|
Informação Alternativa |
|
Portugal |
|
03/12/2006 “Aqui funcionou o Tribunal
Plenário” – Comunicado – Movimento
Cívico “Não Apaguem a Memória!” O Movimento Cívico “Não
Apaguem a Memória!” vai concretizar, em pedra e cal, um dos seus objectivos:
assinalar para os presentes e vindouros que no Tribunal da Boa-Hora, em
Lisboa, funcionou, de 1945 a 1974 um arremedo de justiça, designada por
“tribunais plenários”. Convém recordar que no dia 24
de Abril de 1974 ainda este sinistro tribunal (?) se reuniu e ordenou ao
meirinho para trazer à sessão os acusados de «acções subversivas, visando o
derrube do Estado Novo». O meirinho respondeu que não havia acusados, a
carrinha que os devia trazer da prisão de Caxias não chegara e, ao que
constava, decorria uma revolução que tinha por objectivo libertar todos os
presos políticos e derrubar definitivamente o Estado Novo. Consta que os juízes
arrumaram as becas, recolheram a penates e ficaram assolapados nas suas
mordomias, aguardando que a situação se esclarecesse. Comportaram-se como o
camaleão e, tal como ele, abocanharam a presa. Estes togados, que anos a fio
tinham agido com baixeza moral e sido um exemplo de ignomínia para com a
Justiça humana, conseguiram emergir do pântano da vileza e servilismo para,
revestindo-se do manto do exercício irresponsável da lei, voltar a distribuir
a Justiça dos códigos jurídicos. A maioria reformou-se por limite de idade,
mas houve quem chegasse ao Supremo Tribunal, numa atitude de supremo
desplante, que infelizmente nenhum colega de mister teve a justeza de
denunciar publicamente. Só agora, 32 anos passados,
foi possível, graças a uma nova geração de magistrados, para quem a
democracia é o regime natural das sociedades humanas, reabilitar a dignidade
dos muitos resistentes que ali foram julgados e algumas vezes espancados
pelos agentes da PIDE, a feroz polícia política do regime, no decorrer do
próprio julgamento, perante a cúmplice passividade dos juízes (?) que
presidiam à sessão. A sentença vinha já inscrita
na acusação instruída pela própria polícia política. Ela investigava,
procedia à detenção, interrogava sem limite nem peias, instruía o processo e
determinava a pena a aplicar, que os juízes (?) do tribunal plenário
aplicavam com obediência canina – incluindo as “medidas preventivas”, que
determinavam a prorrogação automática da pena, de seis em seis meses, se a
PIDE o achasse conveniente para “a segurança do Estado”. O Movimento Cívico “Não
Apaguem a Memória!” sente um legítimo orgulho em poder afirmar que esta
denegação da Justiça, praticada num secular lugar de Justiça, vai ser
reparada, na medida simbólica que a história o permite. No próximo dia 6 de Dezembro,
pelas 17h30, na 6ª Vara Criminal do Tribunal da Boa-Hora, lugar de opróbrio
para a Justiça portuguesa, pois aí funcionaram os famigerados tribunais
plenários, vai ser descerrada uma lápide chamando à atenção do visitante para
que ali, durante o regime ditatorial do Estado Novo, a dignidade dos homens e
mulheres livres foi ultrajada por vis juízes e desprezíveis torcionários. O Movimento Cívico “Não
Apaguem a Memória!” considera um dever de memória a divulgação deste acto,
por isso convida‑vos a estar presentes na cerimónia de descerramento
da lápide e a dar a divulgação que julgamos que este acto merece. Junto
enviámos o programa da sessão que decorrerá a 6 de Dezembro próximo. PROGRAMA: 17h40 – Descerramento da
placa no átrio da Sala do Plenário pelos presos políticos activistas e
decanos do nosso Movimento – Edmundo Pedro e Nuno Teotónio Pereira. 17h45 – Entrada para a Sala. 17h50 – Intervenção do preso
político Prof. António Borges Coelho. 18h00 – Intervenção do decano
dos advogados de defesa dos presos políticos Dr. Mário Soares. 18h10 – Intervenção de uma
activista do Movimento da geração pós 25 de Abril, Dra. Cláudia Castelo. 18h20 – Encerramento por um
representante do Tribunal. No seguimento dos contactos que o Movimento está a desenvolver com as instituições de Estado, e tendo em vista o descerramento da lápide no Tribunal da Boa-Hora, vem a propósito informar que vai realizar-se no próximo dia 29, quarta-feira, às 17h, uma reunião do Movimento com o presidente do Supremo Tribunal de Justiça. |