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01/08/2004
Simmons tem a esperança de
estar errado
F. Jay Schempf
Petroleum News
Matt Simmons tem a esperança de estar errado.
Mas se ele estiver certo na sua crença de que os campos petrolíferos gigantes
da Arábia Saudita já atingiram o pico e poderiam entrar num rápido declínio
em apenas uns três anos, é melhor que alguém tenha um "Plano B"
preparado ou não haverá, afirma ele, absolutamente nenhum meio de evitar um
cataclismo energético mundial.
Palavras fortes. Mais fortes, talvez, do que quaisquer outras expressas antes
sobre energia. Simmons pronunciou-as e, além disso, numa apresentação feita
em 9 de Julho, em Washington, numa reunião sobre o futuro da Arábia Saudita.
O Hudson Institute patrocinou a reunião.
Simmons pediu para alguém, incluindo os próprios sauditas, refutar a sua
afirmação. Mas até agora, segundo ele, ninguém o fez. Ele reconhece,
entretanto, que os sauditas recentemente têm estado mais acessíveis quanto à
sua capacidade para fornecer todo o petróleo extra que o mundo exija dos
campos sauditas. Mesmo assim, parece que ninguém está desejoso de se
contrapor às suas alegações específicas.
Simmons sabe do que fala. Ele vê o quadro da oferta mundial de petróleo do
ponto de vista vantajoso de quem tem 30 anos de experiência como fundador da
Simmons & Company International, de Houston, que hoje é um dos maiores
grupos de bancos de investimento do mundo. Desde a abertura do primeiro
escritório em Houston, no ano de 1974, Simmons e o seu grupo tem orientado
uma vasta base de clientes a completar mais de 500 projectos bancários de
investimento em petróleo e gás num valor combinado de uns US$ 58 mil milhões.
A companhia agora tem sucursais em Boston, Londres e Aberdeen, Escócia.
UNS POUCOS CAMPOS PRODUZEM QUASE TODO O PETRÓLEO SAUDITA
Mas todo o capital de investimento do mundo não será de muita ajuda se, como
suspeita Simmons, a Arábia Saudita não puder abrir mais a torneira dos seus
campos petrolíferos chave como o produtor "de serviço" do mundo
para atender ao constante crescimento da procura mundial de petróleo. Ao
contrário da opinião generalizada, a "prenda" de petróleo da Arábia
Saudita para o mundo, pelo menos na visão de Simmons, não continuará a ser
dada.
Apesar de recentes comentários da Saudi Aramco de que descobriu 85 campos
petrolíferos no país e até agora desenvolveu só 23 deles, Simmons afirma que
apenas um punhado de campos representa virtualmente toda a produção saudita.
O maior de todos, Ghawar — o maior campo petrolífero do mundo — tem
representando cerca de 60 por cento de todo o petróleo que o país já
produziu, afirma ele. Hoje, acrescenta, Ghawar ainda produz cerca de 5
milhões de barris por dia da actual produção saudita de 7,5 a 8,0 milhões
bpd. Cinco outros campos produzem o remanescente: Abqaiq, Safaniyah, Zuluf,
Berri e Shaybah.
Mas todos estes seis campos, observa, têm mais de 30 anos. Abqaiq foi
descoberto em 1940, Ghawar em 1948 e Safaniyah em 1951. Os últimos três foram
descobertos em meados da década de 1960.
NÃO HÁ SEGUNDO ACTO
Normalmente, declarou Simmons numa entrevista em 23 de Julho à Petroleum
News, os campos sauditas estariam sujeitos às mesmas curvas de declínio
experimentadas por quaisquer campos petrolíferos do mundo, uma vez que a
pressão do reservatório começa a reduzir-se. A diferença, diz ele, é que a
Saudi Aramco esforçou-se por conseguir, quase desde o princípio, manter as
pressões nos reservatórios — e as taxas de fluxo dos furos individuais — tão
elevadas quanto possível, aparentemente por um período tão longo quanto
possível.
Em termos simples, considera Simmons, os sauditas têm realizado nos seus
campos simultaneamente as recuperações primária e secundária, para tal tendo
instituído desde relativamente cedo enormes programas de injecção de água
após completarem o desenvolvimento dos campos.
«Todos estes campos são velhos», destaca, «mas a Saudi Aramco administrou-os
num estilo 'gold standard' ao instituir cuidadosas e rigorosas injecções de
água a fim de manter pressões muito elevadas nos reservatórios. Eles estão
efectivamente a varrer os reservatórios até que todo o óleo facilmente
recuperável tenha saído. Ao fazer isso, desafiaram as curvas de declínio
padrão. Com essa injecção de água mantiveram pressões nos reservatórios acima
do ponto de emergência. O perturbador é que, uma vez que tenham finalmente
acabado de os varrer, terão efectuado tanto o esgotamento primário como o
secundário. Não haverá 2º acto.»
