Informação Alternativa

Portugal

30/01 a 08/02/2007

 

Gravidez & Aborto: Histórias da Santa Madre

 

César Príncipe *

Resistir.info [1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10]

 

1. RECORDAR A MULHER EM 11 DE FEVEREIRO

 

No dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, também se assinala o dia nacional da mulher. Dia interdito a comemorações quando por aqui vigorava, na máxima força, o macho latino e lusitano, nas ciências zoológicas classificável equídeo salazarense. A mulher beneficiou tanto ou mais com o 25 de Abril do que a classe operária e os assalariados rurais, do que qualquer dos protagonistas das revoluções igualitárias. A repressão sobre as mulheres, exercendo-se a nível político, acentuava-se também a nível da família, das convenções, do ensino, da religião, do emprego. O analfabetismo grassava e fazia parte de uma estratégia calculada, concertada ou espontânea mas que concorria para os mesmos objectivos e resultados: refrear a mulher, fonte do pecado original e animal doméstico por excelência. E o analfabetismo de múltiplos aproveitamentos assumia uma proporção mais massiva entre as mulheres. Eram, de um modo mais cerrado, desincentivadas de estudar, o que agravava o seu concurso e o seu desempenho no espectro das limitações e das oportunidades colectivas.

 

Paula Rego, 1998

 

Mas o racismo uterino alastrava a múltiplos campos, desde logo, o da cidadania. Mesmo no quadro de um recenseamento expurgado e de fraude eleitoral, votar era privilégio de um gineceu cívico: o das proprietárias e licenciadas, então um pequeno estrato de portuguesas. Acrescia que as mulheres quase não ocupavam funções públicas, muito menos na esfera de representação do Estado. Por outro lado, não lhes concediam passaporte e só viajavam com autorização do consorte. Também eram vedadas ao género feminino certas ocupações ou restringidas a casos singulares nos mais diversos âmbitos: governo, autarquias locais, magistraturas, forças de segurança, doutoramentos. Mulher de fábrica e de escritório tornaram-se modelos de promiscuidade e condição de estigma. As telefonistas e as enfermeiras foram tolhidas nas opções de casamento. Eram consideradas mulheres de risco. As professoras primárias eram empurradas para o nó com serventuários da máquina do Estado ou varões de fazenda.

 

Houve mesmo censuras sociais hoje da esfera do inconcebível: entrar num café denunciava um passo para a perdição. Sair à noite indiciava dormir com todos os conhecidos e desconhecidos. Pintar-se constituía sinal de conduta equívoca, próprio de mulheres de teatro. Usar calças ou fumar representava uma atitude subversiva. Expor mais uns centímetros de pele na praia poderia tirar a compostura ao País da Imaculada. Que imaculadas haveriam de apresentar-se ou aparentar-se as noivas, para o efeito amarradas até ao fim dos seus dias e arreadas com vestidos alvos e flores de laranjeira, já que Estado & Igreja haviam concordatado a interdição de divórcio. Depois, dentro do espírito dos altos valores da Nação, a membrana da Pureza tornou-se, na Política de Espírito do Estado Novo, uma instituição tão estimável e venerável como a Igreja, as Forças Armadas e o Dote.

 

A União Conjugal e a União Nacional completavam-se e emblematizavam-se na Trilogia Fascista: Deus, Pátria e Família. Em caso de adultério ou da mínima tentação da carne, do peixe ou da fruta, o marido passava por viril e a esposa por vil. Discriminação com fundas raízes. Até no seio da Nobreza as mulheres foram as últimas na linha dos títulos e as primeiras a ser deserdadas ou clausuradas em conventos e hospícios.

 

Mesmo na esfera eclesial, a mulher, laica ou membro de ordens monásticas, continua a desempenhar um papel secundário ou servil. Até nas insígnias mais elementares é patente a segregação e o ferrete: a freira usa aliança de comprometida, de noiva do Senhor, enquanto o padre ou o frade não usam anel de esponsal místico, sentindo­‑se solteirões livres, garanhões de Deus, dispensados de contrato virginal. Quanto à evolução geral dos costumes, foi fazendo caminho e evidenciando conquistas reais e formais mas os tutores e opressores não debandaram de vez. Buscam e buscarão sempre recuperar posições de domínio e predomínio.

 

A humilhação (pessoal, familiar, social, religiosa e jurídica) é uma das armas do machismo corrente e institucional. E muitas mulheres colaboram na sua degradação biológica, psicológica e afectiva sempre que se deixam enlear pelos argumentos do agente dominador e humilhador. Fenómeno de submissão e perversão que, à escala de outras culturas ou inculturas, por exemplo, as que praticam a excisão do clítoris (estimam-se em 150 milhões as mutiladas), se traduz no facto de serem mulheres a executar a norma incapacitante e seviciadora no interesse do egoísmo masculino e da ordem naturalizada.

 

Esperemos que, no próximo dia 8 de Março, o Dia Inter(nacional) da Mulher conte com mais um avanço civilizacional: A vitória do Sim no referendo de 11 de Fevereiro. Na realidade, pouco significado alcançarão as celebrações na boca de determinadas entidades e personalidades se a actual lei se mantiver, lei que protege o aborto clandestino e a fuga aos impostos, lei que mata dezenas de mulheres por ano, lei que ameaça as mulheres com prisão até três anos se não tiverem posses para uma escapadela a Espanha ou a uma clínica portuguesa segura e confidencial. Em Portugal, como é da sabedoria adquirida, à maneira dos estabelecimentos hoteleiros, também, no aborto, as opções marcam a condição económico-social das clientelas: há hospedarias de viela para as mulheres desafortunadas e hotéis de cinco estrelas para as senhoras de cartão dourado. Não querer ver também esta fronteira de estatuto só pode revelar uma imensa distracção ou uma rude hipocrisia.

 

Os distraídos ainda estão a tempo de se aperceberem do que está em jogo: deixar de criminalizar a IVG até às dez semanas e permitir o acesso a cuidados médicos especializados e legalizados às mulheres que optem por esse último recurso. Quanto aos hipócritas, não vale a pena perder tempo: é a profissão deles.

