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Maio 2004 O cinismo global de Bush Noam Chomsky * Le Monde
Diplomatique - Edição Brasileira Contrariamente ao que se poderia pensar, as ocupações militares,
mesmo quando realizadas pelos conquistadores mais brutais, podem ser bem sucedidas.
É o caso da invasão da Europa Ocidental por Hitler, ou a da Europa Oriental
pela Rússia, no pós‑guerra. Em ambos os casos, os países ocupados eram
dirigidos por colaboracionistas que dispunham de redes locais, civis e
militares, e eram meramente apoiados pelas tropas do conquistador.
Desenvolveu-se uma corajosa resistência contra Hitler, mas sem ajuda externa
ela teria sido esmagada. Na Europa Oriental (como na própria Rússia), os
Estados Unidos tentaram dar apoio à resistência anti-soviética até ao início
da década de 50, mas sem êxito. Por contraste, observemos a invasão do Iraque. Ela pôs fim a dois
regimes monstruosos, um dos quais temos permissão de citar e o outro, não. O
primeiro foi o regime do tirano; o segundo, as sanções impostas pelos Estados
Unidos e a Grã‑Bretanha, que mataram centenas de milhares de pessoas,
devastaram a sociedade, reforçaram o poder do tirano e obrigaram a população
a depender dele para a sua sobrevivência (por meio do racionamento) –
preservando, dessa forma, Saddam Hussein do destino que tiveram outros
ditadores apoiados por diversos governos dos Estados Unidos, particularmente
por parentes e amigos do actual governo norte‑americano – tais como
Suharto, Marcos, Duvalier, Ceaucescu, etc., que foram depostos por uma
oposição interna. Tal perspectiva era plausível antes da guerra. Ninguém duvida que a população tenha recebido com satisfação o fim
das sanções e o fim do regime de Saddam Hussein. Os opositores à guerra no
Iraque no mundo inteiro também, embora esse facto tenha sido ocultado. Mas
teria sido possível suprimir o regime das sanções sem a guerra; além do que,
se elas tivessem sido abolidas, a população poderia ter conseguido se livrar
da ditadura. A investigação realizada pelo inspector David Kay, nomeado pelo
presidente Bush após a vitória, não só desmentiu, de maneira absolutamente
clara, a pretensa detenção de armas de destruição em massa pelo Iraque, como
demonstrou, além do mais, que o poder exercido por Saddam Hussein, nos anos
que precederam a invasão norte-americana, era muito frágil. Isto confirmou, a
posteriori, as teses de inúmeros especialistas que conheciam bem a situação
interna iraquiana. Dois coordenadores do programa de ajuda humanitária da
Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, Denis Halliday e Hans von
Sponeck [1], haviam repetido inúmeras vezes que se o boicote e as sanções
impostas por Washington e Londres tivessem poupado a população, os próprios
iraquianos teriam deposto o seu tirano. Infâmia comparável a Pearl Harbor Todos sabemos que as intervenções militares podem ter efeitos
secundários positivos: o bombardeio de Pearl Harbor pela aviação japonesa em
Dezembro de 1941, por exemplo, levou à expulsão das potências imperiais
ocidentais da Ásia, poupando, dessa maneira, milhões de vidas que teriam se
perdido. Seria isso uma justificativa para o fascismo japonês e os seus
crimes? É evidente que não. Todo o mundo reconhece que a agressão japonesa
contra os Estados Unidos foi um crime de guerra, o “crime capital”, segundo o
Tribunal de Nuremberga. Foi com toda a razão que Arthur Schlesinger, o mais respeitado
historiador norte‑americano, lembrou esse precedente de Pearl Harbor
quando começaram os bombardeios do Iraque. O presidente Franklin D. Roosevelt,
escreveu ele, tinha motivos para dizer que o ataque japonês era uma data
memorável na história da infâmia e que os norte-americanos deveriam viver com
o ataque contra Bagdade como uma infâmia comparável à política imperial
japonesa. Com o fim dos dois regimes – o das sanções e o de Saddam Hussein – os
Estados Unidos dispunham de recursos imensos para reconstruir o Iraque. A
população estava aliviada e a resistência praticamente não contava com
qualquer apoio externo. Mas ela se desenvolveu fundamentalmente a partir de
dentro, como uma resposta à violência e brutalidade dos invasores. Foi