Aparentemente, o conhecimento pormenorizado deste duplo mergulho não tem sido
comum. Os números da produção saudita e as estatísticas de campo foram
encarados amplamente como segredos de Estado a partir da década de 1980. No
entanto, diz Simmons, a maior parte dos estudos da oferta de petróleo mundial
assumem que a produção saudita é praticamente inexaurível e pode ser
aumentada quase sem esforço a partir de qualquer procura que o mundo dite.
NÃO HÁ NOVOS CAMPOS GIGANTES NA ARÁBIA SAUDITA
Mas hoje há dados suficientes no domínio público, considera Simmons, que,
quando combinados e analisados, revelam um quadro muito diferente.
Durante a última década ou mais, afirma, a falta de dados de campo seguros em
relação à maior parte dos países produtores, particularmente de países
membros da OPEP e mesmo mais particularmente da Arábia Saudita, tornou
extremamente difícil à sua companhia planear diferentes cenários de
investimentos em energia para os seus clientes.
Assim, Simmons instituiu um estudo de 12 meses sobre apresentações técnicas
da actividade em campo petrolíferos na Arábia Saudita efectuadas em
diferentes reuniões por todo o mundo pela Society of Petroleum Engineers,
principiando em 1961 e indo até 2003. O estudo reuniu mais de 200 de tais
documentos técnicos, diz ele, efectuados sobretudo por companhias de serviços
nos campos petrolíferas e tratando de aspectos altamente técnicos em todos os
seis campos gigantes sauditas.
«Cada documento individual não nos conta muito», diz ele. «Mas, percorrendo
esta incrível acumulação de documentos e a seguir voltando atrás e isolando
cada um por campo específico eles tratam daquilo que, cronologicamente,
poderia ser considerada a história do que se tem passado na Arábia Saudita
durante este período de tempo».
Se bem que o estude revele toda uma "ladainha" de surpresas, afirma
Simmons, a mais importante delas é que enquanto os seis campos gigantes da
Arábia Saudita têm representado tudo o que a Arábia Saudita tem produzido até
agora, há evidências suficientes para argumentar que, uma vez que aqueles
campos estejam em declínio, os sauditas não terão muitos outros meios de
extrair novo petróleo.
A Saudi Aramco explorou o país cuidadosamente, considera Simmons, e daí não
resultaram novos campos 'gigantes'.
«Enquanto isso, a administração superior da Saudi Aramco é inflexível em que
os seus actuais campos estão em grande forma e podem confiavelmente produzir tanto
quanto 15 milhões bpd por mais 50 anos», diz Simmons. «Eles também insistem
em que as suas reservas provadas são realmente conservadoras e que ainda há
outros 200 mil milhões de barris por serem descobertos em vários bolsões
inexplorados da Arábia Saudita». O mundo tem apenas a palavra da companhia
sobre isto, observa Simmons.
A NOVA TECNOLOGIA NÃO CONSEGUIRÁ ISTO
Ele acrescentou que os administradores da Saudi Aramco também acreditam «com
alguma paixão» que as ferramentas tecnológicas que estão agora a empregar
conteriam a ascensão da água nos campos existentes. Tais ferramentas,
observou, incluem furos horizontais e de longo alcance (horizontal and
extended-reach wells) e terminais múltiplos de furos (multi-lateral
well completions), entre outras.
«A minha preocupação é que demasiadas outras companhias de petróleo por todo
o mundo também acreditem que estas mesmas ferramentas lhes permitiriam
aumentarem firmemente a sua produção a partir de uma reduzida quantidade de
furos efectuados», diz ele. «Ao invés disso, verificou-se que virtualmente
todo o produtor chave de petróleo que utilizou estas mesmas ferramentas
acabou tristemente por ver o crescimento da sua produção definhar».
Se bem que as ferramentas extraíssem mais petróleo por furo, explicou, elas
também aceleraram a recuperação do petróleo económico. Por sua vez, isto
criou taxas de declínio nunca vistas antes na actual produção.
Simmons reuniu as descobertas e conclusões do seu estudo e actualmente está a
escrever um livro, o qual planeia auto-editar no fim deste ano.
