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23-08-2004 para a crise petrolífera
que se aproxima Andrew
McKillop * A intensa recessão do período 1980-83, trazida pelas espectaculares
altas nas taxas de juro, dispararam falências maciças de negócios e
desemprego para milhões de pessoas, depois do que as louvadas 'soluções do lado
da oferta' podiam ser apresentadas como sendo a causa real dos sempre
cadentes custos do trabalho, preços das matérias-primas e... acima de tudo...
o preço do petróleo. A seguir ao "remédio corajoso" de destruir negócios e
empregos, as persistentes taxas baixas de crescimento económico, a par de
aumentos nas ofertas de petróleo devido certamente à irrupção final das
grandes descobertas de petróleo no período 1975-1985, permitiram que a farsa
da Nova Economia fosse mantida a flutuar, com preços de petróleo 'razoáveis',
ou seja, níveis ridiculamente baixos. No período 1986-1998 houve somente um ponto de destaque para os
preços do petróleo ... eles eram baixos e tendiam a ser mais baixos.
Quaisquer homem de negócios ou gurús das finanças podiam provar as suas
credenciais balbuciando o slogan das "mercadorias do poente" para
explicar porque o petróleo, tal como o cobre, o café ou o estanho estava
barato e iria ficar ainda mais, e serviços financeiros inteiramente virtuais
geravam vastos lucros. Ainda em Março de 1999 aquele resoluto apoiante da
apodrecida teoria económica neoliberal, a revista Economist, anunciava que a
futura tendência do preço do petróleo era «provavelmente de não mais de US$5
por barril». No mesmo ano, os preços do petróleo quase triplicaram pela simples
razão de que o crescimento económico do mundo havia principiado a sacudir a
tendência suicida da estagnação neoliberal (chamada de 'estabilidade' pelos
seus defensores), o que inevitavelmente resultou num crescimento da procura
de petróleo rompendo a sua "taxa de tendência a longo prazo" em
torno dos 1,3% ao ano. Desde então, e com um soberano desdém pelo seu preço, a procura de
petróleo não mostra sinais de regressar à garrafa do baixo crescimento. O 'ponto crítico' do crescimento da procura mundial de petróleo, a
seguir ao qual os preços deslizaram para fora da 'estabilidade' da Nova
Economia, foram de facto os anos 1995-97, e ao longo de 1999-2003 o
crescimento da procura progressivamente modificou-se sempre num sentido
ascendente, até atingir a actual taxa de 2,6-2,8% ao ano. Os próprios preços
mais elevados de petróleo e gás natural desempenharam e desempenham um grande
papel na manutenção e no reforço do processo de crescimento da procura. Isto contradiz totalmente a confortável noção liberal do
'ajustamento elástico dos preços', ou uma redução 'inevitável' na redução da
procura quando os preços ascendem, apesar do simples facto de o crescimento
da procura mundial de petróleo estar agora, em 2004, na sua taxa mais alta ao
longo de 15 anos, com preços também na sua maior elevação desde 1985. O armário da política petrolífera da multidão de líderes mundiais da
Nova Economia está realmente quase vazio. Apenas enormes movimentações nas
taxas de juro, que levam quase à recessão económica instantânea, existem como
soluções do lado da procura para preços de petróleo mais altos — juntamente
com sanções comerciais e económicas e acções militares contra os produtores
de petróleo recalcitrantes ou 'abaixo do desempenho' como ferramentas cómodas
do 'lado da oferta'. Como manda o figurino, os últimos defensores do petróleo barato num
contexto em que a procura é forte e as ofertas tornam-se mais hipotéticas a
cada dia (e logo tenderão a descer porque o petróleo é um fóssil, não um
recurso dos países tropicais), tal como a Agência Internacional de Energia
(AIE) e outros mencionáveis como 'peritos' e analistas de petróleo de
encomenda, agora afirmam que a produção mundial de petróleo poderia ser elevada
