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03/07/2008
Resistência antifascista: Um combate vivo e actual – Entrevista a Michel Vanderborght, presidente da Federação Internacional de Resistentes – Hugo Janeiro Convidado a participar
num Encontro Internacional promovido pela União de Resistentes Antifascista
Portugueses, URAP, e pelo Grupo Confederal da Esquerda Unitária
Europeia/Esquerda Verde Nórdica, Michel Vanderborght, presidente da Federação
Internacional de Resistentes, FIR, destaca em entrevista concedida ao Avante! a actualidade da luta antifascista face à
reabilitação e branqueamento do nazi-fascismo. – O que é a FIR? A FIR é uma organização
fundada depois da Segunda Grande Guerra Mundial por membros da resistência ao
nazi‑fascismo e sobreviventes dos campos de concentração. Nos
primeiros anos após a guerra, éramos uma organização muito forte, com cerca
de 20 milhões de aderentes. Hoje, como é evidente,
a situação não é a mesma. Os membros fundadores da FIR, aqueles que
enfrentaram o nazismo, que passaram pelas suas prisões e campos de
concentração, os militares e resistentes estão a desaparecer. Por outro lado, a nossa
organização também está a mudar, deixou de ser fundamentalmente uma
organização de veteranos da guerra. No congresso realizado há sete anos, em
Berlim, decidimos dar ainda mais força à intervenção contra o fascismo, por
isso, apesar de termos mantido o nome de Federação Internacional de
Resistentes, acrescentámos-lhe Organização Antifascista. Esta orientação tem-nos
feito colher bons resultados. Na medida em que aceitamos no nosso seio as
jovens gerações e os activistas antifascistas, garantimos a continuidade da
FIR, o reforço e actualidade da sua intervenção. – Nesse contexto, a FIR entende que a resistência antifascista passa, simultaneamente, pela acção contemporânea e pelo esclarecimento dos factos históricos e da luta que anteriores gerações travaram... É importante fazer
compreender aos mais jovens que o fim da Segunda Grande Guerra assinalou a
derrota militar do nazi-fascismo, mas quer a história decorrida na segunda
metade do século XX, quer os acontecimentos mais recentes, demonstram que às
ideias e projectos políticos de instauração de ditaduras, de poderes
absolutos e opressores, é necessário contrapor os valores da democracia, da
liberdade, da igualdade. È a partir desta
apreciação que consideramos que a tarefa a que a FIR se propôs não só não se
esgotou, como renova a sua actualidade atraindo para o combate as gerações do
pós-guerra. – Tem insistido na atracção das jovens gerações. Qual é o papel que lhes cabe? O mundo mudou muito,
mas mantêm-se paradoxos inaceitáveis, como produzir combustível a partir de
cereais e, paralelamente, permitir que milhões de pessoas morram de fome. Os conflitos proliferam
porque as grandes potências querem apossar-se dos recursos energéticos. Não
digo que os regimes que os levam a cabo sejam todos fascistas, mas a sua
prática reveste-se de desumanidade, de crimes, de uma autoridade quase
ditatorial e de um cariz antidemocrático. Confiamos muito nos
jovens antifascistas e essa confiança resulta, por exemplo em Portugal, na
sua atracção e enquadramento prático. – Lembrou que o mundo mudou muito. Qual a influência do desaparecimento do campo socialista nesse processo? As consequências do
desaparecimento da URSS são sentidas pelos comunistas, pelos democratas e
antifascistas. No Encontro Internacional que decorreu em Setúbal aflorámos o
assunto e penso ser consensual que as derrotas do campo socialista reanimaram
a oposição ao projecto socialista, chegando-se ao extremo de, nos dias de
hoje, ser clara a orientação de equiparar comunismo e nazismo. Foram cometidos muitos erros,
é evidente, mas não podemos permitir que se coloquem no mesmo patamar
realidades incomparáveis. É absurdo. Sabemos bem que quem o
faz pretende não apenas denegrir os ideais do progresso e da justiça social,
mas também revitalizar os ideais fascistas e neonazis. – Esta campanha anticomunista torna o mundo mais inseguro para os povos e para os resistentes antifascistas? Sim, e os exemplos
sucedem-se não apenas nos EUA, na América Latina ou em África, mas igualmente