 

2. EURO-INTERRUPÇÃO

 

O país já alguma coisa saberá como irá o processo de euro-integração. E como iremos de euro-interrupção? Por exclusão de partes, neste ponto reflexivo, não nos centraremos em razões médico-psíquicas, riscos de saúde e vida da mulher, malformação do feto, violação e outros crimes sexuais. A nossa legislação já aceita alguns destes motivos, impondo uma barreira entre as doze e as vinte e quatro semanas. Embora mantenha demarcações temporais médias dentro dos meridianos europeus, também aqui subsiste um imperativo de poder: o consentimento dos pais para menores, mesmo em caso de risco da saúde e vida para a mulher, risco de saúde e de vida que também só pode ser legalmente prevenido na gravidez até doze semanas. Um arbítrio, por certo, eliminável numa próxima humanização legislativa. Uma democracia não deve consentir uma tirania paternal, que encubra o risco de aplicação da pena de morte. Faltará mesmo suscitar a inconstitucionalidade desta norma, cuja persistência nos remete para períodos bárbaros. Será outro combate das forças da tolerância.

 

Foquemos, pois, o panorama da euro-interrupção. Ei-lo, como amostragem: a pedido da mulher, até doze semanas, a interrupção é livre na Alemanha, na Bélgica, na Dinamarca, na Espanha, na Grécia, no Luxemburgo. Por razões económicas e sociais, até doze e vinte e quatro semanas, respectivamente, a interrupção é livre na Itália e na Grã-Bretanha. Por situação intolerável para a mulher, até vinte e quatro semanas, a interrupção é livre na Holanda, onde, já em 1971, foi aprovada uma lei do teor da que, no dia 11, será referendada entre nós. O membro mais irredutivelmente viril da Europa dos Quinze que, até agora, não tem legalmente permitido qualquer tipo de IVG, esteja em causa a vida ou a morte do feto ou da geradora, é a Irlanda, onde uma cerveja ou um uísque valem mais do que o direito a uma infância feliz e uma maternidade responsável. Com os alargamentos da Europa dos Vinte e Cinco, o clube dos fanáticos soma mais dois países-párias: Polónia (onde, não obstante, se permite ao IVG por razões de saúde ) e Malta, ilha-base de cruzadas contra o Islão e os árabes do Médio­‑Oriente, sob as esporas e os estandartes dos cavaleiros de S. João de Jerusalém/Ordem dos Hospitalários.

 

Poster soviético de 1925. Texto no topo: «Os abortos realizados por parteiras formadas

ou autodidactas, não só mutilam, também levam à morte». Legendas: imagem superior

esquerda: «Visita à parteira autodidacta»; imagem superior direita: «Consequências

do aborto»; imagem inferior: «Morte por aborto». Texto no canto inferior esquerdo:

«Qualquer aborto é prejudicial». Texto no canto inferior direito: «Qualquer parteira

formada ou autodidacta que realize um aborto está a cometer um crime».

A União Soviética foi o primeiro país do mundo a legalizar o aborto, em 1920.

Fonte: U.S. National Library of Medicine

 

Numa vista mais lata pelo mapa europeu (44 países), o Bando dos Quatro emerge como o mais obstinado ou renitente nas coisas da concepção ou da sua interrupção.

 

Portugal jaz entre ao mais recuados na matéria. Tratemos, pois, em 11 de Fevereiro, também por imperativos de convergência cultural, de nos aproximar da Europa das Mulheres, a quem, durante séculos e séculos, a Igreja negou o direito de ter alma (só se resignou a admiti-lo, sob o ponto de vista das proclamações formais, no séc. XIX), e a quem, ainda agora, nega o direito à consciência quando confrontada com os seus limites. Para os banqueiros, chegará a moeda como projecto de civilização; para o comum dos cidadãos, há outros valores a equacionar, a defender e a reivindicar.

 

Pelos elementos em presença, Portugal acha-se, pois, na só na periferia geográfica da Europa, integrando-se no Bando dos Quatro, em matéria de consideração pelos valores da família, da criança e da mulher. Pretende­‑se, pois, no próximo dia 11, introduzir um grau superior de compreensão da condição humana, grau que a generalidade das nações evoluídas já consagrou. Na prática, também os portugueses há muitos anos se pronunciaram pelo Sim à despenalização. Houve um referendo silencioso. Ninguém condena ninguém. Há que rematar o labor do juízo Social com a despenalização teórica, indispensável para fechar o círculo da maldição.

 

Mas é inadiável encerrar este capítulo negro da nossa democracia. E não é difícil: basta que não abdiquemos de ser racionais, justos e solidários. Em quadra de salve-se quem puder, a pedagogia é árdua mas recompensadora: não devemos desistir de ser humanos.

 

3. A RODA ININTERRUPTA

 

As datas mais consentâneas para referendar a problemática do aborto seriam o 13 e o 28 de Maio. O 13, porque sendo o Dia da Virgem, carrega toda a carga edificante para remissão da mulher portuguesa (atleta de alta competição europeia em abortos clandestinos e maternidades na adolescência); no 28, porque sendo o Dia do Aborto da Democracia, carrega toda a carga vexatória suportada pela mulher portuguesa. São duas efemérides de eleição da Direita Canónica, cuja virilidade preenche os calendários e os anais da História.

 

Entretanto, que fazer? Não serão as leis nem os sermões que impedirão o trabalhinho de clínica apetrechada ou de vão de escada. As leis apenas impelirão as grávidas para as habilidosas ou darão cobertura sanitária às situações de facto. Em Portugal, tende-se a mascarar o aborto, fingindo-se que se proíbe. Apenas se proíbe, como já referimos, a devida assistência aos ignorantes e aos desamparados. Seria mesmo interessante que certa Imprensa da especialidade averiguasse se figuras que se manifestam contra a legislação despenalizante alguma vez, no seio familiar ou extraconjugal, interromperam voluntariamente a marcha embrionária e fetal. Seria uma investigação paradigmática para ajudar a reabilitar a nossa democracia, minada pelas artes de furtar e do embuste.

 

Referendar a lei das dez semanas? Que remédio: assim o impuseram. Mas por que não referendar o flagelo da droga, lento e lesto assassino de centenas de milhares de portugueses? Por que não plebiscitar as reformas antecipadas de titulares de cargos públicos e as indemnizações aos gestores de turno? Por que não consultaram o povo sobre a interrupção involuntária do emprego, das maternidades e das urgências hospitalares? Por que não consultaram o povo sobre as privatizações, o preço das habitações ou dos automóveis? Porque não consultaram o povo para o país aderir à NATO e à UE?

 

O povo só é consultado para que se pronuncie a favor dos seus adversários ou para evitar embaraços ao Bloco Central de Interesses.

