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15/10/2006 Fartos de mentiras Mariana
Aiveca Disseram na rua o que lhes
vai na alma, quando as empresas fecham pela calada da noite e o patrão não
paga, quando o médico se vai embora e não existe mais nenhum que o substitua,
quando a escola não abre porque não tem condições, quando o contrato acaba e
o dinheiro não chega para pagar a renda e a comida, quando a pensão não dá
nem para os medicamentos. O dia 12 foi um grito de protesto contra a crise,
mas foi também um protesto contra a mentira. Foi uma manifestação como há
muito tempo não se via. Juntaram-se professores, enfermeiros, funcionários
públicos e operários, efectivos e precários, reformados e desempregados, e
todos, todos juntos disseram em uníssono “mentiroso, mentirosos”. O que leva estes milhares e
milhares de pessoas a saírem à rua são os problemas concretos agravados. Mas
é muito mais que isso. É que já não suportam as mentiras sobre os privilégios
que não são deles, mas dos senhores da banca. As mentiras de que precisam de
serem eles a pagarem mais impostos em vez do capital. A mentira de que não
podem ter aumentos, porque é a recessão, enquanto os Belmiros deste país
enriquecem mais e mais à sua custa. É o protesto contra a inevitabilidade de
que “é a vida”, de que “não há nada a fazer”. As pessoas saem à rua porque
estão fartas de ser tratadas como ignorantes, como coisas que não entendem a
modernidade, a economia de mercado, os pactos de estabilidade e crescimento,
os compromissos europeus. Estes protestos reflectem
também a desilusão de quem acreditou que votando no PS melhorava a sua vida e
agora contactou com a monumental mentira. O que me parece ser mais
importante é que se ultrapassou, ainda que timidamente, o espaço apenas
sindical para uma esfera mais larga de pessoas, mostrando ser possível e
desejável que o importante papel dos sindicatos assuma outra dimensão, não só
a de representar os que têm emprego, mas também organizar a luta, juntando
outros quereres e outras reivindicações – É assim que deve ser. É por este
caminho que se deve continuar. Continuando assim, bem pode
José Sócrates “pôr as barbas de molho”, porque começa a ter razões para ficar
nervoso, porque não lhe vão bastar os acordos e os pactos com a direita, não
lhe vão bastar os malabarismos dos discursos da “modernidade”, da “flexibilidade”
e do “choque tecnológico”. As lutas que se preparam para este mês de Outubro, nomeadamente nos professores e na função pública, podem iniciar um novo ciclo, o ciclo de enfrentamento na rua a José Sócrates e ao seu governo. |