necessário um verdadeiro talento para conseguir fracassar... “Santuário de terroristas” Isto porque a invasão desencadeou um ciclo de violência que, por sua
vez, produziu ainda mais violência, como provam os terríveis combates
travados em Falluja – e nos quais são os civis as principais vítimas. Embora
jamais tenham existido vínculos entre o antigo regime iraquiano e a rede
terrorista Al-Qaida, todo o mundo concorda que o “Iraque ocupado” se tornou
um “santuário de terroristas”, como observou, no New York Times [2], Jéssica
Stern, especialista em terrorismo da Universidade de Harvard. A guerra contra o Iraque foi decretada apesar da oposição da opinião
pública internacional, que receava que tal agressão conduzisse à disseminação
do terrorismo. O governo Bush considerou esses riscos insignificantes, quando
comparados com a perspectiva de assumir o controle do Iraque e das suas
riquezas, de lançar a primeira “guerra preventiva” e de reforçar o seu domínio
sobre o cenário interno norte‑americano. Por outro lado, a “guerra contra o terrorismo” fracassou e os
atentados sangrentos multiplicaram‑se pelo mundo inteiro. Para a
desgraça dos seus moradores, não pára de aumentar o número de cidades
atingidas pelo terrorismo desde o 11 de Setembro de 2001 e, principalmente,
após a invasão do Iraque. Elas já são hoje Bagdade, Casablanca, Istambul,
Jacarta, Jerusalém, Haifa, Ashdod, Mombassa, Moscovo, Riad, Madrid e Damasco.
Nesse ritmo, é possível prever um cenário em que o terrorismo e as armas de
destruição em massa acabem por se unificar numa mesma organização cujos
ataques poderiam assumir proporções realmente aterradoras. Fracasso surpreendente O conceito de “guerra preventiva”, tão caro a George W. Bush, revelou
a sua verdadeira natureza: trata-se de um simples eufemismo para poder atacar
quem quer que seja. Foi o carácter arbitrário e perigoso dessa doutrina – e
não, unicamente, a sua concretização no Iraque – que desencadeou, em Fevereiro
de 2003, a grande onda de protestos contra a invasão, rejeição que se ampliou
desde então, principalmente devido à incapacidade de Washington provar que o
regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Desde Abril de 2003 que as pesquisas junto à opinião pública
revelavam que os cidadãos norte-americanos desejavam que a ONU assumisse, no
pós-guerra, a principal responsabilidade de reconstruir política e
economicamente o Iraque. Apesar de tudo, o fracasso da ocupação é
surpreendente, considerando-se o poder militar e os recursos de que dispõem
os Estados Unidos. Esse fracasso forçou o governo Bush a dar marcha à ré,
resignando-se a pedir a ajuda das Nações Unidas. Estas se perguntam se o
Iraque poderia vir a ter um status que não fosse o de vassalo de Washington.
Os Estados Unidos construíram em Bagdade a sua maior missão diplomática do
mundo, com 3 mil funcionários, o que significa de maneira bastante clara que
a transferência de soberania, prevista para o próximo dia 30 de Junho, será
consideravelmente restrita. Esse sentimento foi reforçado pela exigência norte-americana de
manter no Iraque importantes bases militares e uma presença considerável das
suas tropas. Essa vontade de avassalar Bagdade também pode ser identificada
nas ordens dadas por Paul Bremer, o pró-cônsul de Washington, no sentido de
que a economia local permaneça aberta e controlada por estrangeiros. A perda
de controle sobre a economia restringe de forma radical a soberania política,
assim como as perspectivas de um desenvolvimento saudável. Essa é uma das
lições mais claras da história. Jamais algum país colonizado conseguiu se
desenvolver enquanto a sua política e a sua economia fossem dominadas pela
potência invasora. O factor eleitoral Em Dezembro de 2003, uma pesquisa da organização PIPA/Knowledge
Networks revelou que a própria população norte-americana apoia com
reticências a decisão do governo Bush de manter uma grande presença militar
no Iraque em carácter permanente. Essa preocupação popular decorre do facto
de que as pessoas não acreditam que a causa seja justa. A oferta eleitoral nos Estados Unidos é bem restrita e as pessoas
sabem que, em geral, as eleições são compradas nos Estados Unidos. Às vezes,
o candidato democrata, John Kerry, é descrito como um “Bush carente de