 

Não é por acaso que, no universo partidário, os adversários da despenalização do aborto são, na generalidade, adeptos da penalização das regiões. É o poder discricionário do Estado e de uma casta social sobre os úteros e sobre as terras. Não contente por dominar bancos, hipermercados, fábricas e campos, televisões e fundos europeus, a Direita ainda quer controlar as trompas de falópio.

 

Uma questão científica se começa, entretanto, a adensar: a pílula abortiva. E depois? Referenda-se a pílula?

 

Roda dos Expostos do Mosteiro de Santa Eufémia de Ferreira de Aves.

As mães e pais colocavam o seu filho nesta abertura e giravam, e, do outro lado, a

instituição recolhia a criança, preservando assim o sigilo sobre a identidade dos pais.

 

Uma recomendação se o Sim contra a despenalização não vencer nesta campanha contra a Idade Média no séc. XXI: enquanto a miraculosa pílula não sofisticar os arsenais da clandestinidade, o remédio será depositar os filhos indesejados ou mongolóides na Roda da Maternidade Ininterrupta, uma Roda pós-moderna, talvez tipo Caixa Multibanco ou máquina de tabaco ou de bebidas e talvez nas imediações da residência de Marcelo Rebelo de Sousa ou do paço do bispo de Vila Real. Acolhendo, com toda a solicitude, os desvalidos (diz-se que mais de vinte, trinta ou quarenta mil por ano em Portugal), a que se juntarão entre 9.000 a 10.000 que, neste momento, são aliviados em Espanha, estes depositários genéticos da Raça albergarão um potencial demográfico capaz de fornecer toda a mão-de-obra à OTA, ao TGV e às guerras que os USA/NATO empreendam pelas terras de Maomé.

 

Que reforço de militância da Jihad Sexual Portuguesa!

 

Imaginação ao Poder!

 

4. A FILHA DO ARCEBISPO

 

Os eleitores vão ser chamados às urnas para referendar a lei que se propõe despenalizar a IVG até dez semanas. Não se trata de dizer Sim ao aborto, mas dizer Sim à mudança parcial de uma lei, sujeita a referendo. A lei vigente considera um crime a prática de IVG, contemplando algumas excepções que não cobrem os motivos que levam dezenas de mulheres a recorrerem anualmente à decisão da IVG. A lei em vigor redunda numa disposição de terrorismo penal, como se já não bastasse o desconforto das mulheres, atiradas pela lei actual para expedientes de acrescido risco. Os adeptos do não à alteração da lei fazem gala em preservar um stock de adamastores para intimidar a incultura nativa.

 

A questão da penalização do aborto só foi introduzida no nosso Direito em 1852, embora seja matéria assente o seu recurso desde épocas imemoriais. A tolerância e a punição nunca foram contínuas nem universais, como, de resto, na história de todos os costumes. O que ontem foi válido ou inválido passa ao diametralmente contrário segundo as bandeiras que o sistema de interesses convida a desfraldar. Na corte de Filipa de Lencastre (1387­‑1415), da Ínclita Geração, uma das aias mais aconchegadas era filha de Martim Afonso da Charneca, arcebispo de Braga. Hoje, Cavaco Silva, no Palácio de Belém, acolheria, entre a nobreza serviçal, hipotéticas filhas bastardas de membros do actual episcopado?

 

Mudam-se os tempos e mudam-se os templos. Mudam-se as vontades e mudam-se as verdades. A vida está repleta de ilustrações de contraditório. Seriam inesgotáveis as reposições de assuntos que foram sagrados e se transformaram em profanos e que foram profanos e se transformaram em sagrados. Um dos tabus: no século XVII, ainda a Igreja proibia a dissecação de cadáveres. Perdeu mais esse conflito com a Ciência. Outro tabu: na ditadura fascista, o cardeal Cerejeira excomungou o progressista Felicidade Alves. Há anos, o cardeal Policarpo casou o ex-padre no Mosteiro dos Jerónimos. Mais outro tabu: a seguir ao 25 de Abril, o Estado legalizou o divórcio e a Igreja assinou a revisão da Concordata.

 

Hoje, a Igreja Católica volta a orquestrar os coros genitais. O que não surpreende: por regra, as Igrejas estão desvinculadas das grandes causas da Humanidade, agarrando-se a certos refrões susceptíveis de Espírito de Cruzada. E as problemáticas do sexo (caso do amor, da reprodução, do preservativo ou da homossexualidade) fazem saltar bispos, clérigos, irmãzinhas e brigadas de beatos na reserva. Nada causa mais alarme, febre e prazer religioso do que um debate sobre o Coito ou um referendo sobre a sua Interrupção. Se a Igreja se preocupasse assim com o Desemprego e a Fome, o Analfabetismo e a Guerra, outra seria a Política, outra seria a Economia, outro seria o respeito pelo Direito e pela Paz. Mas a Igreja quase só reage a estímulos destas partes sagradas.

 

Haja esperança. A Igreja Católica perderá, mais tarde ou mais cedo, a sua guerra dos embriões. A Sociedade acabará por regular este problema de saúde física e de saúde cultural. E os arcebispos, um dia, não muito longe, quem sabe, até voltarão a ter rebentos com direito a ficha no Registo Civil e a valorizar a massa crítica da Universidade Católica.

 

5. O DESMANCHO EPISCOPAL

 

A Igreja está, de novo, na rua a pronunciar-se sobre a interrupção voluntária da gravidez nesta parcela do planeta mergulhada na clandestinidade abortiva e na calamidade fecundativa. Tem toda a legitimidade democrática para se pronunciar como todos terão legitimidade para a contestar. Mas a Igreja Católica Portuguesa, apesar de já forçada a cedências legais e a complacências sociais, continua descompassada de outras Igrejas da Europa, coincidindo, também nesta arritmia, com o fosso que separa o país dos padrões mais modernos da pastoral e do pensamento teológico.

 

Direito à vida? Dos que ainda não foram paridos ou dos que são transformados em párias? E que dirão cardeais, bispos, padres, católicos e católicas anti-interrupção, falangistas do Não e também fumadores, dos riscos do fumo? Estarão a condenar o aborto por via uterina e a favorecer o aborto por via respiratória? Declara a ciência: O tabaco aumenta o risco de abortamento espontâneo, de morte do feto ainda na barriga da mãe e morte precoce logo após o nascimento. A Conferência Episcopal, na sua próxima nota aos pios e aos gentios, deverá exortar todos os seus membros a abster-se de fumar, a começar pelo cardeal-patriarca?

