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Maio 2007
Projecto político do PSD
faliu em Lisboa
Catarina Oliveira
Esquerda
(pdf)
A principal Câmara do país
atravessa a pior das crises desde o 25 de Abril e as eleições intercalares
são uma inevitabilidade face à incapacidade política que o PSD demonstrou em
inverter o caminho descendente da autarquia. Absoluta degradação da situação financeira,
necessidade de reestruturação de várias empresas municipais, paralisia nos
serviços de proximidade, instabilidade interna, são alguns dos sintomas da
crise da capital, em consequência da inacção de Carmona Rodrigues e da
passividade do líder do PSD, Marques Mendes.
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Gebalis: relatório
compromete vereador
A meados de Abril, a
análise do Relatório de Contas de 2006 da Gebalis, empresa municipal que
gere os bairros camarários da cidade, é motivo para um episódio que marcou
a história da convivência entre Carmona Rodrigues e os vereadores do PSD
nos últimos meses: Sérgio Lipari Pinto, o vereador com a tutela da
Habitação e Acção Social, abandona a reunião de Câmara. Os ânimos
acenderam-se logo no início da sessão, quando Lipari Pinto leu uma
declaração sobre o relatório em questão. O vereador referiu que «onde antes
havia prejuízos acumulados de 5,9 milhões de euros, agora temos prejuízos
que ascendem a 10,9 milhões de euros. Onde antes havia uma dívida a bancos
de 15 milhões de euros, agora temos uma dívida que totaliza 24,4 milhões de
euros» e que «em Março de 2007 já ascende a 27 milhões de euros». O passivo
da Gebalis ultrapassou os 45 milhões de euros em 2006, segundo este
responsável. Lipari Pinto aproveitou para realçar a sua posição de total
ausência de confiança técnica, funcional e institucional na administração
da Gebalis, e solicitou a sua exoneração. Face à discussão que se seguiu, o
vereador abandonou a reunião, surpreendendo Carmona Rodrigues, que
interrompeu os trabalhos, retomados mais tarde com o Presidente a pedir que
o relatório da empresa passasse para o último ponto dos trabalhos. A
discussão que se gerou no fim da reunião em torno do assunto, com a
oposição a pedir a retirada do pelouro ao vereador, fizeram com que a
proposta fosse adiada.
Semanas antes, o vereador
mandou constituir uma comissão para avaliar o trabalho da empresa
municipal, que produziu um relatório que deu conta de algumas
irregularidades praticadas pela empresa, nomeadamente na altura em que
Maria José Nogueira Pinto, do CDS-PP, tutelou a empresa, entre finais de
2005 e Novembro de 2006.O presidente da Gebalis, Francisco Ribeiro, nomeado
pela vereadora do CDS, questionou a legalidade do relatório que Lipari
Pinto, enviou de imediato para o Tribunal de Contas e Inspecção-Geral das
Finanças, só mais tarde dando conta disso a Carmona Rodrigues. A lume
vieram também informações da contratação para a Gebalis, de dezenas de
militantes do PSD, nomeadamente da secção presidida pelo próprio Lipari
Pinto, no período anterior à tutela da vereadora do CDS-PP, altura em que o
vereador do PSD era o responsável pela empresa.
O Presidente enviou o
relatório em causa para o Departamento de Auditoria Interna da Câmara, que
conclui pela existência de práticas de fraccionamento da despesa em
empreitadas, obras lançadas por concurso limitado e por ajuste directo,
entre outras irregularidades, algumas das quais imputadas ao vereador
Sérgio Lipari Pinto, que reagiu requerendo a demissão da administração da
empresa. A oposição considera, no entanto, que, face aos factos apurados,
Carmona Rodrigues deve retirar a gestão da Gebalis ao vereador social‑democrata.
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Bragaparques: permuta
que arrasou executivo
Se há um caso emblemático
na actual crise da CML é sem dúvida o da Bragaparques. Sendo um entre
vários que abalaram a credibilidade do Executivo, assumiu contornos, pelo
número de arguidos constituídos e pela própria dimensão do “negócio” em
causa, de verdadeiro escândalo. Em causa esteve a permuta de terrenos que a
empresa de Braga possuía no Parque Mayer por terrenos camarários no espaço
da antiga Feira Popular, em Entrecampos, um negócio que poderá configurar crimes
como prevaricação, participação económica em negócio, tráfico de
influências e corrupção. As autoridades investigaram o caso e constituíram
como arguidos, Remédio Pires, director municipal de Serviços Gerais, que
acompanhou o negócio, a então vereadora com o pelouro do Urbanismo,
Gabriela Seara, e o anterior vice-presidente da CML, Fontão de Carvalho –
ambos com mandatos suspensos – assim como o próprio Carmona Rodrigues. Em
causa está a troca dos terrenos do parque Mayer, propriedade da Bragaparques,
por cerca de metade dos terrenos onde se encontrava a Feira Popular e o
facto da Câmara ter concedido direito de preferência à Bragaparques, na
hasta pública em que foi vendido o resto da área da Feira Popular.
