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16/02/2007 Voos da CIA – Requerimento apresentado ao Ministro dos Negócios Estrangeiros – Fernando Rosas Depois de, no passado dia 25
de Janeiro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros ter anunciado que as investigações
sobre os voos da CIA tinham sido encerradas por ausência de indícios que justificassem
a continuação dos trabalhos, o Parlamento Europeu votou, por larga maioria, o
relatório que denuncia a utilização de Portugal e de outros países da União
Europeia pela CIA para transportar suspeitos de terrorismo. Depois das
declarações do ministro Luís Amado, o Procurador Geral da República decidiu abrir
uma investigação sobre o mesmo tema. O relatório do Parlamento Europeu, em
contradição com a decisão do Governo português, exortou mesmo Portugal a
investigar possíveis casos de detidos transportados ilegalmente pela CIA através
de território português e saudou a abertura de uma investigação criminal
sobre o assunto. Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais em vigor, venho por este meio solicitar os seguintes esclarecimentos junto de V.ª Ex.ª; 1. Têm as autoridades portuguesas
conhecimento de que algum cidadão português tenha sido preso, interrogado ou
torturado por serviços estrangeiros, em Portugal ou no estrangeiro, após o 11
de Setembro de 2001, por suspeitas de terrorismo? 2. Podem as autoridades portuguesas garantir que nenhum estrangeiro, residente ou de passagem por Portugal, foi preso, interrogado e entregue a serviços estrangeiros, designadamente americanos, por suspeitas de terrorismo? 3. Têm as autoridades portuguesas
(designadamente a DG Alfândegas) conhecimento de que algum avião civil
privado norte‑americano tenha mudado de matrícula enquanto estacionado
no aeroporto do Porto, como no mês passado ocorreu em Faro com um avião que
transportava o ex-Vice Presidente da RD Congo Jean‑Pierre Bemba? 4. Pode o MNE informar quem
eram os passageiros e tripulantes do avião norte-americano de matrícula N227SV
que estacionou em Cascais, a 15 e 16 de Maio de 2005, e que vinham para contactos
no Ministério da Defesa, segundo assinalado pelo handler, nos
documentos entregues pelo MNE à AR em 18 de Outubro de 2007? Pode o MNE
informar quem vieram essas pessoas encontrar no Ministério da Defesa e para
que fim? 5. Pode o MNE informar quem eram os passageiros e tripulantes dos voos dos aviões N829MG e N379P, quando regressavam de Amã e Rabat, onde haviam efectuado as “entregas” do canadiano Maher Arar e do italiano Abou Elkassim Britel, nas escalas que fizeram nos aeroportos de Santa Maria e do Porto de 9 a 10 de Outubro de 2002 e de 25 a 26 de Maio de 2002, respectivamente, neste último caso tendo sido controlados pelo SEF e pernoitado em hotel no Porto? 6. Tinha o MNE conhecimento da lista da NAV de voos de/para Guantánamo, autorizados a passar por espaço aéreo e a escalar aeroportos portugueses entre 11 de Janeiro de 2002 e 24 de Junho de 2006, antes da eurodeputada Ana Gomes lha fazer chegar e ao PE? 7. Quando é que o MNE teve conhecimento dessa lista, que foi pedida pelo INAC à NAV no início de Setembro de 2006, para responder a solicitação da Secretaria de Estado das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, por sua vez destinada a satisfazer pedidos de Ana Gomes? 8. Porque é que essa lista não foi entregue pelo MNE à AR a 18 de Outubro de 2006, quando entregou outras listas ao mesmo tempo elaboradas pela NAV? 9. Continua o MNE a insistir
na tese de que os voos americanos que passaram por Portugal a caminho de
Guantánamo «não têm nada de anormal», por serem feitos no âmbito da Operação Enduring
Freedom? 10. Está consciente de que é o primeiro e único (e provavelmente, último) MNE europeu a considerar que voos para Guantánamo não têm «nada de anormal»? 11. Insiste o MNE em apresentar a Operação Enduring Freedom no Afeganistão como uma operação «sob a égide da NATO e da ONU» e os voos autorizados Portugal para Guantánamo como «ao serviço da ONU», quando esta operação, apesar de se coordenar com a missão da NATO naquele país (designada ISAF) e apesar de ter mandato das Nações Unidas, não passa de uma operação de contra‑insurgência dos EUA (e alguns poucos aliados), distinta e autónoma em relação àquelas duas instituições multilaterais? Não estará o MNE a induzir em erro a opinião pública ao querer legitimar uma decisão (isto é, conceder uma autorização genérica de aterragem/sobrevoo à Operação Enduring Freedom) tomada ao nível bilateral (Portugal‑EUA), mascarando‑a de leal cooperação em quadros multilaterais, como a NATO e a ONU, em que Portugal actua no Afeganistão? 12. Se era normal a aprovação
de voos para Guantánamo no quadro da operação Enduring Freedom para o Afeganistão,
porque é que o anterior MNE, Professor Freitas do Amaral, não o disse na AR,
em 13 de Dezembro de 2005, quando especificou os casos de “blanket
diplomatic clearance” concedidos por Portugal a voos militares e civis