 

Aborto, Gloria Arenas Agis

 

Quer-nos parecer que o aborto será uma das bandeiras que a Igreja deixará cair, como, ao longo dos séculos, abandonou múltiplas sanhas apostólicas. Já em 1998, numa liberalidade discreta, o Vaticano franqueou os arquivos da Santa Inquisição, violação de segredo até agora passível de excomunhão e que, durante séculos, levou cardeais, bispos, padres e outros devassadores às masmorras e à exclusão eclesial.

 

Entretanto, há que aprender com a Igreja a fazer amor sem preservativo nem desmancho. Evitando, claro, os pecados de pedofilia, assaz atractivos e crónicos no seio da Santa Madre.

 

6. O PERIGOSO SÉMEN DO MARQUÊS

 

Todos os dias se interrompe voluntariamente a gravidez sob o olhar desatento das feras judiciais e sob a complacência das esferas sobrenaturais. A questão não assume, porém, foros e desaforos de gravidade e de calamidade só porque com o delito não causa demasiado alarme social. A questão alcança inquietante nível no âmbito da saúde pública, o que também não perturba as entidades que citam exemplos europeus, sempre que convenientes e que recolhem o livrinho das citações do Bom Tsé Tung da UE, vulgo Durão Barroso, sempre que as sentenças não são inspiradas pelos grupos económicos ou pelos agrupamentos espirituais.

 

Por entre as falsas partidas de retoma do debate da IVG, será de situar historicamente esta complexada causa nacional, cujos protagonistas são conhecidos, uns pelo apelo ao realismo e ao humanismo, outros pelo apego a venerandas e coléricas abstracções. Todavia, as grandes abstracções não podem invocar coerência tradicional. Os defensores da tímida liberalização alvo do referendo não passam de anjinhos comparados com o espírito de tolerância da Igreja Católica que, durante séculos, integrou, na sua estratégia de prudente silêncio, o infanticídio e a roda. Os cintos e os votos de castidade jamais conseguiram bloquear os desvarios da Mãe­‑Pátria.

 

Sucede que, na actualidade, a Igreja, afoitamente na vanguarda da oposição à IVG, não logra disfarçar as incongruências científicas e as inconsistências pastorais. Com efeito, sendo adversária da Interrupção Voluntária da Gravidez, mostra-se conformada com a Interrupção Voluntária da Esterilidade. Deixa-se resvalar para o contra-senso: por um lado, avaliza actos correctivos da obra do Criador; por outra parte, consente que a relação de um casal, nimbada por um sacramento indissolúvel e pelo pacto de uma só carne, sofra a intromissão e a fecundação de sémen estranho. Um dador anónimo acaba por violar e promiscuizar o sacro reduto do matrimónio, pondo em xeque, no plano objectivo e, por muito que custe admitir, no plano subjectivo, o solene juramento de fidelidade conjugal e a verdade biológica.

 

Quem garantirá a qualquer bispo de Roma ou bispo de Província que tal esperma não provenha de um herege ou de um violador em série ou de um parente de José Estaline ou do Marquês de Pombal ou do profeta Maomé?

 

A Igreja sempre detestou perguntas. No entanto, faria bem em ponderar os reais e profundos fundamentos que levam a maioria dos chamados católicos a distanciar-se da linha oficial, autonomizando as suas opiniões sempre que não são atendidas as mais íntimas jurisprudências. Os católicos encontraram uma fórmula sacramental para se distanciarem dos furores normativos: eu cá tenho a minha religião.

 

Esperemos que, no referendo da despenalização, os católicos sensatos e informados do drama em causa defendam a saúde pública, a livre consciência da mulher e a decência política e cultural na sociedade portuguesa. É, de facto, necessário o voto dos católicos do séc. XXI para que Portugal vença mais um fantasma na sua lenta e penosa emancipação da Idade das Trevas.

 

7. CHEIAS DE GRAÇA

 

Comecemos por Portugal, terrinha fértil em coisas do etéreo. Reinava D. João V e a Fidelíssima Esposa, Mariana de Áustria, não denunciava prenhez, não tranquilizava os cortesãos. Um rei sem filhos deixa a Nação à mercê de cobiças: uns ovários de rainha valem mais do que milhares de espadas e milhentas cruzes. E quando os canhões d’El-Rei não resolvem as necessidades da rainha, eis que intervém a Ordem Celestial. No caso, a Ordem de S. Francisco, com ênfase para frei António de S. José. O arrábido propôs um negócio ao monarca: o útero real seria tocado pela Anunciação se finalmente se comprometesse a erigir um convento em Mafra.

 

O rei fez votos e Mariana ficou cheia. Deste primeiro parto nasceu Maria Bárbara. Ano após ano, de autêntica rajada, vieram à superfície do solo pátrio mais cinco rebentos. D. João V foi, de facto, oportunamente assessorado por um exímio traficante de influências do séc. XVIII, faltando somente apurar um pormenor que, para a Grande História, pouco contará: se o fransciscano assessorou também a rainha. O certo é que o convento de Mafra redundou no nosso mais majestoso monumento à fertilidade. Que, na altura, não era in vitro, mas in granito. Teve, portanto, Mariana uma princesa que, por consórcio, se alçou a rainha espanhola.

 

Ora, nem queiram saber, o que de Espanha nos vem: nem bom vento nem bom exemplo. Uma bela e prendada senhora de Mogúncia, que aos vinte anos restou viúva por passamento de Seu Nobre Senhor, foi presa de dois milagres: o primeiro, já que engravidou ao pisar uma erva ruim, calcamento testemunhado por uma donzela (ontem, como hoje, há sempre uma virgem a abonar a conduta de uma mais afoita); o segundo, já que a viúva, com a barriga cada vez mais cheia, confessou a um frade, também franciscano, a sua desdita e a sua vergonha. O monge recomendou-lhe que, de imediato, peregrinasse até Compostela, visto que, com tal adianto, só Santiago era tido por competente. Partiu de Mogúncia, navegou no Reno, repousou em Aix-la-Chapelle. Fez escala em Paris.

 

Em Setembro, apeava-se em Compostela e defrontava Santiago em pranto, rogando que reparasse o percalço, o embaraço, aquele incauto pisar da erva em Abril. E a viúva, naquela mesma noite, viu-se aliviada do indesejado inchaço. Regressou a Mogúncia e, de gratidão rendida, levantou ao apóstolo uma igreja em São Goar.