até a 120 milhões de barris/dia (Mbd) em 2020. Por outras palavras, e com base numa média diária actual da ordem
dos 81,5-82,5 Mbd, a produção mundial poderia ou deveria ser aumentada em 38
Mbd em cerca de 14 anos e 4 meses. O mais simples desafio para esta fantasia ridícula é perguntar se
alguma coisa como esta já ocorreu alguma vez anteriormente, pergunta para a
qual a resposta é NÃO. O desafio seguinte é comparar acréscimos líquidos à capacidade de
produção mundial necessária para satisfazer esta fantasia (cerca de 2,7 Mbd
por ano, não incluindo a compensação pelas perdas anuais de capacidade, que
andam em mais de 1,5 Mbd/ano) com os resultados reais no mundo real durante
os últimos 10 ou 20 anos. Isto leva ao mesmo resultado final: o crescimento da produção
mundial de petróleo a esta taxa jamais foi atingido em qualquer período
passado, mas para compreender a sua impossibilidade podemos calcular o número
de "equivalentes ao Iraque", ou "equivalentes à Arábia
Saudita" que devem ser gerados do ar, das águas profundas ou das
pegajosas areias asfálticas (ou "trazendo a democracia" através da
invasão militar do Médio Oriente), para permitir qualquer perspectiva de
petróleo barato sempre em retoma. Ignorando completamente as perdas da capacidade
mundial de produção devidas ao esgotamento, algo mais do que quatro
"novas Arábias Sauditas" devem ser descobertas, provadas,
desenvolvidas e colocadas em abastecimento confiável em menos de 15 anos. Calcular isto em termos de "equivalentes ao Iraque" é mais
difícil do que para a Arábia Saudita porque é difícil saber o que é realmente
a produção iraquiana em qualquer momento; a produção iraquiana agora depende
de que pipeline ou centro de bombagem ainda continua por atacar (e se os
mídia cuidam ou não de relatar as razões reais dos ataques de sabotagem aos
invasores), mas é provável que a produção média esteja abaixo dos 1,6 Mbd. O "fosso da oferta" em 2020 está, portanto, bem acima dos
vinte e três "novos Iraques" da variedade "libertada", se
tomarmos a tendência existente e real da produção iraquiana, os números do
mundo real ao invés daqueles números de diversão e fantasia (conversas sobre
"10 Mbd em 2009") que "peritos" bem pagos como D. Yergin
do CERA orgulhosamente declamaram nos jantares de debate na Casa Branca antes
da decisão do regime Bush de invadir e ocupar o Iraque, naturalmente sem que
o mínimo traço de qualquer arma de destruição maciça tenha sido encontrado. A REALIDADE DO LADO DA PROCURA Uma parte da equação fantasiosa da AIE está entretanto a tornar-se
real: a procura mundial está agora a aproximar-se dos 2,7 Mbd por ano, número
que presumivelmente foi ajustado pelos "peritos" bem pagos da AIE
na sua sede do Chateau de la Muette, em Paris, como a taxa de crescimento
médio anual para o longo período 2000-2020. Isto pode ser comparado com a chamada "taxa de tendência a
longo prazo" de 1,3% ao ano que se manteve desde meados da década de 80
até cerca de 1995, gerando incrementos de procura anual bem abaixo de 1 Mbd para
o consumo mundial de petróleo. Para a BP Amoco, a lutar com determinação para continuar a flutuar
na Rússia (através da compra de políticos substitutos daqueles que vão para a
cadeia ou fogem do país) enquanto tenta recuperar o seu investimento maciço
em pipelines para despachar por navio não impressionantes quantidades de
petróleo do Cáspio de alto custo, contaminado por enxofre e metais pesados,
um único réu pode ser nomeado. Os redactores principais na edição de 2003 da 'Statistical review of
world energy' da BP apontam este culpado: a China. Inesperadamente ou não, este país está a tornar-se rapidamente o
maior produtor industrial do mundo e embora actualmente utilize não mais do
que cerca de 1,7 barris de petróleo per capita por ano está num rápido e
persistente caminho ascendente no consumo de petróleo, gás e electricidade.