José Sá Fernandes, ainda
antes de ser vereador, fez uma participação ao Ministério Público sobre
este assunto. Na tentativa de corrupção de que foi alvo por parte de
Domingos Névoa, este pediu ao vereador que desistisse da acção judicial
interposta contra a sua empresa. Sá Fernandes denunciou a situação às
autoridades competentes, estando o processo já em fase de instrução.
Quanto à permuta, em Março,
o MP convocou ainda como testemunhas a deputada do PSD e antiga vereadora
da Câmara de Lisboa Helena Lopes da Costa, o deputado Pedro Santana Lopes
(antigo presidente da Câmara) e o deputado Vasco Franco (ex-vereador
socialista na autarquia).
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Seis meses depois de
instalada a crise interna na Câmara Municipal de Lisboa, Marques Mendes
decidiu finalmente agir e anunciar o seu apoio à realização de eleições intercalares,
reconhecidamente tarde. Assiste‑se a uma profunda paralisia dos
serviços da CML, à desmotivação dos seus funcionários, à incredulidade dos
cidadãos face ao estado a que chegou a principal autarquia do país, e,
sobretudo, a uma asfixia financeira que é urgente solucionar.
Foram vários os alertas que
podiam ter levado o líder do PSD a actuar, mas este preferiu sempre assistir de
longe, e sem se comprometer, ao desempenho de Carmona Rodrigues, uma escolha
sua para liderar os destinos da capital. Quando Marques Mendes decidiu finalmente
agir e anunciar que não há outra saída para Lisboa para além das eleições
antecipadas, convocando todo o Executivo social-democrata para renunciar ao
cargo e assim precipitar o acto eleitoral, Carmona Rodrigues arrogou-se no
direito de se alhear desta decisão e seguir o seu próprio projecto pessoal, à
margem do partido que o elegeu, na condição de independente, buscando apoios
nas franjas do PSD.
Anunciadas as eleições,
Lisboa vive ainda um impasse. Carmona Rodrigues afirmou na primeira
declaração pública após ter sido constituído arguido, no âmbito do processo
Bragaparques, que não seria o primeiro a «abandonar o barco», reforçando a
sua intenção de cumprir o mandato até ao fim, e contrariando o que Marques
Mendes determinou.
Em concreto, seis dos vereadores
em funções pelo PSD anunciaram a renúncia mas Carmona Rodrigues ficou de
fora, apoiado nesta decisão pelos vereadores suspensos, Fontão de Carvalho,
Gabriela Seara e Pedro Feist (que tem os pelouros do Desporto, Obras
Municipais, Frota e Higiene Urbana), suficientes para impedirem a queda da
câmara. As várias forças da oposição já se mostraram disponíveis para
renunciar, mantendo no entanto a convicção de que é aos vereadores do PSD,
militantes e independentes eleitos na mesma lista, que cabe a responsabilidade
de tomar uma posição e clarificar o cenário pré-eleitoral.
A ruptura da coligação
PSD/CDS-PP foi um dos primeiros sinais da degradação na governabilidade da
autarquia, em Novembro de 2006, mas muitos outros se seguiriam, que agravaram
as condições para garantir a governabilidade. São os casos da EPUL, das taxas
não cobradas e irregularidades urbanísticas no edifício da Infante Santo, da
anulação do loteamento da LisMarvila, dos acontecimentos ligados à gestão da
Gebalis, entre vários outros.
A suspensão de Gabriela Seara
e Fontão de Carvalho, no início deste ano, tornou ainda mais evidente a
ingovernabilidade da CML. Marques Mendes pôs-se então ao lado de Carmona
Rodrigues, saudou as opções de suspensão – pela concordância com os
princípios do partido – mas continuou a desmentir o cenário de crise, e a
contribuir também para o seu agravamento, fruto do medo de perder a CML, ou
da sua autoridade ser posta em causa, o que viria, decisivamente, a suceder.
O caso Bragaparques e as
suspeitas de favorecimento da CML a esta empresa levaram decisivamente à
degradação da estabilidade da maioria social-democrata na autarquia, que
culminou com o próprio presidente a ser notificado para ser ouvido como
arguido.
À crise política e de
credibilidade que envolveu o Executivo, junta-se ainda a situação financeira crítica
que a CML atravessa, com uma dívida total de 1,261 milhões de euros. Ao
contrário do anunciado – a redução em cerca de 30 por cento da dívida da autarquia
– o panorama financeiro da CML não se atenuou, mas agravou: o aumento da
dívida face ao ano anterior foi de 60 milhões de euros, confirmando-se,
assim, a gestão financeira ruinosa do actual executivo de maioria PSD.