 

Afinal, sempre resta um santo advogado da Interrupção Voluntária da Gravidez. Temos muito que aprender com os caminhos de Santiago.

 

8. OS SETE PECADOS MORTAIS DO “NÃO”

 

«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?»

Pergunta a referendar em 11 de Fevereiro.

 

O arsenal do Não contém a habitual metralha de argumentos, alguns roçando a astúcia sofística, outros nimbados de sentimentalismo misericordioso. No nosso entendimento, merecem ser ordenados e classificados como os Sete Pecados Mortais do Não. Sempre fugindo da pergunta do referendo, pois reconhecem que é objectiva, directa, simples, clara. Sabendo que tudo têm a perder com uma abordagem no plano da legalidade e no plano da realidade, procuram interromper voluntariamente a gravidez dos cérebros. Ao objectivo respondem com o subjectivo. Ao concreto respondem com o abstracto. Ao diálogo respondem com a cólera.

 

CÓDIGO PENAL PORTUGUÊS

 

Livro II, Título I – Dos crimes contra as pessoas

 

Capítulo II – Dos crimes contra a vida intra-uterina

Artigo 140.º

Aborto

 

1. Quem, por qualquer meio e sem consentimento da mulher grávida, a fizer abortar, é punido com pena de prisão de 2 a 8 anos.

 

2. Quem, por qualquer meio e com consentimento da mulher grávida, a fizer abortar, é punido com pena de prisão até 3 anos.

 

3. A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos.

 

Primeiro Pecado: aborto totalmente livre. É uma deturpação da pergunta referendária. Trata-se somente de expurgar da lei (Artigo 140º do Código Penal) a criminalização das mulheres que recorram à IVG nas primeiras dez semanas. Após este período, a lei continua a prever sanção penal. O refrão da liberalização não passa de uma figura de estilo verbal para radicalizar posições, tendências e convicções. Constitui um dos métodos clássicos da chamada propaganda negra.

 

Segundo Pecado: a imagem dos embriões que, por sistema, irrompem nas bandas desenhadas do Não quase sugerem um superman, com dentes para mastigar um cozido à portuguesa ou, pelo menos, apto a empunhar uma bandeira na barriga da mãe. Já na cruzada de 1998 se soube, nos círculos mais atentos, que o alentado candidato a nascituro fora abusivamente reproduzido de um compêndio americano, ocultando-se o estado mais avançado da gestação.

 

Terceiro Pecado: o amorfo vital, pelo especialista Albino Aroso comparado a uma espécie de ovo de galinha ou feijão, tem sido apresentado como um ser humano com personalidade, partindo-se deste pressuposto para tocar nas cordas sensíveis da vítima indefesa, tombada às mãos de carniceiros. Acontece que, para lá do abuso da invocação da ciência, a revisão da lei não vai provocar a interrupção de qualquer personalidade. O aborto existirá altere-se a lei ou não. Trata-se tão só e somente de introduzir uma nova escala de graduação penal e ao mesmo tempo de integrar no espaço visível (da saúde Pública) uma dilacerante situação de facto.

 

Quarto Pecado: os adeptos do Sim defendem o aborto. Acusação delirante: apenas propugnam e não desistem de propugnar pela despenalização da IVG até às dez semanas, advogando condições assistenciais compatíveis com os requisitos do acto e da dignidade da intervencionada. Ninguém, no seu são juízo, defende o aborto por prazer ou como método contraceptivo. Na verdade, cremos que ninguém defende o aborto, excluindo, claro, os industriais e negociantes de carne clandestina. Ficaria bem ao sector político do Não meter a mão na dita consciência. Haveria, se a honestidade ainda for tida em consideração nas suas teses, que tem sido o responsável-mor da desinformação reinante. Milhares de abortos teriam sido evitados se os seus governos em 34 anos de Regime Democrático tivessem sinceramente apostado na educação sexual nas escolas e no meio familiar e simultaneamente no planeamento reprodutivo. Mas não. O sector do Não tem sistematicamente congelado ou boicotado todos os programas. Só recoloca a sua pertinência na Agenda das Preocupações quando surge o debate público ou parlamentar da IVG. Obviamente: para desorientar indecisos e bem­‑intencionados apontando uma falsa e inconvicta alternativa. Falsa, porque nunca a quis implementar nem apoiar e falsa, porque, embora tal política de prevenção continue a ser urgente e imprescindível, não soluciona quanto escapa às malhas pedagógicas e de aconselhamento.

 

Quinto Pecado: a despenalização provocará o aumento de abortos e o caos na rede pública hospitalar, sob o pretexto de que os serviços não se acham preparados para a nova solicitação. Ora, como se comprova pelos dados das autoridades de Saúde da Holanda e da Bélgica, com a despenalização e o estancamento das redes clandestinas e a acção educativa, a taxa abortiva retraiu-se. É possível despenalizar e diminuir a incidência do expediente interruptivo. Ora, as autoridades sanitárias já repetidamente esclareceram: as instituições estatais já atendem cerca de 1.000 casos/ano de utentes com complicações pós-aborto clandestino, pelo que até existe tradição de acompanhamento de interrupções desastradas, estando, entretanto, os responsáveis a estudar dispositivos de acolhimento de acordo com o nível de procura, no quadro de eventual aprovação da lei. Por outro lado, para além dos riscos da integridade reprodutiva da mulher ou mesmo do seu falecimento, um caso mal resolvido ocupa mais meios humanos e de diagnóstico, mais prescrições medicamentosas e maior taxa de utilização de espaços/tempo especializado do que um caso simples de aspiração. Assim, por cada entrada grave, decorrente de aborto clandestino, os serviços poderão ocupar-se de dez casos de interrupção voluntária e legal da gravidez.

