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Julho 2004 As origens da nova crise
do petróleo Nicolas Sarkis * Le Monde
Diplomatique - Edição Brasileira Quais são as causas da actual e grande alta dos preços do petróleo?
Trata-se de um fenómeno conjuntural e passageiro ou do início de um ciclo de
crescimento duradouro dos preços da energia? Enfim, é como alguns temem o
sinal precursor de um novo e grande choque petroleiro provocado pelo
desequilíbrio nos ritmos de desenvolvimento da oferta e da procura? Essas perguntas e esses temores são ainda mais legítimos porque o
mercado petrolífero entrou em ebulição dois meses depois da invasão do Iraque
em Março-Abril de 2003, quando alguns esperavam um aumento rápido da produção
iraquiana e uma baixa dos preços de cerca de 20 dólares por barril. O aumento
completamente inesperado dos preços até se acelerou no início da primavera de
2004, ou seja, exactamente no período em que a procura mundial registrou uma
baixa sazonal de aproximadamente 2 milhões de barris por dia. A redução constatada após a última reunião da Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (OPEP [1]), em 3 de junho de 2004, e a notícia de um
aumento dos estoques nos Estados Unidos, no entanto, não dissiparam as
inquietações. A demanda mundial deverá, de facto, aumentar no próximo mês, e
os principais factores que fizeram explodir os preços para mais de 40 dólares
por barril não desapareceram. Esses factores dizem respeito ao contexto
geopolítico mundial e, ao mesmo tempo, ao jogo mecânico do mercado. O peso do Iraque e da Arábia Saudita Se a situação no Iraque não
fosse o que é, e se a Arábia Saudita continuasse protegida dos atentados,
evidentemente a explosão dos preços não teria sido tão rápida. No Iraque, a
insegurança e as repetidas sabotagens nas instalações petrolíferas fizeram a
produção cair para 1,33 mbpd (milhões de barris de petróleo por dia) em 2003,
em comparação aos 2,12 mbpd em 2002, ano que precedeu a última guerra. Apesar
de uma alta para 2,3 mbpd em Maio de 2004, a produção continua bem aquém dos
níveis de 1999-2001. Por outro lado, os contratos negociados ou assinados, pelo regime deposto, com várias empresas internacionais, com o objectivo de explorar novas jazidas, e dobrar a produção em um prazo de seis a oito anos, foram congelados. Quanto à Arábia Saudita, principal exportador de petróleo do mundo, os atentados que ali se sucederam – principalmente aqueles que visavam um complexo petroquímico e zonas petroleiras – provocaram um choque. A multiplicação desses atentados levou naturalmente ao temor da sua repetição na Arábia Saudita, no Iraque ou em outros lugares no Golfo que tivessem como consequências possíveis perturbações ou interrupções mais ou menos longas das exportações. A grande diferença em relação ao que se passou em 1973 ou em 1979 é que, actualmente, não se trata de um embargo decidido por governos estabelecidos ou de uma mudança de regime político (como no Irão após a revolução islâmica), mas de acções terroristas completamente invisíveis, cometidas por grupos sem cara. E o que é pior: as ameaças de desestabilização que o regime saudita enfrenta desde então colocam em questão a possibilidade desse país continuar a desempenhar o seu papel preponderante na satisfação das necessidades mundiais de petróleo. “PrÉmio de risco” De maneira geral, as tensões
provocadas pela degradação da situação no Iraque e na Arábia Saudita são, em
grande parte, responsáveis pela última alta dos preços, considerada “prémio
de risco”. Esse último, avaliado entre 6 e 10 dólares por barril conforme as
circunstâncias, compreende tanto a alta dos custos do seguro quanto as quedas
das compras especulativas nos mercados a prazo para as quais os bancos de
investimento destinaram dezenas de bilhões de dólares. As tensões geopolíticas e as
compras especulativas, na realidade, ampliaram um movimento de alta que fixa as
suas raízes na evolução da oferta e da procura. Em relação a isso, três
principais factores merecem ser enfatizados. O primeiro, que se tem tendência a esquecer, diz respeito ao impacto dos conflitos étnicos e das greves na Nigéria na produção petrolífera daquele país. A greve que paralisou a indústria de petróleo na Venezuela em 2003 também levou a uma grande queda da produção petrolífera nesse país. O segundo reside nos gargalos
de estrangulamento da refinaria nos grandes países consumidores. No âmbito
mundial, e em resposta os sub-investimentos dos últimos anos, actualmente a
capacidade não ultrapassa 83,6 mbpd, um pouco mais que o pico de 82,5 mbpd da
procura registrada em Fevereiro de 2004. Além disso, a estrutura dessa
capacidade não é mais adaptada à evolução das necessidades de produtos
refinados. É sobretudo o caso dos Estados Unidos, que consomem nada menos que
9,6 milhões de barris por dia, e em que a falta de gasolina começou a se
manifestar desde o início da driving season [2] em Maio, provocando ao
mesmo tempo uma enorme elevação dos preços. O aumento dos preços dos produtos
refinados naturalmente levou à alta dos preços do petróleo bruto. O terceiro factor foi a decisão, anunciada em 10 de Abril pela OPEP, de reduzir o seu tecto de produção para 23,5 mbpd e os vivos protestos que esta suscitou nos países industrializados, provocando um aumento das tensões e acentuando a alta dos preços. No entanto, os países da OPEP não reduziram a sua produção efectiva, e a oferta global continuou então suficiente para cobrir a procura. Jogo de esconde-esconde Eis o que ilustra a opacidade
das estatísticas que circulam a propósito dos dados do mercado petroleiro.
