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12/03/2007 Partido Socialista: mais uma vez do lado errado João Semedo O Partido Socialista votou sozinho contra um projecto de lei apresentado pelo BE, na última quinta feira, no Parlamento. O voto do PS chumbou a possibilidade das farmácias dos hospitais do SNS dispensarem medicamentos aos doentes da consulta externa e das urgências. A bancada do PS rejeitou uma
solução mais cómoda para o cidadão e mais económica para o seu bolso e para
as contas públicas. Os deputados do PS, sem argumentos e sem vergonha – apesar
de alguns estarem visivelmente contrariados e incomodados –, optaram por não
contrariar a vontade de Correia de Campos e assinaram por baixo o acordo que
este estabeleceu com a Associação Nacional de Farmácias (ANF) que, entre
outros aspectos, permite a instalação de farmácias privadas nos hospitais
públicos. Os socialistas trocaram o interesse público pelo benefício privado. O projecto do BE era muito
simples, recolhia o apoio dos farmacêuticos e pretendia aproveitar as
potencialidades das farmácias dos hospitais do SNS, quer em equipamentos e
processos tecnologicamente avançados quer em recursos humanos altamente
preparados e diferenciados. Os hospitais públicos
distribuem diariamente enormes quantidades de medicamentos aos doentes
internados, prescritos por substância activa (genéricos) e pelo sistema de
uni-dose – prática ausente e desconhecida das farmácias de rua. Não há
nenhuma razão compreensível nem aceitável para os hospitais públicos
continuarem a estar impedidos de dispensar medicamentos aos doentes que
frequentam as suas consultas externas ou são assistidos nas respectivas
urgências. Seria muito mais cómodo para
os doentes, que evitariam mais deslocações para adquirirem os medicamentos
prescritos. Ficaria muito mais barato para o Estado e para o cidadão porque,
por um lado, os hospitais compram grandes quantidades, o que baixa o preço de
aquisição, e por outro, os medicamentos receitados são genéricos que, como se
sabe, são muito mais baratos. Acresce a estas evidentes vantagens, uma outra:
sendo a prescrição por uni-dose, o doente só compraria a quantidade
necessária e suficiente ao seu tratamento, acabando assim o desperdício
actual. Um duplo desperdício: em medicamentos e em euros. Muitos euros. Um comprimido de omeprazol
(usado para o tratamento de patologias do estômago) custa aos hospitais do
SNS treze cêntimos. O genérico mais barato do mesmo comprimido, comprado numa
qualquer farmácia, fica por um euro e sete cêntimos. Isto é, mesmo o genérico
mais barato à venda nas farmácias é oito vezes mais caro que o valor pago
pelo hospital na sua compra. Repito: oito vezes! Às vantagens referidas,
soma-se ainda uma outra: este sistema permitiria gerar uma receita adicional
para os hospitais do Estado, seguramente de muitos milhões de euros, valor
que podia equilibrar as suas contas e permitir investimentos tão necessários
ao SNS. As farmácias privadas que o
governo vai instalar nos hospitais públicos vão manter tudo na mesma, sem
qualquer benefício para os utentes, para o SNS, para as contas públicas. Tudo continuará na mesma: as
mesmas receitas, as mesmas marcas, as mesmas embalagens, o mesmo desperdício,
o mesmo preço, o mesmo descontrolo da despesa. Nada mudará. O voto do PS, contra a
dispensa de medicamentos nos hospitais do SNS, é completamente indefensável.
Mas tem uma explicação: o governo pretende entregar este meganegócio aos
farmacêuticos da ANF, abrindo-lhes o caminho para em breve tomarem de assalto
a exploração e gestão dos serviços farmacêuticos dos hospitais públicos. Em vez de proteger os
cidadãos e poupar na despesa pública, o PS - o seu governo e os seus
deputados -, opta por proteger os interesses e os negócios da poderosa ANF. O
PS, mais uma vez, escolheu o lado errado. |