 

Sexto Pecado: os custos, os meus impostos. O slogan economicista é uma patética demagógica consumada: tudo, de facto, tem os seus custos, desde o tratamento da SIDA ao tratamento das demais doenças sexualmente transmissíveis; desde o tratamento da toxicodependência à do tabagismo; desde os tratamentos das enfermidades do aparelho digestivo às do foro cardíaco ou mental. Enfim: é preciso estar muito carecido de argumentos para descer a um patamar contabilístico deste perfil. De resto, se alguém quisesse rebater a preocupação fiscal dos inefáveis adeptos da clandestinidade, bastaria salientar que o serviço de IVG se pagará a si próprio ao evitar que 1.000 casos graves pós-aborto clandestino deixem de entrar nas contas da Saúde Pública e ao obrigar as clínicas que assim fogem aos impostos a cumprirem com as suas obrigações. De resto, provindo tal bandeira dos impostos donde vem, só será explicável pela ausência de fundamentos sérios, procurando explorar a animosidade social contra os impostos. Aqui seria oportuno lembrar aos amigos do Orçamento de Estado: enquanto os crentes normais e os cidadãos comuns são, na verdade, massacrados com impostos, as entidades religiosas, agora em campanha, estão isentas de obrigações tributárias e ainda captam centenas de milhões de euros/ano dos nossos impostos para as suas nobres e caritativas actividades.

 

Sétimo Pecado: chamada, em 1998, a prestar um miraculoso contributo à causa do não, a irmã Lúcia, após sentenciar ao caminho mais estreito para o Inferno para quantos interrompessem a gravidez, convidada a recordar-se se, em 1917, a Virgem porventura teria aludido ao aborto, reconfirmou os seus dotes para a ficção: Nesse tempo não havia disso. Todavia, a palavra de Lúcia não conformou os devotos da clandestinidade e, vai daí, editaram e distribuíram, só em Janeiro de 2007, dois milhões de desdobráveis implicando a Virgem de Fátima nos segredos do aborto, pondo lágrimas a rolar nas suas faces e vaticinando, em seu nome, os mais horrendos presságios.

 

Haja fé.

 

9. AS DIETAS DOS CRUZADOS

 

Estamos nos últimos dias de campanha para a despenalização ou não da IVG e os inquisidores caseiros andam de cabeça perdida a pregar e a praguejar contra as mulheres que também usem a cabeça para dar à luz. Já todos mais ou menos sentiram as ondas de choque do tsunami moralista que varre o país desde a Boca do Inferno a Vilar do Paraíso, desde a Ilha de S. Jorge ao Curral das Freiras. Para se sondar donde emanará tanta cólera em nome dos deuses, continuaremos, como nos exercícios espirituais anteriores, a remeter o discurso para comportamentos de sociedades arcaicas ou de figuras da Igreja — condutas provavelmente inspiradoras de actuais anjos apocalípticos e de zeladoras do templo que se vestem de virgens para manter acesos os lampadários.

 

Não recuaremos ao Velho Testamento, era particularmente sacrificial, em que se imolavam crianças e virgens, cordeiros e cabritos em poços, fogueiras e altares para aliviar terrores e remorsos colectivos ou para aplacar a guerra, a peste e as enfermidades ou para provocar a IDN, a Interrupção Divina da Natureza: terramotos, trovoadas, vulcões, ciclones, estiagens, dilúvios, pragas de gafanhotos. Queremos manter uma postura de tolerância e, nesta linha de perdão laico, de reconciliação ecuménica e de paciência evangélica, apenas valorizaremos indicadores a partir do Ano 1000 d. C., dando, para os devidos efeitos, por apagados os registos criminais ou as tentações de profetas e sodomitas. Assim descontaremos dez séculos ao cristianismo como atenuante para a sua espinhosa missão de converter gentios e medicar-se dos pecados originais.

 

Para ilustrar as Histórias da Santa Madre de hoje socorrer-me-ei de uma bíblia gastronómica de minha autoria (Ementas do Paraíso, Campo das Letras, Porto, 2004), livro que vos recomendo para a prática das mais viciosas e virtuosas ciências da mesa e da cama, de acordo com as mais esmeradas tradições papais, episcopais, clericais e monacais:

 

«Ainda no ano 1000 da Era Cristã não se vacilava perante presas da nossa espécie: os prisioneiros e os viajantes não inspiravam grande escrúpulo; as crianças e as virgens eram carne de culto e de consumo. As crianças constituíam o pitéu mais disputado… Eram troféus da Dieta Humana. Na conquista de Antioquia (1098), os cruzados espetavam e grelhavam nas lanças bambinos árabes e turcos. Parodoxal churrasco numa cidade onde, segundo os actos dos Apóstolos (11, 25), pela primeira vez, os discípulos do Divino Mestre foram designados de cristãos.»

 

Dando um salto histórico para a Colonização Portuguesa a Ocidente, vincaremos a condenação de idênticos recursos culinários por parte do padre Manuel da Nóbrega (1517-1570), fundador da Companhia de Jesus no Brasil e fundador da Cidade de S. Paulo. Dos seus testemunhos sobre a melindrosa matéria só restou o título: Tratado contra a Antropofagia & contra os Cristãos Seculares & Eclesiásticos que a Fomentam & Consentem (1559). Não terá sido por desarrumação da secretária que o conteúdo do Tratado se extraviou.

 

Dando um salto histórico para a Colonização Portuguesa a Oriente, citaremos relatos de antropofagia no séc. XX numa das dependências da Civilização Cristã, na II Grande Guerra Mundial, conforme se comprovará no livro Macau-Dor da Guerra e em entrevistas do padre Manuel Teixeira (1912-2003):

 

«Havia fome… Um hotel que comprava crianças, engordava-as, cozinhava-as e oferecia-as aos hóspedes.»

 

Nesta quadra em que se discute uma alteração da Lei Penal, visando conferir à mulher o direito de, por sua livre e consciente opção e com aconselhamento clínico, assumir, em última instância, a IVG em fase embrionária, obrigando-se o Estado a proporcionar condições de dignidade biológica, psicológica e social faz todo o sentido reportar algumas lições da História riscada do ensino escolar: é que pululam, por este país transformado em Hipermercado do Embuste Continente & Ilhas, pregadores de verdades absolutas sobre a vida, esquecendo, por absoluta incompatibilidade com a Cultura ou por comércio do Obscurantismo, que todas as suas baterias retóricas encobrem um volumoso cadastro. Em cada tempo, o fundamentalismo e o relativismo deram e continuam a dar as mãos, polindo os cutelos e avivando as chamas segundo os cânones da Administração da Ignorância ou da moral da época.

