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13/01/2007 Voos da CIA em Portugal?
Não vimos, não ouvimos, não sabemos... João Semedo A Assembleia da República rejeitou a formação de uma comissão de inquérito aos voos secretos da CIA que passaram em aeroportos portugueses, em especial, nos Açores. O PS juntou os seus votos aos do PSD e do CDS/PP, impedindo assim que o parlamento avançasse na procura da verdade. Para além do resultado, o que fica na memória de todos os que seguiram este debate são os rasgados e entusiasmados elogios ao actual governo – e muito especialmente ao seu ministro Luís Amado – proferidos pelos deputados da direita e da extrema‑direita, exactamente os mesmos que ou estavam no governo ou lhe garantiam o apoio parlamentar quando ocorreram a maior parte dos voos que estão na origem da investigação em curso no Parlamento Europeu. Foi debaixo dos aplausos do
agradecido José Luís Arnault, ex-ministro da presidência de Durão e Santana,
e dos sorrisos do aliviado Paulo Portas, titular da pasta da Defesa dos
mesmos governos, que o deputado socialista Vera Jardim despachou o assunto,
concluindo que não havia nem factos nem indícios que justificassem a abertura
de um inquérito parlamentar, pois quer o governo quer a própria assembleia já
tudo tinham esclarecido e clarificado. A direita saía tranquila: o
parlamento desistia de seguir o rasto da sua cumplicidade com as ilegalidades
praticadas pelos serviços secretos norte-americanos. O Partido Socialista
saía envergonhado: nunca nesta legislatura tinha sido tão evidente e
descarado o apoio, e o reconhecimento, da direita ao governo de José
Sócrates. De facto, foi chocante ver o
enlevo com que PSD e CDS/PP defenderam as decisões e a postura do governo do
PS neste caso dos voos da CIA, sobretudo o papel do ministro Luís Amado que,
desde o primeiro momento, tudo fez para impedir que alguma coisa pudesse ser
investigada e esclarecida, quer aqui pelas autoridades portuguesas, quer nas
instâncias europeias. Recorde-se que o actual ministro dos Negócios
Estrangeiros foi dos poucos socialistas que apoiaram, em Portugal, a ocupação
do Iraque pelas tropas norte-americanas. Ao contrário do que PS, PSD e
CDS/PP dizem, não faltam factos nem indícios mais que suficientes para levar
por diante e até ás últimas consequências uma investigação séria às condições
em que aviões ao serviço da CIA escalaram aeroportos portugueses. Em nome dos
direitos humanos e das liberdades e garantias constitucionais, bem como das
convenções internacionais subscritas pelo estado português, não podem ficar
sem resposta algumas perguntas elementares: dos mais de cem voos ao serviço
da CIA, tendo Guantánamo como origem ou destino (entre outros) e que está
provado terem passado por Portugal, pelo menos desde 2002, quantos se
destinaram a transportar cidadãos raptados e detidos ilegalmente pelas
autoridades norte-americanas sob a acusação ou suspeita de envolvimento em
actos terroristas? Onde estão e por que não são apresentadas as listagens dos
passageiros e tripulantes desses voos? As autoridades portuguesas conheciam,
consentiram ou autorizaram esses voos? E os governos de Durão Barroso e
Santana Lopes? E o actual? É lamentável que o governo
português e o nosso parlamento não sigam o exemplo dos parlamentares europeus
– da comissão de inquérito criada no PE – na procura de toda a verdade sobre
as operações da CIA em território nacional e, obviamente, europeu. Tal como é
indisfarçável o medo do PS, do PSD e do CDS/PP pelos resultados de uma
investigação séria, determinada e transparente. De facto, receiam vir a
confrontar‑se com verdades incómodas e factos incontornáveis, no fundo
reveladores de toda a sua condescendência e até mesmo subserviência perante a
administração norte-americana. Do PSD e do CDS/PP não seria
de esperar outra atitude. Mas do PS, com franqueza! Que pensarão hoje todos
aqueles socialistas que, com toda a esquerda portuguesa, desfilaram pelas
cidades deste país contra a invasão do Iraque ordenada pelo chefe do império
G. Bush? A rejeição do inquérito
parlamentar constitui um intervalo. Pela dimensão que atingiu, pela gravidade
do que pode estar em causa, o problema voos secretos da CIA não vai parar
aqui. A verdade, mais tarde ou mais cedo, acabará por se impor. |