americanos, incluindo os envolvidos nas operações Iraque e Afeganistão? 13. Se era normal aprovar voos para Guantánamo porque é que o actual MNE nunca veio explicar à Assembleia da República ou ao Parlamento Europeu que o apoio português à operação Enduring Freedom, no Afeganistão, incluía autorizar voos para Guantánamo, só o fazendo após a eurodeputada Ana Gomes revelar a existência da lista de voos autorizados para aquele destino? 14. Se era normal aprovar voos para Guantánamo, porque razão o MNE nunca respondeu aos repetidos pedidos da eurodeputada Ana Gomes para o Parlamento Europeu ser habilitado com a lista de voos de/para Guantánamo? 15. Como explica o MNE o facto de só ter mencionado a Operação Enduring Freedom como justificação para a passagem de voos para Guantánamo por aeroportos portugueses (numa carta de 12 de Janeiro de 2007 dirigida ao deputado europeu Carlos Coelho) depois da eurodeputada Ana Gomes, a 8 de Janeiro de 2006, ter informado a Comissão do PE de que obtivera essa informação de fontes militares? 16. No dia 24 de Janeiro de
2007, o MNE afirmou que «na data em que os voos se realizaram, Guantánamo era
uma base militar. Hoje sabemos que é também um centro de detenção, que
deve ser encerrado o mais depressa». Quando, exactamente, é que o Ministro
descobriu que Guantánamo era também um centro de detenção, e quais foram as
consequências dessa descoberta para a concessão de autorizações genéricas de
sobrevoo/aterragem aos EUA? 17. Continua o MNE a autorizar hoje voos para Guantánamo? 18. Qual foi a última vez em que o Ministro levantou a questão de Guantánamo, e a necessidade de se encerrar aquele centro de detenção ilegal, nas suas interacções com responsáveis americanos? 19. Não inquieta o MNE que documentos oficiais das autoridades militares americanas (publicados na Visão a 11 de Janeiro de 2007), entregues à Comissão Temporária do Parlamento Europeu pelos advogados americanos dos 6 argelinos detidos em Guantánamo (mais conhecidos por “Bosnian 6”), apontem para uma série de voos para transporte de prisioneiros entre Incirlik (Turquia) e Guantánamo, em Janeiro e Fevereiro de 2002, que correspondem à série de voos constantes da lista da NAV em direcção àquele destino? Não incomoda o MNE que a descrição das condições de transporte daqueles prisioneiros, segundo os referidos documentos oficiais americanos, revele que eles vinham «algemados, acorrentados e de olhos e bocas vendados»? 20. Pediu o MNE, entretanto,
esclarecimentos às autoridades americanas sobre se transportavam prisioneiros
os voos militares constantes da lista de voos de/para Guantánamo elaborada
pela NAV e entregue ao PE? 21. Pediu o MNE
esclarecimentos em especial sobre o conteúdo dos 7 aviões que escalaram as
Lajes e que o MNE confirmou terem sido autorizados no quadro da operação
Enduring Freedom? Se não, porque não? Não são esclarecimentos relevantes para
o Governo português? 22. Porque é que o Governo
não autorizou os Directores do SIRP e do SIS a serem ouvidos pela delegação
do Parlamento Europeu que se deslocou a Lisboa, no dia 6 de Dezembro de 2006,
conforme esta havia solicitado, à semelhança do ocorrido com responsáveis de
Serviços de Informação de outros países (Itália e Roménia, designadamente)? 23. Porque é que o MNE
impediu o SEF de fornecer à delegação do PE as listas de passageiros e
tripulação que o SEF tinha reconstituído junto de handlers e hotéis de
forma a poder fornecê‑las à Delegação do PE que se deslocou a Lisboa a
6 de Dezembro de 2006? 24. Defende o MNE os mesmos
critérios restritivos decorrentes da protecção de dados no que respeita à
cedência às autoridades americanas das listas de passageiros de aviões
portugueses civis, comerciais ou privados? 25. Porque razão o Ministério
da Defesa, num documento anexo à carta enviada ao PE pelo Prof. Freitas do
Amaral a 26 de Junho de 2006, indica que não tinha registos de voos civis ou
militares de/para Guantánamo? Como não, se a Força Aérea tem elementos
destacados seus na NAV, sendo que para obter tais registos bastava pedi-los à
NAV? 26. Sustenta o MNE que a
Força Aérea Portuguesa não controla ou nem sequer tem registos de aviões
militares estrangeiros que passam na sua Base Aérea n.º 4, nas Lajes? 27. Foi aprovado pelo MNE, ouvido
o Ministério da Defesa, o sobrevoo do espaço aéreo português pelo avião
militar saudita que no dia 24 de Junho de 2006 voou entre Guantánamo e Casablanca
e consta da lista da NAV? Qual a justificação política para se aprovar um tal
voo? 28. Como se justificam as
aprovações de voos militares do Kuwait com destino ou origem a Guantánamo,
passando através do espaço aéreo português, como os referenciados na lista da
NAV? 29. Podem o MNE e o actual
Governo do PS pôr as mãos no fogo pelo que, nesta matéria fizeram ou não
fizeram os anteriores Governos do PSD/PP que integravam o Dr. Paulo Portas? 30. Porque tem o MNE Luis
Amado a tratar deste assunto no seu Gabinete um adjunto – Dr. Paulo Lourenço –
que transitou do Gabinete do ex-Ministro Paulo Portas na Defesa para o
Gabinete do Ministro da Defesa Luís Amado e, seguidamente, o acompanhou no
trânsito para o MNE? |