 

É absolutamente falso que, em termos religiosos ou legais (mesmo nos regimes democráticos) a vida tinha sido ou ainda seja respeitada como um valor intocável e inalienável. Um exemplo: o Catecismo, aprovado pelo papa João Paulo II, admite a pena de morte. Outro exemplo: o direito a matar é admitido e até exaltado em legítima defesa ou em conflito bélico. Mais um exemplo: o nosso Código Penal já admite a IVG em caso de violação, de perigo de vida da grávida ou de malformação do feto. Sucede que, nas primeiras dez semanas, apenas se interrompe um composto semi-orgânico de três centímetros, isto é, uma das formas mais primárias do ciclo vital. Interpretando-se coerentemente as palavras de um conhecido especialista, Albino Aroso (in Público, 15/01/07), nada autorizará a Moral e a Religião a fixarem os critérios da evidência:

 

«Cientistas de todo o mundo civilizado não reconhecem a existência de vida humana até às dez semanas.»

 

Na realidade, levando-se até ao ovo ou à raiz do problema as especulações do que será e não será vida, teríamos de admitir que o nosso corpo é um campo de batalha, onde se digladiam 600 milhões de microorganismos, a toda a hora disparando as suas armas e fazendo pilhas e pilhas de mortos. Até os milhares de espermatozóides que morrem à Portas do Útero, não conseguindo entrada para o Concerto da Gestação, seriam, nesta pia concepção, vítimas de algum atentado, talvez previdente para muitos agnósticos e ateus, talvez providencial para muitos religiosos. Então, quem determina o holocausto dos regimentos testiculares? Então, quem senta Darwin ou Deus no banco dos réus? Então, quem julga quem?

 

O contraditório e o absurdo prosseguiriam listando-se inúmeros abortos espontâneos ou provocados no seio da Madre Natureza (animal e vegetal). Enfim, qualquer massa cinzenta que estime as metodologias do rigor e as provas dos nove da Vida e da História se dá conta de que muitos falangistas do Não, embora com riqueza de meios para promoverem as suas campanhas, exibem uma grande pobreza de princípios e fins. A campanha do referendo sobre a IVG está a trazer ao de cima o que de mais primário e obtuso se acoita neste Portugal com bastantes séculos de alegada independência do território mas com poucos anos de independência de espírito.

 

Aqui chegados, só desejaríamos (não será pedir um milagre?) que tudo decorra mais decentemente até ao dia 11 de Fevereiro, pois, de outro modo, de furor em fervor, ainda veremos alguns cruzados a clamar pelo regresso a Antioquia enquanto empunham cartazes a favor da vida.

 

10. NOVO PARADIGMA DE NATALIDADE

 

Gostaríamos de lançar, no Pla net da Informação, um concurso de ideias, tendo por objectivo aliviar as dores de parto da Pátria e contribuir para um porvir radioso para mães, pais e filhos. Portugal, como diria Jorge Sampaio, não pode afundar-se em lamúrias e, na minha condição de agitador de águas paradas ou mornas, sinto o apelo do Portugal Profundo para que se perspective a hipótese de um debate, no pós-referendo, para dotar o país de instrumentos de Planeamento Demográfico. Não tem havido vontade política dos governos para proteger a maternidade e a paternidade, bem como os recém-nascidos, as crianças, os adolescentes, os jovens. Urge acabar com os nascimentos sem a devida solicitude da Mãe Pátria que, por regra, abandona os mais carenciados à lei da selva: subsídios miseráveis ou nulos na infância e na idade escolar, assistência médica e medicamentosa crescentemente mais cara e comparticipada, discriminação de grávidas e mães no mercado de trabalho, colocação das mulheres na primeira linha do desemprego colectivo, restrições e perda de direitos a pretexto da modernização das Leis do Trabalho e da Segurança Social.

 

Esperemos que os cruzados do Não apresentem uma iniciativa parlamentar que corresponda à sua ofensiva moralista e pró-ventre tutti-frutti, em consonância com o desvelo do período eleitoral. Imbuído de um salutar gesto de cooperação com as instituições da República e as suas boas almas adiantar-me-ei, aqui e agora, a sugerir a criação, no organigrama governamental, de uma pasta inovadora: Ministério da Segurança Sexual. Acresce que até já existe um ex-ministro com apetência e currículo para o cargo: tem um arzinho de esperto da turma e uma voz de ralhete à Prefeito da Congregação. Entre os mencionáveis feitos, reduziu os direitos da maternidade. Dispõe, pois, de antecedentes para relançar a produtividade uterina lusa. Para além do referido MSS, desde já, se propugna a implementação de uma rede de Lares de Primeira Idade (até aos 35 anos), centros de dia e de noite, vocacionados para acompanhar ou acolher indivíduos do sexo feminino dotados de pedigree. As mulheres à procura do primeiro emprego, as mulheres desempregadas ou as mulheres à procura de melhor emprego (independentemente do seu estado novo ou usado) preencherão o universo do Programa Natal é Quando o Governo Quiser. A meta é hercúlea mas alcançável: assim como o séc. XX foi marcado, em 1917, pelas Aparições da Virgem, o séc. XXI será marcado, em 2007, pelas Parições da Virgem. Está escrito nos astros e depreende­‑se dos púlpitos.

 

Cumprindo mais um dever de cidadania, apresentaremos, neste quadro de pré-discussão pública, dois dos finalistas de Os Grandes Portugueses, modelos do macho latino de elevado potencial. Para não ferir susceptibilidades competitivas, abster-nos-emos de eleger varões no activo. Estamos certos de que, tratando­‑se de egrégias personagens da História Nacional e da História da Santa Madre, concitarão um alargado consenso. De qualquer maneira, não desejamos substituir a livre escolha dos portugueses: os nomes não passam de mera sugestão, cujo mérito maior residirá na ultrapassagem do eterno tabu português, que persiste em manter os assuntos da procriação entre os segredos de Estado.

 

Primeiro Candidato a Modelo de Pai da Nação: prior de Trancoso (séc. XV).

 

O Processo de Candidatura assenta nos autos arquivados na Torre do Tombo/Biblioteca Nacional, armário 5º, maço 7. O documento em depósito é assaz eloquente, dispensando-nos de qualquer esforço promocional deste garanhão transmontano:

 

«Padre Francisco Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta & dois anos, será degredado de suas ordens & arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo & postos os quartos, cabeça & mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido & que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte & nove afilhadas & tendo delas noventa & sete filhas & trinta & sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhos; de nove comadres teve trinta & oito filhos & sete filhas; de sete amas teve vinte & nove filhos & cinco filhas; de duas escravas teve vinte & um filhos & sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas; da própria mãe teve dois filhos; tendo concebido em cinquenta & três mulheres. El-Rei Dom João II lhe perdoou a morte & o mandou pôr em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487 & guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa & mais papéis que formaram o processo.»

