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31/07/2004 Uri
Avnery * Trata‑se de uma série
de TV sobre a Rússia. Mas também poderia ser sobre Israel. Ou sobre os
Estados Unidos. Intitula-se "Os oligarcas" e está agora a ser exibida
na televisão israelita. Alguns dos seus episódios são
simplesmente inacreditáveis — ou teriam sido, se não viessem directamente das
pessoas envolvidas no assunto: os heróis da história, que alegremente
jactam-se acerca dos seus desprezíveis feitos. A série foi produzida por
imigrantes israelitas procedentes da Rússia. Os "oligarcas" são
um minúsculo grupo de empresários que explorou a desintegração do sistema
soviético para saquear os tesouros do Estado e acumular pilhagens que montam
a centenas de milhares de milhões de dólares. A fim de preservar a
perpetuação do seu negócio, eles assumiram o controle do Estado. Seis dos
sete eram judeus. Na linguagem popular eles são
chamados "oligarcas" — da palavra grega que significa "governo
de poucos". Nos primeiros anos do
capitalismo russo pós-soviético eles foram os sujeitos arrojados e ágeis que
sabiam como explorar a anarquia económica a fim de adquirir enormes haveres
por um centésimo ou um milésimo do seu valor: petróleo, gás natural, níquel e
outros minerais. Eles usaram todos os truques possíveis, incluindo a trapaça,
o suborno e o assassínio. Cada um deles tinha um pequeno exército privado. No
decorrer da série, eles manifestam-se orgulhosos por contar com grande
pormenor como fizeram isso. Mas a parte mais intrigante
da série relata o modo como assumiram o controle do aparelho político. Após
um período de combate uns contra os outros, decidiram que seria mais
lucrativo para si próprios cooperarem a fim de tomar o comando do Estado. Naquela altura o presidente
Boris Yeltsin estava num declínio agudo. Nas vésperas das novas eleições para
a presidência, a sua classificação nos inquéritos de opinião pública
mantinha-se nos 4%. Ele era um alcoólatra com uma grave doença do coração que
trabalhava cerca de duas horas por dia. O Estado era, na prática, governado
pelos seus guarda-costas e pela sua filha, a corrupção estava na ordem do
dia. O oligarcas decidiram tomar o
poder através dele. Tinham fundos quase ilimitados, controle de todos os
canais de TV e da maior parte dos outros mídia. Puseram tudo isto à
disposição da campanha para a reeleição de Yeltsin, negando aos seus
opositores mesmo um minuto de tempo de TV e despejando enormes somas de
dinheiro neste esforço. (A série omite um pormenor interessante: eles
trouxeram secretamente os mais notáveis peritos americanos em eleições, bem
como copywriters, que aplicaram métodos anteriormente desconhecidos na
Rússia). A campanha deu frutos:
Yeltsin foi realmente reeleito. Nesse mesmo dia teve outro ataque de coração
e passou o resto do seu mandato no hospital. Na prática, os oligarcas
governaram a Rússia. Um deles, Boris Berezovsky, indicou-se a si próprio como
primeiro-ministro. Houve um escândalo menor quando se soube que ele (como a
maior parte dos oligarcas) havia adquirido a cidadania israelense, mas ele
entregou o seu passaporte de Israel e tudo ficou em ordem outra vez. A propósito, Berezovsky
jacta-se de ter provocado a guerra na Chechenia, na qual dezenas de milhares
de pessoas foram mortas e todo um país foi devastado. Ele estava interessado
nos recursos minerais e num pipeline em perspectiva ali. A fim de obter isto,
pôs um fim ao acordo de paz que dava ao país alguma espécie de independência.
