Informação Alternativa

Portugal

23/02/2006

 

Texto incluído no livro colectivo ZECA SEMPRE

 

Padre Mário de Oliveira

 

A Páscoa do nosso queridíssimo José Afonso aconteceu já há 19 anos. Em 23 de Fevereiro. Em boa hora, a Editora Arca das Letras, do Porto, decidiu publicar, este ano, um livrinho sobre ele, a que deu o sugestivo título: ZECA SEMPRE. O livrinho contém textos de 22 companheiros, entre os quais, também eu me encontro. Não pude dizer que não, quando o Editor, meu amigo Soares Novais, me convidou. A José Afonso nunca me poderei recusar. Se o fizesse, uma vez que fosse, nunca mais seria digno dele. Alguma vez José Afonso se recusou a alguém, nomeadamente, aos Sem Ninguém? São estes os nomes dos outros companheiros que “fazem” este livrinho: Alípio de Freitas, Camilo Mortágua, César Príncipe, Fernando Peixoto, Francisco Duarte Mangas, Francisco Fanhais, Hélder Costa, João Pedro Mésseder, Jorge Ribeiro, José António Gomes, José Mário Branco, José Viale Moutinho, Leandro Vale, Manuel Alegre, Pedro Barroso, Raul Calado, Soares Novais, Xabier Paz, Xosé Maria Alvarez Cáccamo, Urbano Tavares Rodrigues, Virgílio Alberto Vieira. Fiquem, agora, com o meu texto, escrito sob a forma de carta.

 

Meu querido Companheiro e Camarada José Afonso

 

Só posso começar esta minha crónica em tua Memória com abundantes lágrimas. De raiva. E, sobretudo, de vergonha. É que Abril, que tu tanto ajudaste a chegar, já lá vai. E fomos nós quem o despachou, à força de tanto o cantarmos e celebrarmos, em lugar de o actualizarmos em cada novo dia, em cada nova semana, em cada novo mês, em cada novo ano. Na nossa euforia sem luta, nem sequer nos demos conta que o Inimigo andava disfarçado connosco, para mais eficazmente nos trair. Hoje, já sabemos, ou começamos lentamente a saber que não há baile que valha a pena ser bailado, a não ser o dos corpos que simultaneamente se dão às Causas da Humanidade, a começar pela mais empobrecida e oprimida. Todos os outros bailes, que nos desviam das Causas da Humanidade mais empobrecida e oprimida são alienação e ópio do povo e para o povo. Como a Religião. Ou como o estatuto de “ateu” ou de “agnóstico” com que muita gente de Esquerda que ainda te canta e às tuas canções de combate, hoje se enfeita, mas para melhor poder continuar instalada e acomodada nas suas rotinas quotidianas e de fim de semana, sem que “o outro” e o “totalmente Outro” a interpelem e incomodem. Confundimos comer/beber/fornicar à tripa forra e fumar de forma compulsiva com ser­‑se revolucionário. Deram-nos um dia a provar do vinho e dos festins com que o grande Kapital sempre consegue adormecer aquelas, aqueles que o combatem e, algum tempo depois, já não quisemos outra coisa que não fosse ser e viver como os nossos opressores e os nossos exploradores. E o resultado é o que se vê. O país está hoje feito num oito. Apenas trinta e dois anos depois de Abril!...

 

Os que se têm na conta de mais resistentes, ainda se mantêm inscritos – não, não militam – em “partidos de Esquerda”. Mas o grande objectivo deles já não é continuar a levar por diante a militância política revolucionária, afim de mudarem o mundo e a vida e criarem uma Terra sem males e sem amos. O que hoje mais os faz correr é a possibilidade de virem a ser deputadas, deputados de Esquerda dentro do Regime, cá no país ou no Parlamento Europeu, e usufruir de todos aqueles privilégios do caraças. Ou, pelo menos, conseguirem um emprego como secretária particular duma deputada, dum deputado, ou duma ministra, dum ministro de um qualquer governo socialista.

 

A luta contra o Poder dos poderosos que tu, querido companheiro e camarada José Afonso, tão ferozmente assumiste com risco da própria vida, e de um modo consequentemente exemplar – só por isso é que acabaste como acabaste – quase já não tem hoje quem a prossiga. Hoje somos todas, todos muito mais “civilizados” e “democratas”. Até as minorias mais esclarecidas e academicamente mais habilitadas o que agora pretendem já não é derrubar os poderosos dos seus tronos. O que pretendem é chegar a partilhar dos tronos com os poderosos, nem que seja simplesmente comer das migalhas que caem das suas mesas, num subserviente lugar de assessor.

