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19/11/2006 Ciência precária Rui Borges Os bolseiros têm estado nas
notícias em meses recentes pelas suas lutas contra a precariedade. Para
muitos terá sido novidade saber que os cientistas bolseiros não têm direito
ao regime geral da Segurança Social ou ao subsídio de desemprego. Mas já há
mais de uma década que a doutrina neoliberal começou a destruir as condições
de trabalho nas universidades. Hoje a precariedade não é apenas um mal que
atinja os trabalhadores supostamente menos qualificados, mas sim a regra para
toda a geração que tem chegado ao mercado de trabalho em anos recentes. Existem no país algo entre 8
mil e 10 mil bolseiros que representam cerca de um terço da mão-de-obra no
sistema científico nacional. Apesar de se poder considerar que haja bolsas
para formação (com vista a obter um determinado grau académico), o que é
certo é que há muitos tipos de bolsa que não têm essa finalidade, são apenas
o mecanismo utilizado por sucessivos governos para impor a precariedade
laboral nas universidades e institutos de investigação. A Associação dos Bolseiros de
Investigação Científica organizou esta semana a segunda Conferência Nacional
sobre o Emprego Científico. Das diferentes intervenções pode concluir-se que
desde a primeira conferência há dois anos atrás pouco ou nada mudou. As
condições em que trabalham os jovens cientistas continuam as mesmas, embora o
número de bolsas tenha aumentado significativamente. Do lado das empresas o
panorama é desolador. A Feira do Emprego Científico que iria decorrer em
paralelo com a Conferência teve que ser cancelada por falta de interesse dos
empresários. Ficámos a saber que o programa de inserção de mestres e doutores
nas empresas (um programa em que o estado paga uma parte significativa do
salário) resultou no emprego de menos de 400 pessoas nos últimos anos. Já o
badalado acordo com o MIT que envolve mais de 60 milhões de euros vai
resultar no emprego de... 30 doutorados em empresas. Mas talvez haja uma
explicação para cifras tão insignificantes. Segundo o vice-presidente da
Agência de Inovação, uma das dificuldades da inserção de doutorados nas
empresas é o facto de estes não estarem habituados a trabalhar... Dos responsáveis pela área continua o já estafado apelo ao empreendedorismo, ou seja, tentem safar‑se criando uma empresa porque ninguém vos vai dar emprego. Já o Presidente da FCT, João Sentieiro, deixou no ar a ameaça de que se os bolseiros querem mais condições isso pode implicar que haja menos bolsas. O governo até criou recentemente um mecanismo de transformar em bolseiros os professores despedidos do ensino superior nos últimos três anos. O que fica claro de tudo isto é que o Compromisso com a Ciência do governo Sócrates está longe de ser um compromisso com os cientistas. E face ao aperto é bem provável que o protesto dos investigadores e professores do ensino superior se torne cada vez mais comum. |