Os oligarcas despediram e destruíram Alexander Lebed, o general popular que
concebeu o acordo, e a guerra prosseguiu desde então. Por fim houve uma reacção:
Vladimir Putin, o taciturno e duro operacional da ex‑KGB, assumiu o
poder, tomou o controle dos mídia, pôs um dos oligarcas (Mikhail
Khodorkovsky) na prisão, levou a que os outros fugissem (Berezovsky está na
Inglaterra, Vladimir Gusinsky está em Israel, um outro, Mikhail Chernoy,
supõe-se que esteja escondido aqui). Uma vez que todas as façanhas
dos oligarcas foram públicas, há um perigo de que o caso possa provocar um
aumento do anti-semitismo na Rússia. Na verdade, os anti‑semitas
argumentam que estes feitos confirmam os "Protocolos dos Sábios do
Sião", um documento fabricado pela polícia secreta russa um século
atrás, pretendendo revelar uma conspiração judaica para controlar o mundo. Passando da Rússia para os
Estados Unidos — o mesmo aconteceu, naturalmente, nos EUA, mas há mais de uma
centena de anos atrás. Naquele tempo, os grandes "barões ladrões",
Morgan, Rockefeller et al., todos eles bons cristãos, utilizaram métodos
muitos semelhantes para adquirir capital e poder numa escala maciça. Hoje
isto funciona em modos muito mais refinados. Na presente campanha
eleitoral, os candidatos colectam centenas de milhões de dólares. Tanto
George W. Bush como John Kerry alardeiam o seu talento para levantar enormes
somas de dinheiro. De quem? De pensionistas? Da mítica "velha senhora
com ténis"? É claro que não, mas das cabalas de multimilionários, as
corporações gigantes e os lobbies poderosos (negociantes de armas,
organizações judias, médicos, advogados e assemelhados). Muitos deles dão
dinheiro para ambos os candidatos — só para ficarem do lado seguro. Toda esta gente espera,
naturalmente, receber um bónus generoso quando o seu candidato for eleito.
"Não existe almoço gratuito", como escreveu o economista de
extrema-direita Milton Friedman. Tal como na Rússia, todo o dólar (ou rublo)
investido sabiamente numa eleição renderá um retorno de dez ou cem vezes. A raiz do problema é que os
candidatos presidenciais (e todos os outros candidatos a cargos políticos)
precisam de quantias cada vez maiores de dinheiro. As eleições são combatidas
principalmente na TV e custam somas enormes. Não é uma coincidência que todos
os actuais candidatos nos EUA sejam multimilionários. A família Bush acumulou
uma fortuna a partir do negócio do petróleo (ajudada pelas suas conexões
políticas, naturalmente). Kerry é casado com uma das mulheres mais ricas dos
Estados Unidos, que outrora foi esposa do rei do ketchup, Henry John Heinz.
Dick Cheney foi o chefe de uma corporação enorme que acumulou contratos no
valor de milhares de milhões no Iraque. John Edwards, candidato a
vice-presidente, fez uma fortuna como advogado. De tempos a tempos há
conversas nos Estados Unidos sobre a reforma das finanças eleitorais, mas não
vem daí nada que valha a pena. Nenhum dos oligarcas tem qualquer interesse em
mudar um sistema que lhes permite comprar o governo dos Estados Unidos. Também em Israel a conversa
sobre "Dinheiro e poder" está agora em voga. Ariel Sharon e um dos
seus dois filhos tornou-se suspeito de aceitar subornos de um magnata
imobiliário. Foi bloqueada uma acusação pelo novo procurador-geral, que
acontece ter sido nomeado pelo governo Sharon na altura do caso. Uma outra
investigação quanto a Sharon e os seus filhos ainda está pendente. Ela
refere-se a milhões de dólares que chegaram aos seus cofres eleitores por
caminhos sinuosos, cruzando três continentes. As conexões de Shimon Peres
com multimilionários são bem conhecidas, tal como o são as enormes somas
despejadas por judeus americanos multimilionários para as causas da
extrema-direita em Israel. Um dos oligarcas russos é o proprietário parcial
do segundo maior jornal israelita. Um escândalo político referente
ao ministro israelita da Infraestrutura espalhou-se num caso que envolve
corporações multinacionais a competirem por contratos para o fornecimento de
gás natural à companhia de electricidade israelita, um caso de milhares de
milhões no qual figuras do submundo, políticos e investigadores privados
desempenham os seus papéis. A revelação tornou claro para os israelenses que
aqui, também, políticos do mais alto nível têm estado desde há muito a actuar
como mercenários para interesses financeiros poderosos. Estes factos devem alarmar
todo o mundo que se preocupa com a democracia – em Israel, na Rússia, nos
Estados Unidos e por toda a parte. Oligarquia e democracia são incompatíveis.
Como disse um comentador russo na série de TV sobre a nova democracia russa:
"Eles transformaram uma virgem numa prostituta". |
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Jornalista, escritor e activista da paz israelita. Chefe do movimento de paz
israelita Gush Shalom.