sessão, como depoente convidado. Leiam-na e divulguem-na. Para que o Império fique cada vez mais desmascarado. Quando todas, todos o recusarmos nas nossas vidas, o Império desaparecerá. Eis.

INTRODUÇÃO

Pedem-me para depor neste Tribunal Mundial sobre o Iraque. Não posso dizer que não. Aqui estou. De corpo inteiro. Trago comigo a guerra ainda em curso, apesar de já ter sido dada oficialmente como terminada. Trago comigo as muitas dezenas de milhar de feridos. As lágrimas e as dores e as aflições sem conta de todo um povo. As suas revoltas. As suas justas iras. E as suas cidades, algumas património cultural da Humanidade, sacrilegamente destruídas. Sobretudo, trago comigo os mais de cem mil mortos que a guerra em curso já fez. Cem mil mortos, ouviram bem? Não cabem todos nesta sala, eu sei, mas deixem-nos entrar. Deixem que se sentem connosco nesta sessão. Deixem que invadam as nossas casas. Que perturbem o nosso sono. Que sacudam as nossas quotidianas rotinas. Que estraguem as nossas festas. São cem mil vidas – a maior parte delas mulheres e crianças – abruptamente truncadas. Cem mil rostos que nos interpelam. Cem mil pares de olhos que nos olham fixamente nos olhos. Cem mil bocas que perguntam: que mal te fiz eu, que mal vos fizemos nós, para que invadísseis o nosso país, bombardeásseis as nossas cidades e assassinásseis as nossas vidas? Que tipo de seres humanos sois vós, os ocidentais? Que tipo de prazer podeis sentir em invadir o nosso país e em matar-nos indiscriminadamente? Será que sois de outro planeta? Será que já não tendes entranhas de humanidade? Será que já só tendes interesses lá onde era suposto que deveríeis ter entranhas de humanidade e de solidariedade? Porque nos odiais tanto? Se é o nosso petróleo que cobiçais, porque nos matais antes de o roubar? E com que direito o cobiçais? O presidente Saddam Hussein metia-vos medo? A partir de quando? É que houve um tempo em que ele foi considerado vosso aliado. As armas dele eram perigosas para vós e para o resto do mundo? E as vossas, será que são armas-faz-de-conta, coisa­‑de­‑brincar? Não são armas muito mais sofisticadas que as dele e muito mais mortíferas que as dele? De resto, não foram as vossas armas que nos mataram e que continuam a matar indiscriminadamente no nosso país e em tantos outros pontos do globo? Que medos inconscientes são esses que vos habitam, e que frustrações individuais e colectivas são essas que vos levam a ter tanta necessidade de perpetuar uma Ordem Mundial em forma de império, incompatível com a existência de pessoas insubornáveis e de povos que prezem a sua dignidade e a sua identidade? Quando deixareis definitivamente a fase da adolescência, para vos assumirdes como indivíduos e povos maduros, adultos, a viver em concertação e em diálogo com os demais, no respeito pelas diferenças? Porque não sois simplesmente humanos, irmãos universais de todos os outros povos que, como vós, habitam o mesmo planeta? Porque tendes tanta necessidade de ser Caim, e de alimentar uma Ordem Mundial à Caim, feita de mentira, que nos mantém a todas, todos cativos na injustiça, quando poderíeis ser simplesmente Abel e criar uma Ordem Mundial à Abel, feita de verdade, que nos libertaria a todas, todos, para a liberdade?

Neste meu depoimento, pedem-me que me pronuncie sumariamente sobre três questões muito concretas. É o que vou fazer, depois desta introdução. Com toda a simplicidade. Não sou juiz de ninguém. Sou apenas uma testemunha viva que vê, que ouve e que lê e, por isso, não pode ignorar. Não condeno ninguém. Nem peço a condenação de ninguém. Condeno e peço a condenação dos perversos Sistemas económico-financeiros e político-religiosos que herdamos e que teimamos em alimentar. Sadicamente. São Sistemas idolátricos que produzem vítimas humanas e outras aos milhões e, coisa ainda pior, que se alimentam de vítimas humanas e de outras aos milhões. Condeno e peço a condenação das ideologias absolutistas que nos deformam e nos transformam em monstros. Em conquistadores. Exploradores. Assassinos. Genocidas. Imperialistas. Ladrões. Dominadores. Opressores. Idólatras. Algozes. Carrascos. Funcionários. Súbditos. Vassalos. Coisas. Minhocas.