na Europa. Quando em países como a
Checoslováquia se criminaliza a juventude comunista, o KSCM, por propor
alternativas ao regime político, económico e social vigente, percebemos a
orientação desta “nova ordem mundial” e a complexidade da batalha ideológica
que enfrentamos. É necessário ampliar a
discussão, o esclarecimento e fazer por atrair sectores que se manifestam
contra este processo de globalização, que propõem alternativas, mesmo os que
provêm do campo da social‑democracia e do chamado altermundialismo. – Decorreu recentemente um encontro de jovens no Campo de Concentração de Buchenwald, na Alemanha. Acha que a iniciativa da FIR conseguiu ligar os jovens à luta antifascista e prepará-los para combater o branqueamento da história? Uma coisa é segura, ali
estiveram mais de 1200 jovens com antigos combatentes, veteranos de guerra,
resistentes antifascistas, e isso só por si é já um sucesso. Para que esta
iniciativa fosse possível, foram precisos dois anos de trabalho, no decurso
dos quais visitámos dezenas de escolas. Inicialmente contávamos com 400
jovens, mas as nossas expectativas foram superadas e eu acredito que a
maioria dos que estiveram em Buchenwald tornaram-se “embaixadores da
resistência antifascista”. Deixa-me referir o
exemplo que eu conheço melhor. Na Bélgica temos conseguido levar muitos
jovens a visitar os campos de concentração e as prisões onde estiveram
encerrados milhares de camaradas e amigos, e nas quais muitos perderam a vida
a lutar contra o nazi-fascismo. Todos os anos
envolvemos entre quatro a cinco mil pessoas nestas visitas. Pode-se dizer que
é pouco, que ainda não chega para travar o branqueamento do fascismo e
promover a verdade histórica, o empenho na defesa da liberdade e da
democracia. Mas se considerarmos que muitos dos que participam tornam‑se
activistas da FIR e de outras organizações; que passam a ter uma militância
antifascista começando por esclarecer os que lhe estão próximos, tomamos
consciência do alcance deste tipo de iniciativas. – Em alguns países do Leste da Europa assistimos a fortes campanhas de revisionismo histórico... É verdade, mas deixa-me
desde já frisar que não é apenas nos países do Leste europeu. A semana
passada, na Bélgica, houve quem negasse abertamente a existência de campos de
concentração. Na Estónia, quando se
colocou a questão da retirada do monumento aos resistentes antifascistas da
Segunda Grande Guerra, a FIR interviu a favor dos democratas, dos patriotas
do Báltico que combateram pela liberdade, pelos respectivos territórios então
ocupados pela Alemanha hitleriana. O internacionalismo não tem fronteiras e
estas batalhas competem a todos nós. Acresce que se tivermos
em conta as discussões ocorridas no Parlamento Europeu a respeito do
branqueamento da história, da criminalização do comunismo e do socialismo, da
negação dos crimes cometidos pelo nazi‑fascismo, é caso para ficarmos
extremamente preocupados, inclusive quanto ao rumo da UE. – Esteve em Portugal durante dois dias. Participou num Encontro Internacional com deputados do Parlamento Europeu, visitou o Forte de Peniche onde funcionou um cárcere fascista, contactou com antifascistas, com membros da organização antifascista portuguesa, a URAP. Que mensagem gostaria de deixar ao povo português? Primeiro, gostava de
sublinhar que fiquei agradavelmente surpreendido com os camaradas e amigos
que conheci. Falo não apenas dos membros da URAP, mas também de gente não
filiada cujo apego à liberdade, à democracia conquistada com o 25 de Abril de
1974, me deixou a impressão de que o regresso de um regime fascista em
Portugal não será possível. Tocou-me a
espontaneidade e o entusiasmo com que vocês dizem e repetem “25 de Abril
sempre, Fascismo nunca mais!”, e pareceu-me que jovens e menos jovens o fazem
com uma grande determinação. Esta é a minha convicção,
mas deixa-me destacar que a situação é muito complexa e não podemos tomar as
conquistas por garantidas. Quando aumentam o desemprego, a pobreza e a fome,
aumenta o desespero, e estamos cientes que a ausência de esperança no futuro
é pasto fértil para o populismo e o fascismo, por isso o caminho é lutar e
trazer à luta antifascista sempre mais gente. |