Em 2004-2005, mesmo utilizando números da AIE, o crescimento da procura de
petróleo pela China pode atingir 0,6 Mbd, o que se traduz na ascensão da
procura de importações da China de mais de 0,7 Mbd, na medida em que a
produção interna continua o seu declínio acelerado. Ao apontar a China como o único culpado, os bem pagos jornalistas da
BP Amoco e uma molhada de redactores de jornais financeiros podem defender em
alta voz que a liderança da China actue contra o "superaquecimento"
(o crescimento da procura chinesa também se apoia no automóvel para agitar os
preços das commodities não‑petrolíferas), mas isto ignora inteiramente
os outros dois terços do actual crescimento da procura de petróleo ao nível
do mundo em conjunto. Não só a China, mas mesmo a sociedade mais desperdiçadora de
petróleo do mundo — os EUA, que utilizam um recorde de 25 barris por cabeça
por ano — está a aumentar consistentemente a sua procura. A juntar-se ao
segundo e ao primeiro maiores importadores de petróleo do mundo (China e EUA)
está um feixe de novos países industrializados e em re-industrialização que
estão a aumentar rapidamente a sua procura de petróleo, que vão desde a Índia
e os Tigres Asiáticos até ao Brasil e a economias em re-industrialização do
Leste da Europa. No total, isto representa um impressionante aumento de 2,3-2,5 Mbd
por ano, de acordo com as tendências actuais. Menos de 5 meses ou 150 dias de
crescimento da procura mundial de petróleo a esta taxa tornará a principesca
jactância saudita de "elevar as exportações em 0,8 Mbd" uma
necessidade vital — e não a mentira inofensiva destinada a ajudar os
resultados eleitorais da gang de Bush que quase certamente é. NÃO HÁ SAÍDA SENÃO A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA Com uma determinação férrea de negar e combater a realidade, as
lideranças dos principais países que seguem o modelo de crescimento intensivo
em energia americano‑europeu-japonês estão a cada dia a conduzir o
mundo para mais perto do extremo oposto de qualquer coisa
"sustentável", excepto o conflito internacional infindável e o
choque de civilizações. A escassez de petróleo, tornada pior pelo crescimento acelerado da
procura e a estagnação da oferta, pode somente conduzir a alta de preços, e a
seguir aumentá‑los outra vez. Isto só pode ser aceite pelos líderes mais arrogantes e menos
inteligentes, e pelas sociedades por um curto período antes de a invasão e
ocupação de países produtores ser decidida e aplicada como uma "solução
duradoura". Como mostra a tragédia iraquiana, o resultado final da invasão
antecipativa de países produtores de petróleo (para assegurar que o
desempenho da sua produção cumpra as ideias dos chamados peritos) é a guerra
duradoura, simultaneamente civil, internacional, e Norte-Sul. A rivalidade entre as chamadas superpotências e grupos de nações com
armamento nuclear pelas capacidades minguantes de produção de petróleo só
pode aumentar até que claras e corajosas decisões sejam tomadas para limitar
e a seguir diminuir a procura de petróleo e de gás, a longo prazo, numa base
universal e rapidamente progressiva. Para a maior parte das sociedades de energia intensa e
desperdiçadoras de petróleo, o objectivo da transição energética terá de ser
ajustado numa percentagem tão elevada como uma redução de 50% na utilização
de petróleo ao longo de 5-10 anos, o que seria totalmente impossível através
da utilização cega dos truques da política da Nova Economia e da fé cega nos
chamados "mecanismos de mercado". Sem cooperação internacional não será possível qualquer espécie de
programa, tornando a transição energética pelo menos o equivalente do
provavelmente fracassado Tratado de Quioto e do seus processos. Sob as actuais condições do mundo real — mesmo assumindo que o
Iraque possa recuperar o seu anterior pico de produção petrolífera da década
de 80 (4 Mbd) não depois de 2008 — a oferta mundial de petróleo quase
certamente deixará de corresponder à procura dentro de 3 anos. Com o Iraque submerso no conflito, a data em que os mercados
mundiais de petróleo cairão na "sub-oferta estrutural" pode dar‑se
a qualquer momento, mas no final do Outono/princípio do Inverno os stocks
acumulados e extraídos provavelmente mostrarão os mais vigorosos aumentos de
preços. Isto pode acontecer em 2004-05, ou pode ser adiado para 2005-06 se
uma cada vez mais provável depressão pós-eleitoral no princípio de 2005
atingir os EUA e a seguir a Europa e o Japão. |
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* Ex‑perito em política e
programação da DG XVII (Energia) da Comissão Europeia, membro fundador do
"Asian Chapter" da International Association of Energy Economists. O
seu contacto é xtran04@yahoo.com.