É ESTA A 1ª QUESTÃO CONCRETA: AS ACUSAÇÕES CONTRA O IRAQUE (ARMAS DE DESTRUIÇÃO MACIÇA, EXÉRCITOS INVENCÍVEIS, SUPORTE DE REDES TERRORISTAS INTERNACIONAIS ETC.) – QUE SE PROVARAM SEREM FALSAS – RESULTARAM DE ENGANOS, DE ERROS DE INFORMAÇÃO – OU FORAM MONTAGENS PARA ILUDIR A OPINIÃO PÚBLICA E FAZER DA GUERRA UM FACTO CONSUMADO?

A esta questão respondo: O Império, como sistema histórico perverso que é, tem ilimitada capacidade de produzir mentira e de a fazer passar por Verdade. O nosso António Aleixo já o disse duma forma assombrosamente sucinta e profunda: «P’rá mentira ser segura / e atingir profundidade / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade». O império mente. É da sua natureza ser mentiroso e pai de mentira. É por isso que gera escravos, servos, vassalos, em lugar de seres humanos. Só a Verdade gera liberdade, seres humanos livres, criadores, inconfundíveis, únicos, irrepetíveis, poetas, profetas, artistas, sábios.

Quando mente, o Império faz o que lhe é próprio. Será ingenuidade esperar que o Império alguma vez diga a verdade. Se o fizer, age contra si próprio e entra em colapso. Do Império, sempre havemos de esperar a Mentira, feita de pequenas/grandes mentiras em série. E, se não mantemos esta postura frente ao Império, é sinal que já lhe caímos nas malhas, já somos seus súbditos, seus lacaios, seus vassalos.

No que respeita ao Iraque, não hesito em responder que o Império só nos deu mentiras. Tudo o que disse foi mentira. E foi com base nessa Mentira feita de mentiras que tentou colocar a Humanidade a favor das suas posições, nomeadamente, da guerra que estava determinado a consumar. Ao Império interessava invadir o Iraque. Ocupar o Iraque. Apoderar-se do Iraque. Do petróleo do Iraque. Interessava-lhe um Iraque destruído, submisso, súbdito, subserviente, como o que já começa a ter nos funcionários iraquianos que fazem parte do actual governo de transição, em ordem a uma farsa de todo o tamanho chamada eleições livres. Como era isso que lhe interessava, foi isso que fez. Quando se deu conta que, se calhar, pela primeira vez na História, a esmagadora maioria da Humanidade não acreditava na sua Mentira, na sua propaganda, estremeceu, mas não desistiu. Aparentemente, o mundo esteve à beira de ficar, pela primeira vez na sua história, sem império de turno. Mas ainda não chegou a hora de tamanho triunfo da Humanidade. E foi então que o Império concebeu e realizou aquela pirueta publicitária nos Açores, com o seu próprio chefe e mais dois compinchas, um imperialista e outro com vontade de o ser no próximo futuro. Aos três filhos da Mentira – ou filhos da Puta, ou filhos do Diabo, ou filhos da Besta, conforme nos expressemos, respectivamente, na língua popular, na língua teológica do Evangelho de João, na língua teológica do último Apocalipse cristão – juntou-se à última hora um quarto elemento, que o mundo ainda não conhecia. Foi o lacaio dos três, sem aspirações a imperialista. Bastava-lhe um qualquer galho no circo das vaidades, onde pudesse exibir a sua própria. Pelos vistos, portou-se tão bem, que já recebeu o rebuçado de compensação. Por isso, a Europa que se cuide, que o nosso homem é capaz de tudo para agradar ao Império e ao seu chefe de turno.

No dia seguinte àquela pirueta de circo nos Açores, a guerra eclodiu no Iraque contra o sentir e o querer da maioria da Humanidade. Porém, a Mentira do Império ficou sobejamente desmascarada. E a verdade é que nenhum dos pressupostos em que o Império pretendeu fundamentar a invasão e a guerra de destruição maciça do Iraque se confirmou no terreno. Mesmo assim, o Império mostra-se incapaz de reconhecer a monstruosidade da sua decisão. Deixaria de ser o Império, se o fizesse. Entretanto, como ele continua aí arrogante nos seus pés de barro, também os seus súbditos não deixam de o aplaudir. De joelhos. Ou mesmo de cócoras. Às suas sucessivas blasfémias, os seus súbditos na América e na Europa, repetem sem cessar: “Ámen”. Há muito que renunciaram a ser seres humanos. Preferem ser súbditos do Império. Coisas.

