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10/05/2007 Novas oportunidades? José Soeiro A recente campanha das “novas oportunidades” promovida Governo é de uma enorme ironia. Mas é mais do que isso: ela exprime uma ideologia da formação que acentua a desvalorização de certas funções e que subordina a educação ao mercado; assenta numa profecia relativamente às qualificações que é desmentida pela realidade; e constitui um verdadeiro mecanismo de dissimulação do problema mais grave com que o país se defronta, que é a ausência de emprego e a destruição do trabalho com direitos, nomeadamente para os jovens. Analisemos então com mais detalhe cada uma destas três questões. A desvalorização de certos
ofícios e a divisão social do trabalho, em que umas funções são consideradas
menores do que outras, é o que sustenta a ideia de que ser técnico de uma sala
de cinema é menos digno do que se ser cantor: é esse o significado da foto do
Pedro Abrunhosa no cartaz do Governo. A consequência desta lógica
conhecêmo-la há muito. Ela traduz-se na dualização educativa, uma
espécie de apartheid de classe que opera através da criação de duas
vias com diferentes valorizações sociais: a via profissionalizante, para os
filhos das classes populares, em que se produz mão-de-obra barata destinada
aos segmentos mais instáveis do mercado de trabalho e, no outro pólo, as vias
de prosseguimento de estudos, que desenvolvem competências destinadas a
formar a mão-de-obra dos sectores estáveis e qualificados do mercado. Mas o problema não é só esse:
é que se pensarmos a relação entre o sistema formativo e o sistema produtivo
partindo do pressuposto de que o primeiro é a antecâmara que prepara os
indivíduos para o segundo, não só estamos a subordinar a educação às lógicas
do mercado, como evitamos reflectir criticamente sobre a própria organização
do mundo do trabalho. E isto leva-nos ao segundo ponto. A ideologia da formação
profissional não passa de uma profecia. O sociólogo Machado Pais, num livro
premiado sobre as trajectórias profissionais dos jovens, desmonta muito bem o
discurso que faz da formação profissional a solução para o problema do
desemprego juvenil, mostrando que a ideia de que este problema derivaria da
inadequação das qualificações escolares em relação às necessidades do mercado
de trabalho é apenas uma crença. Comparando jovens com e sem formação
profissional, os dados concretos mostram que esta não é afinal determinante
na ocorrência do desemprego, uma vez que «a probabilidade de um desempregado
ficar desempregado após a frequência de uma formação profissional é elevada»,
sendo portanto «ridículos» os ganhos que a formação profissional proporciona
ao nível do combate ao desemprego (Machado Pais, 2001, pp.51-60). Porquê?
Porque o verdadeiro problema está noutro lado: no continuismo das políticas
económicas liberais que vêm sendo aplicadas. De facto, os problemas de inserção
no mercado de trabalho não derivam da inadequação dos sistemas educativo e
formativo ao sistema produtivo, mas da falta de empregos, da existência de um
sistema produtivo que necessita de taxas de desemprego estrutural para manter
determinadas taxas de lucro e de exploração da mão‑de‑obra,
através, nomeadamente, da existência do “exército de reserva” de que falava
Marx. Mais ainda: os actuais modos de organização do trabalho são muitas
vezes causadores de verdadeiras regressões culturais, desvalorizando‑se
no mundo do trabalho competências e práticas de autonomia e expressividade
que, apesar de tudo, vão tendo lugar no mundo da escola. O problema crucial
não é, portanto, como “adaptar o ensino ao mercado de trabalho”, mas o
contrário, isto é, como combater uma estrutura de relações de produção que
bloqueia as forças potencialmente produtivas geradas no sistema de ensino e
como criar postos de trabalho que absorvam as qualificações produzidas. E
isto mesmo nos conduz à terceira questão. A elevação do nível de
qualificações não passa de uma pseudo-solução para o problema do desemprego,
pois ela consiste, na feliz expressão do francês Robert Castel, «mais do que
numa redução do desemprego, numa elevação do nível de qualificações dos
desempregados». Ou seja, quando as políticas de combate ao desemprego são
substituídas por políticas de formação, não só não se ataca o problema
principal como se cria um eficaz mecanismo de mistificação da realidade,
individualizando-se um problema que é social: “se és desempregado é porque
tens défices de qualificação”. Os efeitos ideológicos são evidentes. Uma advertência final,
contudo: a consciência sobre esta mistificação não pretende ocultar que as
baixas qualificações são um factor de vulnerabilização dos jovens perante o
mercado de trabalho, nem abandonar o propósito democrático de tornar
acessível o saber a toda a gente. De facto, não é desqualificando a formação
que se qualifica o trabalho, antes pelo contrário. Mas a análise que se fez
permite recolocar a questão do emprego no terreno a que pertence. Na realidade, uma campanha
como esta vinda de um Governo que dificulta o acesso ao ensino, estrangula
financeiramente as instituições do ensino superior e que generaliza a
condição precária para os jovens (a disseminação dos falsos recibos verdes
passados pelo próprio Estado, inclusive nos Centros de Reconhecimento,
Validação e Certificação de Competências, é apenas um exemplo), é mais que
irónica. É, para mim, insultuosa. |