 

Segundo Candidato a Modelo de Pai da Nação: rei D. João V (1689-1750).

 

O Processo de Candidatura tem por base narrativas e referências de múltiplas fontes. Nelas se alude às investidas do monarca, que reinou entre guerras e pompas, deixando, à altura do falecimento, os cofres de Estado depauperados, a tal ponto que não comportavam exéquias em conformidade com o seu estilo de vida. O soberano acometia, sem cerimónia, por alcovas profanas e conventuais. Os conventos foram, até finais do séc. XIX, reservas de caça para reis, nobres, burgueses, clérigos e poetas, funcionando como as casas de alterne da actualidade para as clientelas do futebol e industriais da construção civil e suas cronistas de sucesso. Entre as noivas do Senhor que lhe foram servidas, conta-se a madre Paula Teresa da Silva e Almeida (1718­‑1785), do Convento de Odivelas, um motel com primores do paraíso, então nos arredores de Lisboa. O Magnânimo – segundo a má-língua dos salões e das expedições venatórias – era tão religioso que todas as suas amantes eram freiras. Mas, em Odivelas, Sua Alteza Real cativou-se particularmente das prendas de Paula (desde os dezoito anos), apesar dela já ser presa de vários inseminadores do Reynno, a começar por D. Francisco de Portugal e Castro, conde de Vimioso e depois marquês de Valença, que não teve remédio senão ceder ao contrato proposto pelo Magnânimo: Deixa a Paula que eu te darei duas freiras. A prova de distinção traduziu­‑se na montagem de uma suite real no Convento, aparelhada com oratório e espelhos, arcas e bufetes, cortinas bordadas a ouro, santos de ouro maciço em relevos, banheira de prata maciça dourada por dentro e por fora, leito da moda, lencois de olanda mui boa e roupa de cheiro, como se exigia do Culto da Opulência e de um Trono de Amor. A peça mais majestática era uma cómoda-oratório, lacada e dourada, reaparecida em Lisboa, no Ano de 2004, onde foi rematada em leilão por um preço superior a 450.000 € (Leiria e Nascimento, 30/03).

 

 

Madre Paula deu uma ninhada de filhos a João V mas apenas um foi contemplado com a graça de D. José, alçando­‑se a um dos três rebentos naturais ou informalmente reconhecidos pelo pai (José, Gaspar e António), que vieram somar-se a uma série de ilegítimos bastardos (merecendo nome Maria Rita de Bragança, parida por Luísa Clara de Portugal) e aos seis rebentos legitimados: Maria Braga de Bragança (1711-1758), rainha de Espanha, Pedro de Bragança (1712-1714), príncipe do Brasil, José I (1714-1777), rei de Portugal, Carlos de Bragança (1716-1736), Pedro III (1717-1786), rei de Portugal, Alexandre de Bragança (1723-1728). Os classificados de naturais vieram a ser cognominados meninos de Palhavã, pois foram recolhidos, aleitados e mimados pelos marqueses do Louriçal e suas amas, que ofereceram os préstimos de alcoviteiros no seu palácio (edifício onde actualmente se acha a Embaixada de Espanha), então postado nos subúrbios de Lisboa. Os meninos de Palhavã viriam a ocupar funções proeminentes na máquina de Estado e na máquina da Igreja: D. José de Bragança (1720-1801) doutorou-se em Teologia e alcandorou-se a Inquisidor-Mor; D. Gaspar de Bragança (1716-1789), filho da freirinha Madalena Máxima, sagrou-se Arcebispo de Braga; D. António de Bragança (1714-1800), filho de freira francesa incógnita, doutorou-se em Teologia e elevou-se a Cavaleiro da Ordem de Cristo. D. José e D. António rebelaram-se contra a política iluminista do Marquês de Pombal, que os desterrou para os bons ares do Buçaco (1760). O exílio verde só terminou com a partida para o Além de D. José I.

 

Estão, portanto, a partir de agora, todos os portugueses com capacidade eleitoral minimamente habilitados para exercerem o indeclinável direito de pronúncia sobre a política de fertilidade da Raça Lusitana e etnias migratórias, caso o Não logre os seus intentos. A nossa pergunta é simples e directa: o prior de Trancoso e o rei D. João V serão ícones paradigmáticos e mobilizadores? O primeiro revelou-se um verdadeiro todo­‑o­‑terreno fértil e o segundo, de resto, não só muy empernou por mosteiros e palácios como levantou do chão o Real Convento de Mafra, o maior monumento nacional à fertilidade, pela pródiga quantia de 120 milhões de cruzados. Parece-nos que, entre tantos varões assinalados, cumprem os requisitos filogenéticos, superando um dos dilemas da modernidade nacional e mundial, que tem optado pelo prazer em detrimento da reprodução. Quer o prior quer o rei apontam a saída ao fundo do túnel vaginal: copular desalmadamente e parir ininterruptamente.

 

Todos sabemos, porém, que os custos dos nossos dias não se compadecem com proles incontroladas. Obviamente. Daí a premência de um Plano Demográfico com pénis e cabeça. Qualquer um pode ascender a filho do prior ou bastardo do rei. Daí o apelo a todos os portugueses e portuguesas com sentimentos pios: todos ao molho e seja o que Deus quiser. No fim, alguém há-de cuidar de tanta fecundação ou dos rebanhos do Senhor. Para isso, forcemos o poder a ter engenho e arte. A criação do Ministério da Segurança Sexual deve absorver todas as competências e meios dos Ministérios da Segurança Social, da Saúde e da Educação. O Estado terá, neste enquadramento legislativo e regulamentar, de direccionar, entre muitas outras, as receitas da Roda da Santa Casa para a Roda da Santa Causa. As imagens reais ou imaginárias do prior de Trancoso e do rei D. João V devem decorar as paredes das escolas e das fábricas, das discotecas e dos estabelecimentos hoteleiros, sucedendo às de Salazar e do Crucifixo.

 

No entanto e após esta angélica e inventiva proposta – confesso – não consigo dissipar uma tremenda dúvida ou uma iminente ameaça: domingo, dia 11, se o Sim convencer e vencer, haverá três vencedores: a Mulher, a Humanidade, a Civilização; domingo, dia 11, se o Não convencer e vencer, só haverá um vencedor: o negócio do aborto clandestino.

 

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* Escritor, jornalista.