|
Informação Alternativa |
|
Portugal |
|
29/01/2007 «Ainda se enfiam agulhas de tricô» em pleno centro do Porto «Tenho a consciência
tranquila, sabe? Porque se não tivesse ajudado aquelas mulheres elas iam
meter agulhas até ao útero para abortarem. Há quem pense que isto das agulhas
já não existe, que o raminho de salsa [enfiado na vagina até ao colo do
útero] já não existe. Existe, pois! Todos os dias acompanho gente que vive em
bairros de miséria. Essas pessoas não vão a Espanha! Nem tomam Cytotec.
Enfiam agulhas de tricô, sim. Atiram-se pelas escadas abaixo, sim.» As palavras, como rajadas,
pertencem a José António Pinto, assistente social da Junta de Freguesia da
Campanhã, Porto, um dos envolvidos no famoso julgamento da Maia, que sentou
43 arguidos no banco dos réus, e em que uma enfermeira-parteira foi condenada
a oito anos de prisão. José Pinto confessou que sim, encaminhava as mulheres
para aquela morada. «Mulheres que viviam no limiar da condição humana. Que
não podiam ter mais um filho porque já nem comer tinham para dar aos outros».
Foi absolvido, os magistrados não acreditaram que angariasse mulheres e
recebesse dinheiro pelos abortos. As próprias mulheres confessaram que José
Pinto as tentava demover, mas que a vida já tinha decidido por elas. Por conhecer tão bem a
pobreza, indigna-se quando ouve os movimentos pelo “não” assumirem‑se “pela
vida”. Como se quem aborta fosse “pela morte”. «Eu também sou pela vida! Mas
pela vida em abundância, pela vida desejada e com condições». Hoje, as
mulheres procuram-no menos, para pedir esse tipo de ajuda. «Têm medo de me prejudicar».
E, por isso, vão a uma conhecida senhora de um bairro no centro do Porto
(igual a tantas outras de outros bairros) que lhes abre as pernas e enfia
ramos de salsa. Ou então, as que podem pagar, vão a uma ainda mais conhecida
clínica perto de Aveiro. A clínica, essa clínica do
centro do país, é aquela a que mais mulheres portuguesas recorrem, logo
depois da Clínica dos Arcos, em Badajoz. As contas apontam para 500 a 600
abortos por ano. Cá fora, no parque de estacionamento, há rapazes e raparigas
que se olham, quem sabe procurando ainda outras soluções. Alguns são muito
novos, as borbulhas tão acesas como as hormonas, os corpos quase infantis. Há
meninas de olhar assustado acompanhadas pelas mães. A clínica tem muitas
especialidades, mas há um vai-e-vem de mulheres que, na conversa com o
psicólogo, explicam as razões para a inviabilidade daquele filho. O director
da clínica garante que as interrupções são feitas à luz da lei, que
possibilita o aborto nos casos em que a gravidez seja uma ameaça à saúde
física ou psíquica da mulher. E ali, o factor psíquico é determinante. Uma
carta do psicólogo atesta o perigo. A ecografia (feita sem o cuidado de
ocultar a imagem do embrião dos olhos de quem o carrega) certifica as semanas
de gravidez. O procedimento é feito, numa sala sem luxos nem sofisticações,
numa marquesa com estribos e uma tina de metal no meio. Paga-se um mínimo de
550 euros, e trocam-se poucas palavras, muito poucas palavras. No final, uma
enfermeira vem para acariciar os cabelos, ajeitar os cobertores, «sim, o frio
é normal», e carregar na barriga, «para ajudar a limpar o útero». Sai‑se
uma meia hora depois, com uns comprimidos para tomar e uma vida para
prosseguir. |