Nos últimos meses foram
igualmente frequentes as notícias sobre a falta de pagamento da CML aos
fornecedores ou a incapacidade para cumprir as transferências de verbas
acordadas em câmara, e assim pôr em dia os apoios às associações,
nomeadamente no âmbito da Acção Social. Ainda em termos das Finanças, a taxa
de execução do Plano de Actividades de 2006 – um dos indicadores para avaliar
o desempenho do Executivo, em matéria orçamental – é de cerca de 46 por
cento, considerada por alguns a mais baixa desde o 25 de Abril. Ou seja, em
termos práticos ficou por cumprir cerca de metade do orçamentado para 2006.
Actividade paralisada, agravamento das contas e ausência de soluções que
permitam inverter os problemas da CML, é o actual cenário financeiro a que se
assiste da capital.
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EPUL: à espera da
reestruturação anunciada
Uma das polémicas que mais
pôs a descoberto a fragilidade do Executivo do PSD prende-se com a Empresa
Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL), nomeadamente com a necessidade evidente
de reestruturação desta empresa municipal, e também com o episódio da
atribuição de prémios indevidos aos seus administradores, que levou a que
Fontão de Carvalho fosse constituído arguido em Fevereiro, e apresentasse o
pedido de suspensão.
Actualmente, a empresa tem
como presidente João Teixeira, único elemento do conselho de administração
que se mantém depois de ter sido conhecido o caso dos prémios e de três dos
administradores terem sido acusados de peculato. Quanto à reestruturação da
empresa, o Executivo encomendou um plano que nunca saiu do papel e as
propostas apresentadas pela oposição, nomeadamente Bloco de Esquerda e PS,
continuam por debater.
Em Setembro de 2006, o caso
da EPUL precipitou-se quando José Sá Fernandes apresentou ao Ministério
Público uma participação, que referia que onze administradores da empresa e
suas empresas participadas – Imohifen e Find Land – tinham recebido
indevidamente uma verba global de 180 mil euros de prémios de produtividade
respeitantes a 2004 e 2005. Esta atribuição violou uma resolução do Conselho
de Ministros e foi tomada sem qualquer deliberação dos órgãos sociais ou da
tutela. No início do mês, a PJ efectuou buscas na CML e sede da empresa,
para consultar os processos em causa e as actas das reuniões, e poucos dias
depois a maioria do Executivo municipal acabou por reconhecer que os
pagamentos foram indevidos, garantindo que estes seriam devolvidos na
totalidade.
Segundo se apurou, o então
vice‑presidente da CML autorizou os prémios em causa, quando detinha
o pelouro das empresas municipais. Soube-se em Fevereiro, quando lhe foi
deduzida acusação pelo crime de peculato, que Fontão de Carvalho escondera durante
três meses a sua condição de arguido no processo, e que teve como aliado
neste segredo o próprio Carmona Rodrigues, deixando de fora o presidente do
partido, Marques Mendes.
Foram acusados de peculato
no âmbito do mesmo processo a ex-vereadora da autarquia Eduarda Napoleão,
já constituída arguida no caso Bragaparques, e os administradores da EPUL,
Arnaldo João, tido como próximo do PS, Luísa Amado e Aníbal Cabeça.
Nem as demissões dos
administradores, nem a urgência em encontrar uma forma de viabilizar a empresa
apressaram a apresentação do processo de reestruturação da empresa. A
tarefa acabou por ser entregue, pelo conselho de administração da EPUL, à
consultora CapGemini, que em Março mostrou o seu trabalho, orçado em 110
mil euros. A proposta apresentada mereceu críticas de toda a oposição, por
preconizar apenas princípios gerais como o redireccionamento da empresa para
os custos controlados e para habitação para jovens e terceira idade. Sobre
a estratégia de sustentabilidade financeira da futura empresa ou sobre a
sua fiscalização, nem uma palavra. Pedido o estudo e apontadas as
hipóteses, o Executivo camarário dava provas da incapacidade em apresentar
uma proposta concreta. Sem solução à vista para o problema, decidiu‑se
criar um grupo de trabalho constituído por vereadores do executivo do PSD e
de toda a oposição para estudar a reestruturação e analisar toda o sector
empresarial da CML.
Em Abril, novo revés no
processo de transformação da empresa: os órgãos de comunicação social
divulgam que Carmona Rodrigues nomeou o socialista Rosa do Egipto,
presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais, e Luís Gama Prazeres,
antigo membro do conselho de gerência do Metropolitano de Lisboa, para
vogais do conselho de administração.
A oposição contestou a
nomeação, feita por mero despacho, e o PS conseguiu aprovar em sessão da
CML uma proposta de nulidade das nomeações, com os votos contra do PSD. É
que, de acordo com a lei, compete à Câmara Municipal nomear e exonerar o
conselho de administração dos serviços municipalizados e das empresas
públicas municipais, uma competência que não é delegável no presidente, tal
como Carmona Rodrigues pretendia. O PSD insiste que as nomeações são
válidas em termos jurídicos, colocando a questão do ponto de vista das suas
implicações políticas, mas recusa suspender os administradores.
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