APELOS À TRANSPARÊNCIA OBRIGATÓRIA DAS RESERVAS DE PETRÓLEO
Mas sem considerar quem está certo ou errado, diz Simmons, a solução para
determinar se os campos sauditas podem atender à procura sempre ascendente é
muito simples. Adoptar um padrão muito mais elevado de transparência nos
dados petroleiros e começar a relatar periodicamente, campo por campo, as
estatísticas de produção, suportadas pelo número médio de furos produtores em
cada campo, e ter isto verificado por uma terceira parte confiável.
«Eu também gostaria de vê-los actualizar as suas estimativas, por campo, do
petróleo original in situ, pela recuperação estimada final (estimated
ultimate recovery) e pela produção acumulada», disse ele. «Uma vez que se
tenham estes dados, qualquer analista pode determinar num dia se tudo está
bem na Arábia Saudita, ou se é 'Katy, feche a porta! Este campo está prestes
a entrar num declínio muito acentuado".
Ele observou que uma exigência obrigatória de maior transparência nas
reservas de petróleo deveria ser efectuada em base global. Contudo, até agora
só a International Energy Agency, com sede em Paris, está a trabalhar para
montar um tal programa. Embora voluntário, o programa pelo menos apela a
maior transparência por parte das nações produtoras de petróleo, disse ele.
No entanto, sem tal informação e sem que ela seja proporcionada muito
rapidamente, o mundo poderia deparar-se com uma enorme surpresa, considera
Simmons. Na sua opinião, as grandes crises surgem do facto de se ignorarem os
grandes problemas, e quanto mais cedo o mundo estiver consciente de um
problema, mais cedo uma solução — "Plano B" — poderá ser alcançada.
Ele afirma que se houvesse maior transparência da oferta de petróleo, o preço
actual provavelmente não variaria do modo como o fez no passado. «O
conhecimento acrescido do que está realmente em andamento no negócio da
energia versus a percepção do que nós pensamos que está em andamento, ajudará
as pessoas a entenderem que precisamos nos habituar a altos preços de energia
e que US$ 40 por barril de petróleo não é perigoso», declara Simmons.
O que é perigoso, afirma ele, é US$ 40 por barril ainda estar demasiado
barato.
A DIFERENÇA NÃO PODE SER PREENCHIDA A PARTIR DE QUALQUER OUTRO LUGAR
Mas a perspectiva ainda é extremamente grave, considera.
«Se eu estiver correcto nas minhas preocupações, a Arábia Saudita está agora
a produzir mais do que deveria para manter a sua produção de óleo», asseverou
impassível. «Quanto mais depressa se puxa um campo pela sua produção, mais
rapidamente se conduz ao fim da pressão no seu reservatório. Assim, eu
poderia argumentar que para o bem estar do mundo a Arábia Saudita
provavelmente deveria retroceder e passar a produzir 3 a 4 milhões bpd de
modo que o seu petróleo possa perdurar outros 30 a 50 anos. Contudo, eles já
podem ter atingido o pico da sua capacidade de aumentar a produção de
petróleo, e, se for assim, o mundo também atingiu o pico».
Poderia a diferença ser coberta por outras áreas produtoras de petróleo do
mundo? Mais uma vez, Simmons duvida. Nem da África Ocidental, diz ele. Nem da
Rússia, tão pouco. E, actualmente, combustíveis alternativos também não
poderão cobrir. Nem o gás natural, cujas estatísticas de oferta global são
ainda mais turvas do que as do petróleo. Nem combustíveis a hidrogénio, uma
vez que eles exigem uma fonte de energia primária. Nem mesmo a energia
nuclear, a qual ele considera que levaria décadas para aumentar, quase sem
qualquer pista de quanto urânio continua a existir no mundo.
«Não há qualquer hipótese que se possa avançar, por qualquer esforço de
imaginação, baseado em qualquer coisa que conheçamos, que se pudesse
encontrar para cobrir a diferença», afirma Simmons. «Esta poderia tornar-se a
maior questão energética que o mundo já enfrentou desde sempre».
Entre todas as ramificações decorrentes de uma escassez mundial de energia,
afirma Simmons, as implicações geopolíticas são talvez as mais severas,
particularmente porque os Estados Unidos importam 25 por cento do total das exportações
de petróleo da Arábia Saudita, o qual é cerca de 6 milhões de bpd.
«Tenho dito muitas vezes que eu não desejaria fazer parte de qualquer
delegação encarregada da responsabilidade de ter de contar aos líderes da
Índia, ou particularmente de China, que a sua excitante emergência para a
prosperidade está acabada porque não temos energia de reserva para alimentar
os seus grandes sonhos».
Enquanto isso, Matt Simmons está à espera — e desejoso — de alguém que lhe
prove estar errado.
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