calorias”. No entanto, as duas facções do que se convencionou chamar o
“Partido dos Patrões” têm propostas políticas distintas. Os pequenos detalhes
que, à saída, separam os dois candidatos, podem vir a transformar‑se,
à chegada, em impactos gigantescos e de natureza bastante contraditória, caso
o eleito seja Bush ou Kerry. Isso pode ocorrer no próximo mês de Novembro,
como ocorreu em 2000, quando os candidatos eram Bush e Gore. Bush formula a sua doutrina da seguinte maneira: «Livrar o mundo do
Mal e do terrorismo». «Declarar guerra ao terrorismo é também declarar guerra
a qualquer Estado que dê abrigo a terroristas. Pois um Estado que abriga
terroristas em seu território é, ele próprio, um Estado terrorista e como tal
deve ser tratado», afirmou após o 11 de Setembro de 2001. Em nome dessa
doutrina, Bush desencadeou a guerra no Afeganistão, em 2001, e no Iraque, em
2002. E ameaça outros países, como a Síria. Às vezes, dá até para questionar
se Bush é realmente coerente, pois existem inúmeros outros países que abrigam
terroristas, que os protegem, e que não são bombardeados, nem invadidos. A
começar... pelos próprios Estados Unidos! É sabido que, desde 1959, os Estados Unidos deram apoio a acções
terroristas contra Cuba. Houve a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, rajadas
de metralhadoras, a partir de aviões, contra civis, bombas colocadas em
locais públicos, em Havana e outras cidades, o assassinato de funcionários do
governo, a destruição, em pleno voo, de um avião da empresa aérea cubana, em
1976, que provocou a morte de 80 pessoas, assim como foram organizadas
dezenas de complôs para assassinar Fidel Castro. Um dos terroristas
anticastristas mais famosos, acusado de ser quem planejou o atentado contra o
avião comercial, em 1976, é Orlando Bosch. Em 1989, George Bush, o pai,
cancelou uma decisão do Departamento de Justiça que recusava o pedido de
asilo feito por Bosch. Este vive até hoje tranquilamente nos Estados Unidos,
onde prossegue com as suas actividades anticastristas. Os “combatentes da liberdade” A lista de terroristas refugiados nos Estados Unidos também contempla
Emmanuel Constant, do Haiti, conhecido pelo apelido de “Toto” e ex-líder
paramilitar da época dos Duvalier. “Toto” foi o fundador da Frente
Revolucionária pelo Avanço e o Progresso do Haiti (FRAPH), uma milícia paramilitar
que, obedecendo às ordens da Junta que depôs o presidente Aristide,
aterrorizou a população entre 1990 e 1994. Segundo informações obtidas
recentemente, “Toto” está morando no bairro de Queens, em Nova York. E
Washington recusou o pedido de extradição formulado pelo Haiti. Por quê?
Porque “Toto” poderia revelar os vínculos entre os Estados Unidos e a Junta,
responsável por ter mandado assassinar – pelos homens da FRAHP – de 4 mil a 5
mil haitianos... É bom acrescentar que, entre os gângsteres que participaram,
junto às tropas norte-americanas, do recente golpe de Estado contra o
presidente Aristide, encontram-se vários ex-dirigentes da organização
terrorista FRAHP... Washington resiste a entregar gente que lhe prestou bons serviços,
mesmo quando se trata de terroristas. Em Fevereiro de 2003, por exemplo, a
Venezuela pediu a extradição de dois oficiais que participaram do golpe de
Estado de 11 de Abril de 2002 e, em seguida, organizaram um atentado em
Caracas antes de fugirem para Miami, onde encontraram abrigo. Isto porque nem todos os terrorismos são da mesma natureza. E os que servem aos interesses dos Estados Unidos não poderiam ser qualificados pela expressão vilã de “terroristas”. Eles são os novos “combatentes da liberdade”, que é o termo empregado pelos meios de comunicação quando se referiam a Osama bin Laden – nos tempos em que ele praticava acções terroristas contra os soviéticos e a serviço de Washington... |
________
* Professor no
Massachusetts Institute of Technology (MIT), Boston, Estados Unidos. Autor, entre muitos outros, do livro Piratas e
Imperadores. Velhos Novos, Publicações Europa‑América.
[1] Ler o
artigo de Denis Halliday, “Des sanction qui tuent”, Le Monde Diplomatique, Janeiro
de 1999.
[2] Ler, de Jessica Stern, “How America Created a
Terrorist Haven”, The New York Times, 20 de Agosto de 2003.