Por mais surpreendente que possa parecer, os países membros da OPEP não
divulgam cifras sobre a sua produção efectiva, a não ser com muitos meses de
atraso. O que leva à confusão entre as suas cotas teóricas de produção e sua
produção efectiva que, geralmente, ultrapassa as cotas. Operadores e
observadores entram, então, em um curioso jogo de esconde-esconde através do
exercício bem difícil, que consiste em acompanhar os movimentos dos navios
petroleiros que saem dos portos de carregamento e em se dirigir a fontes
secundárias a fim de avaliar, tanto quanto possível, o volume do petróleo
produzido diariamente pelos países exportadores. A falta de transparência não
diz respeito apenas aos dados reais da produção. Ela dificulta também o
problema da capacidade de produção e de evolução da capacidade não-utilizada
nos diferentes países exportadores. Trata-se de uma questão que se torna particularmente
crucial quando a capacidade não-utilizada é fraca, como acontece actualmente. Segundo as estimativas mais confiáveis, a capacidade não-utilizada é da ordem de 2,5 a 3 mbpd no mundo, a maior parte dela na Arábia Saudita, enquanto os países que não são membros da OPEP, assim como a maior parte dos países membros, produzem em regime pleno. Bastaria, então, uma perturbação maior nas exportações sauditas ou iraquianas, uma greve ou um acidente em qualquer um dos principais países exportadores para provocar um déficit da oferta e um novo acesso de febre no mercado. Esse risco também contribuiu para a última alta dos preços, principalmente porque a retoma esperada da procura mundial na segunda metade deste ano prejudicará a fraca capacidade ainda disponível. Buraco negro nas estatísticas Há um outro grande buraco
negro nas estatísticas sobre o petróleo: as suspeitas relativas aos dados
publicados sobre as reservas comprovadas e a confiabilidade das projecções no
médio e longo prazo, que se baseiam na oferta e na procura globais. Quando
uma empresa internacional, cotada na bolsa como a Shell, efectua no espaço de
poucos meses revisões em baixa de cerca de um quarto das suas reservas, não é
de espantar que se manifestem perguntas a propósito das cifras publicadas por
outras empresas privadas. Mais graves são as dúvidas
que, há anos, suscitam as estatísticas oficiais sobre as reservas comprovadas
da Rússia e dos principais países membros da OPEP. Pois as reservas
consideradas comprovadas não são verificadas por órgãos independentes. O
problema é muito grande: as das oito principais empresas nacionais dos países
da OPEP são, em princípio, de 662 bilhões de barris, em comparação a somente
57 bilhões de barris detidos pelas oito maiores empresas internacionais. A recente
controvérsia suscitada pelo relatório Simmons [3] a propósito do estado das
jazidas sauditas e das reais possibilidades de desenvolvimento das reservas
da Saudi Aramco, que representam cerca de um quarto do total mundial,
exacerbou as inquietações. Diante de uma demanda mundial que deverá passar de 80,3 mbpd, em 2004, para cerca de 120 mbpd no horizonte de 2025, ou seja, mais do dobro do nível de trinta anos atrás, a oferta vai poder acompanhar? A maior parte dessa última pode ser garantida somente pelo Oriente Médio, cuja produção deveria então mais que dobrar nesse meio tempo para evitar a penúria. No médio prazo, os obstáculos são de natureza essencialmente política, isto é, a necessidade de um clima favorável a investimentos colossais avaliados em cerca de 27 bilhões de dólares por ano nessa região. Estamos bem longe disso. Em um prazo mais longo, a grande incógnita, no Oriente Médio e em outros lugares do mundo, diz respeito à data que marcará, em um país após outro, o pico da produção e o início do seu irreversível