 

A militância Política, como acção persistente e maiêutica de todos os dias, dá muito trabalho, exige de quem a assumir que voluntariamente desça até à base da pirâmide social e erga a sua casa entre as populações mais oprimidas e mais empobrecidas, numa progressiva comunhão de vida e de mesa, para que estas, com o tempo, deixem de ser populações semelhantes às da cidade de Nínive, do tempo do profeta Jonas bíblico, que não sabiam/não sabem distinguir entre a sua mão direita (política) e a sua mão esquerda (política) e só por isso votam sistematicamente contra si próprias nas sucessivas eleições.

 

Nunca como hoje, nos últimos cem anos, o grande Kapital esteve tão à vontade no nosso país, na Europa e no resto do mundo. Nem nunca teve tantos e tão hábeis servidores entre as minorias mais escolarizadas. Imagina que o grande Kapital até tem podido contar com a tua Memória politicamente subversiva e perigosa, previamente descafeinada por ele, já se vê. Os seus incondicionais servidores – vendem-se-lhe por um modernizado prato de lentilhas – reduziram-te a simples “cantor de intervenção” de um tempo que já lá vai e que não volta mais. Tornaram-te inócuo, inofensivo, estéril, objecto decorativo nas salas de estar de gente de Esquerda que se orgulha muito do seu ateísmo, sem, entretanto, se dar conta que mais não é do que gente idólatra, adoradora do pior dos ídolos, o deus Dinheiro, precisamente. A tua voz gravada ainda hoje se faz ouvir um pouco por todo o lado, mas é, evidentemente, uma voz desacompanhada de corpos politicamente militantes e de acções de combate consciencializador e libertador. Não, querido companheiro e camarada, não és tu quem está a falhar, pois, no teu tempo histórico, sempre aliaste o teu canto a acções concretas de combate duélico sem tréguas. Somos nós que nos dizemos de Esquerda quem tem falhado. Redondamente. Para sermos dignos de ti e da tua Memória politicamente subversiva e perigosa, teríamos que ter sabido, como tu sempre soubeste, que as tuas só são canções que libertam e realizam Utopias, se sempre lhes emprestarmos os nossos corpos de resistentes e de combatentes; se as cantarmos, devidamente actualizadas, como tu sempre as cantaste, no contexto de incansáveis lutas políticas concretas, as mais imaginativas e fecundas, contra o Poder dos poderosos e contra a Exploração inominável das Multinacionais, até conseguirmos decapitar a presente Ordem Económica e Política Mundial intrinsecamente perversa que nos converte a todas, todos em animais racionais, sim senhor, mas muito mais selvagens uns com os outros e com a própria Natureza, do que os assim chamados por nós.

 

A minha esperança é saber que tu, querido companheiro e camarada, jamais desistirás desta Terra e deste Universo, onde brilhas como estrela consciente e super-activa. Por mais que tentem reduzir­‑te a ilustre Voz de um tempo que não volta mais, tu, felizmente, és sempre muito mais que isso. Como Jesus, o de Nazaré, também nasceste e vieste ao mundo para lançar o fogo à Terra e nunca mais tens sossego enquanto não vires tudo incendiado. O Inimigo pensa que tu morreste e faz tudo para te tratar como um ilustre defunto. Mas tu simplesmente explodiste para fazer explodir a muitas, muitos. Queiram ou não queiram os papões, hoje bem mais sanguinários que o papão que tu cantaste para o Menino do Bairro Negro, nenhum Poder consegue deter o Rio que avança para o Mar. Nem fazer calar o Clamor dos milhares de milhões de Empobrecidos e de Oprimidos do Planeta. Podem matá-los à fome ou ao abandono, como população excedentária. Não podem silenciar para todo o sempre o seu Clamor, porque então o seu Silêncio tornar-se-ia ensurdecedor. Pela minha parte, já oiço o rufar dos tambores a anunciar a chegada do Sol de verão. Pode levar ainda muitas gerações, mas a verdade é que a última palavra só pode ser das vítimas, nunca dos seus verdugos. Felizes seremos então se, enquanto durar a História, nunca mais dermos tréguas aos verdugos. Porque se lhes dermos tréguas, seremos seus cúmplices. Cúmplices dos verdugos. Uns pulhas, portanto. E uns canalhas da pior espécie.