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30/11/2006 As perguntas perdidas do
Não Jorge
Costa A 11 de Fevereiro decidiremos
se as mulheres que abortam devem continuar a ser perseguidas e julgadas. No
referendo não estão em causa interpretações sobre a natureza ou o início da
vida: quem recusa o aborto também deve votar Sim – as mulheres que tiveram
que abortar merecem respeito, devem ter hospitais e não tribunais. Mas esta
não é a única pergunta perdida dos defensores da actual lei do aborto. A VITÓRIA DO SIM É A
LIBERALIZAÇÃO DO ABORTO? Como bem sabem os neoliberais defensores do Não,
liberalização é ausência de regras. Pelo contrário, a lei de despenalização
estabelecerá regras precisas: a interrupção da gravidez pode ocorrer em
estabelecimento de saúde autorizado até às 10 semanas. PORQUÊ DEZ SEMANAS? A
despenalização do aborto nas primeiras dez semanas de gravidez, em condições
de saúde acessíveis, reduz o estigma e implica celeridade. O recurso ao
aborto depois desse prazo tende a diminuir radicalmente. Os defensores do Não
perguntam: “e depois das 10 semanas?”. A resposta é: com o aborto clandestino,
não há prazos. A actual lei favorece o aborto tardio, que põe em perigo a
vida da mulher. Os defensores do Não são indiferentes ao momento da
interrupção da gravidez, apenas se empenham na perseguição e no julgamento
das mulheres. O Bloco defendeu que o prazo deveria ter sido de 12 semanas,
mas não foi esse o entendimento da maioria do parlamento. O RECURSO AO ABORTO VAI
AUMENTAR? Nunca foi por ser ilegal que o aborto deixou de ser praticado. Ao
dizer que a despenalização aumenta o recurso ao aborto, os defensores do Não
brincam com números. Não há estatísticas fiáveis sobre a realidade actual
porque o aborto é... clandestino. Quando vão para o hospital com
complicações, as mulheres raramente as atribuem ao aborto clandestino. Com a
despenalização, o fenómeno passará a ser estudado e conhecido com rigor. O
número de abortos diminuirá porque aumenta a informação das pessoas e a sua
protecção. NÃO SE PODE DESPENALIZAR SEM
GASTAR DINHEIRO NA IVG EM HOSPITAIS PÚBLICOS? É no Serviço Nacional de Saúde
que todas as mulheres que decidirem abortar, sobretudo as mais
desfavorecidas, podem ter o atendimento adequado. O que evita a gravidez
indesejada é informação, planeamento familiar, acesso à contracepção. Essas
também são responsabilidades do Sistema Nacional de Saúde. Do ponto de vista
económico, a realização da IVG no âmbito do SNS é uma garantia, evitando as
complicações que já hoje criam maiores encargos para este sistema. Se fosse
feita no sistema privado, as mulheres mais pobres seriam discriminadas. NÃO SE PODE MANTER A LEI
ACTUAL E ACABAR COM OS JULGAMENTOS? Esta é a proposta de quem quer esconder a
humilhação dos julgamentos para continuar a humilhar com a ilegalidade. Além
de manter os actuais perigos do aborto clandestino, a suspensão dos julgamentos
não acabaria com a perseguição das mulheres, que continuariam a ser
investigadas pela polícia e cuja vida continuaria exposta em processos
judiciais. Até 11 de Fevereiro, os defensores do Não tentarão encher o debate de perguntas. Mas são perguntas perdidas. Nas caixas de correio, haverá fotografias ameaçadoras e manipuladas. Mas o país já percebeu que, no boletim de voto, só sobrará uma questão: chegou a hora de acabar com a perseguição e o julgamento de mulheres por aborto? Portugal vai acertar o relógio com o seu tempo? E dizer Sim de vez. |