PASSO AGORA À 2.ª QUESTÃO: QUEM CONSTRUIU, EM PORTUGAL, ESSA CENTRAL DE INTOXICAÇÃO? SÓ O GOVERNO? A COMUNICAÇÃO SOCIAL – EM PARTICULAR ALGUNS “FAZEDORES DE OPINIÃO” – NÃO PODE SER RESPONSABILIZADA POR TER ALINHADO PREMEDITADAMENTE NESSA CAMPANHA DE INTOXICAÇÃO E MENTIRA?

A esta segunda questão, respondo: Nem o governo, nem a comunicação social criaram no nosso país a central de intoxicação sobre o Iraque, de modo a justificar a criminosa guerra que ainda perdura. O Império é que faz isso em todo o mundo. Por isso é Império. O Império, como deus criador de mentira que é, apenas precisa de instalar pequenas centrais de difusão em todos os países do mundo, para melhor poder atingir todos os indivíduos e todos os povos. Os governos dos diversos países, assim como os media e, porque não dizê-lo?, as Igrejas, ou são ferozmente anti­‑Império, ou são automaticamente braços compridos do Império, melhor, são o Império encarnado e actuante em cada canto do mundo. Infelizmente, no nosso país, o Império tem hoje um governo à altura de todas as desonestas missões que se propõe, nem que seja através dum pequeno contingente de militares da GNR. É um governo feito de súbditos, de funcionários, de humanóides que ainda não chegaram à estatura de seres humanos. Vestem arrogância, respiram hipocrisia, servem ignorância, discursam mentiras, realizam ilusionismo, levam-nos até a camisa, põem o país a pique para o abismo. E tudo isto com a bênção e o placet do Presidente da República, com preocupante vocação para político suicida.

Os media, com excepção dos que estatutariamente estão obrigados a ser “a voz do dono”, ainda conseguem dar voz aos dissidentes do Império, mesmo quando o respectivo director alinha descaradamente por ele. Se não são manifestamente anti­‑Império (alguma vez será possível ser um dos grandes media e ser, ao mesmo tempo, anti-império?), também não são descaradamente Império. Basta ver como o Império, na sua maior sucursal no nosso país, que é o actual Governo, anda aflito com tanta insubordinação nas redacções e como desabridamente tenta silenciar as vozes mais incómodas e as consciências profissionais mais libertas e coerentes.

Houve, é verdade, uns quantos profissionais da comunicação social, pomposamente conhecidos como “fazedores de opinião” – a mim já não me afectam eles! – que, porventura, ingenuamente, tomaram por verdade a Mentira do Império. E disseram cobras e lagartos contra os camaradas que não lhes seguiram nem seguem os passos. Todos os dias, de múltiplas maneiras, foram e continuam a ser caixas de ressonância do Império entre nós. Tamanha ingenuidade em profissionais de comunicação social levanta uma questão de fundo: será que, depois disto, eles ainda podem manter a carteira profissional de jornalista? Não é condição sine qua non, para se ser jornalista, que já se tenha deixado para trás a consciência ingénua?

E com esta pergunta, entro de imediato na 3.ª questão sobre a qual me pedem que me pronuncie:

DEVE-SE-LHES, OU NÃO, EXIGIR UMA RETRACTAÇÃO PELO QUE COM TODO O DESPUDOR ANDARAM A “VENDER”?

No meu entender, não. Eles é que se devem a si mesmos essa retractação. Se o não fizerem, então já nem sequer podem ser olhados como ingénuos. São descarados colaboracionistas do Império. Como os publicanos no tempo de Jesus, o de Nazaré. E vamos então cair-lhes em cima com todo o nosso desprezo, como fazia a sociedade judaica do tempo de Jesus em relação aos publicanos? Haverá certamente quem pense que sim e o faça. Não é isso que aqui peço, embora condene com toda a veemência essa sua postura de colaboracionistas do Império. Entendo que essa postura, só por si, já é reveladora de tão grande desumanidade, de tanta baixeza intelectual e de tanta deslealdade para consigo mesmos, que sou incapaz de vir aqui pedir para eles todo o nosso desprezo. Para eles, peço sim todo o nosso acolhimento, toda a nossa solicitude, todo o nosso carinho, toda a nossa convivência. Se conseguirmos ser plenamente humanos com eles, talvez ainda acabe por despertar, pelo menos, em alguns o gosto de serem humanos também. E poderemos, então, vir a ter a alegria de os ver, um dia destes, a organizar em suas casas, à semelhança do que fizeram em seu tempo Mateus e Zaqueu, um banquete de festa, para, desse modo, assinalarem o primeiro dia do resto das suas vidas. Como seres humanos. Visceralmente anti-Império.