|
Informação Alternativa |
|
Portugal |
|
Outubro 2006 Compromisso Sócrates Nuno Ramos de Almeida Esquerda
(pdf) Como um verdadeiro menino do Beato, o primeiro-ministro, José Sócrates, também tem um compromisso para Portugal. Resta saber se é diferente da receita que, com a candura habitual, defenderam os empresários reunidos no convento. Ou melhor dizendo, não proferem em voz alta os poderosos do Beato, o mesmo que pensa, em voz baixa, José Sócrates? No fundo, todos, a seu ritmo e a seu tempo, não propõem mais do que privatizar, despedir e cortar as despesas sociais. Talvez por isso, Outubro está literalmente na rua: as greves e as manifestações sucedem-se. Há muito tempo que nenhum governo enfrentava tantos protestos e criava tantos descontentamentos. No entanto, raramente um primeiro-ministro gozou de um apoio legislativo tão firme e de umas sondagens tão favoráveis. Esta contradição não se deve a um qualquer masoquismo popular do tipo: quanto mais um governo nos bate, mais a gente gosta dele. Explica-se por três ordens de factores: 1. Uma política inteligente que vira, à vez, a população contra os trabalhadores que protestam, fazendo crer ao resto dos portugueses que funcionários públicos, professores e reformados são uns privilegiados. 2. Uma imensa capacidade de vender aos portugueses, fartos da situação política em que vivem, que o governo está a fazer mudanças e reformas estruturais, escamoteando o facto de que as políticas do governo são a agudização das políticas de sempre e, como tal, são parte do problema e não da solução. 3. E, finalmente, a propagação de ideias que mantêm a hegemonia das políticas neoliberais na economia, aqui e na Europa, convencendo as pessoas de que uma determinada política económica é independente da escolha política e que, por exemplo, quando todos os europeus levam com o quinto aumento da taxa de juros consecutivo a mando do Banco Central Europeu, isso não é fruto de uma escolha que privilegia determinados indicadores económicos em prejuízo do emprego, crescimento económico e da vida das pessoas, mas é uma espécie de inevitabilidade inscrita nas tábuas, ditadas por Deus, da ciência económica. A primeira manipulação que é preciso desmascarar, para mudar a orientação económica do país, é a questão de saber quem tem privilégios a mais e quem precisa de mais justiça social. Entendamo-nos, se o Estado está falido isso não se deve às despesas com os mais pobres, mas ao facto dos governos se permitirem isentar de pagar impostos os mais ricos. O governo nunca lutou contra os verdadeiros privilegiados, acabando com o paraíso fiscal da Madeira, taxando as mais valias da bolsa ou obrigando os bancos a pagar impostos como os de qualquer empresa. O governo Sócrates fez a sua luta contra os “privilegiados”, leia-se pensionistas pobres, trabalhadores da Administração Pública e professores. Cortando, no futuro, as reformas de um milhão de trabalhadores, planeando o despedimento de 80 mil funcionários públicos e continuando a congelar aumentos e progressão na carreira dos restantes, que nos últimos 10 anos foram aumentados muito abaixo da inflação em oito anos consecutivos, e desvalorizando a carreira dos professores, a quem todos os anos fazem andar de Rodes para Pilatos em busca de escola para trabalharem. A primeira coisa com que Outubro podia contribuir para um mudança verdadeira, era levantar esse manto diáfano da fantasia socrática. |