declínio. Temporada de caça Os debates que se deram na Conferência Internacional organizada no último mês de maio em Berlim pela Association for the Study of Peak Oil (ASPO) [Associação para o estudo do pico do petróleo] não são tranquilizadores. Quaisquer que sejam os pontos de vista das duas escolas ditas “optimistas” e “pessimistas”, as descobertas são poucas e cada vez menos importantes: uma única jazida gigantesca (Kashagan, no Casaquistão) foi descoberta durante os últimos trinta anos, e as novas descobertas não compensam o petróleo extraído anualmente. Como disse tão bem um geólogo, a exploração petrolífera tornou-se igual às temporadas de caça em que os progressos tecnológicos permitiram ao caçador melhorar o desempenho dos seus fuzis, mas a presa torna-se cada vez menor e mais rara. Outra realidade a salientar: de 2001 a 2025, o grande aumento das necessidades mundiais e o declínio das reservas e da produção nos países industrializados farão a dependência dos Estados Unidos em relação ao ouro negro importado passar de 55,7% para 71%, a da Europa ocidental de 50,1% para 68,6% e a da China de 31,5% para 73,2%, sem esquecer os outros países consumidores. Essa dependência crescente, em uma área tão vital como a de energia, explica a “guerra pelo petróleo” em que entram as grandes potências e suas empresas petrolíferas para controlar as reservas do Oriente Médio, da África [4] ou da Ásia Central, sem esquecer a última guerra do Iraque [5]. Esgotamento lento e inexorável Portanto, não é sem motivos
que a interpretação da última alta dos preços é polémica: não se trata do
sinal precursor de um grande choque que poderia ser provocado, mais cedo ou
mais tarde, devido à inadequação entre necessidades, que aumentam em um ritmo
intenso, e a capacidade de produção que perde o fôlego? O desenvolvimento dessa
capacidade nos próximos anos depende tanto da estabilidade política,
sobretudo no Oriente Médio, quanto do volume de reservas ainda disponíveis.
Em um prazo mais longo, o esgotamento – lento, mas inexorável – de reservas
torna cada vez mais inevitável a transição progressiva para fontes de energia
diferentes do petróleo. Além da estabilidade política, essa transição exige preços da energia suficientemente atraentes para tornar possíveis investimentos energéticos mundiais avaliados pela Agência Internacional de Energia em 16.480 bilhões (de dólares, em 2000) no período de 2001 a 2030, tanto nas indústrias petrolíferas e de gás de cozinha quanto para o desenvolvimento de outras fontes de energia. Nesse sentido, pode-se dizer que os temores suscitados pela última alta de preços do petróleo são salutares, uma vez que perturbam a anestesia quase geral resultante de uma oferta, até aqui, mais que suficiente e dos preços do petróleo que não ultrapassam actualmente, em dólar constante, o seu recorde de há 25 anos atrás. |
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Director do Centro árabe de estudos petroleiros e do boletim Le Pétrole et
le gaz arabes
[1] A OPEP comprende onze países: Arábia Saudita, Iraque,
Irã, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Líbia, Nigéria, Venezuela
e Indonésia.
[2]
Época do ano em que há um considerável aumento dos automóveis nas estradas,
graças a uma estabilidade do clima com o final do inverno e a chegada da
primavera em abril. (N.T.)
[3] Matthew Simmons, que preside o banco de investimentos
Simmons & Cia, conselheiro do vice-presidente americano Richard Cheney e
que inspirou a nova política energética dos Estados Unidos.
[4] Ler, de Jean-Christophe
Servant, Offensive sur l’or noir africain, Le Monde diplomatique, Janeiro de
2003.
[5] Ler, de Yahya Sadowski,
Vérités et mensonges sur l’enjeu pétrolier, Le Monde diplomatique, Abril de
2003.