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Mundo

02/06/2008

 

É necessário um debate de fundo sobre o conceito de “responsabilidade de proteger”

 

Karl Müller

Voltaire

 

O novo conceito de “responsabilidade de proteger”, debatido na ONU, não será uma tentativa de reabilitar o do “direito de ingerência” depois das intervenções militares no Kosovo e no Iraque e de uma utilização abusiva dos “capacetes azuis”? Reconhecer a responsabilidade do forte de proteger o fraco, não é uma forma elegante de se desembaraçar do direito que visa precisamente defender o fraco dos abusos do forte? Antes de apoiar esta nova concepção do Bem, Karl Müller pede precisões…

 

Horizons et débats publicou nas suas edições de 12 e 19 de Maio os textos de duas personalidades suíças a respeito do debate internacional relativo ao conceito de “Responsability to Protect” (“responsabilidade de proteger”). Estas tomadas de posições, nomeadamente a da Conselheira federal Micheline Calmy-Rey [1], são baseadas no relatório da Comissão Internacional da Intervenção e da Soberania dos Estados (ICISS), bem como na declaração final da Assembleia Geral das Nações Unidas aquando da Cimeira mundial de 24 de Outubro de 2005 (A/60/L.1). No artigo 139 desta declaração, sob o título “Dever de proteger populações contra o genocídio, os crimes de guerra, a limpeza étnica e os crimes contra a humanidade”, encontra­‑se a passagem seguinte:

 

«Incumbe igualmente à comunidade internacional, no âmbito da Organização das Nações Unidas, implementar os meios diplomáticos, humanitários e outros meios pacíficos adequados, em conformidade com os Capítulos VI e VIII da Carta das Nações Unidas, a fim de ajudar a proteger as populações do genocídio, dos crimes de guerra, da limpeza étnica e dos crimes contra a humanidade. Neste contexto, nós [a ONU] estamos preparados para levar a cabo em tempo requerido uma acção colectiva resoluta, por intermédio do Conselho de Segurança, em conformidade com Carta, nomeadamente o seu Capítulo VII, numa base caso a caso e em cooperação, se for caso disso, com as organizações regionais competentes, quando estes meios pacíficos se revelarem inadequados e as autoridades nacionais não assegurarem manifestamente a protecção das suas populações contra o genocídio, os crimes de guerra, a limpeza étnica e os crimes contra a humanidade.»

 

Em Dezembro de 2007, Edward Luck, professor na faculdade dos “International and Public Affairs” da Universidade de Colombia em Nova Iorque, foi nomeado para o lugar de conselheiro especial para a “responsabilidade de proteger” pelo secretário­‑geral das Nações Unidas.

 

UM DEBATE CONTRADITÓRIO

 

Esta concepção da “responsabilidade de proteger” é no entanto, no plano internacional, sujeita a controvérsia. As experiências relativas à noção enganosa de “intervenção humanitária”, a actual política internacional das grandes potências ocidentais, sobretudo dos Estados Unidos, incluindo no seio das Nações Unidas e no seu Conselho de Segurança, e a percepção de todas as novas astúcias para poder impor os objectivos políticos de dominação, levaram os povos, e particularmente as vítimas desta política e das suas mentiras, a desconfiar dos projectos que poderiam servir «para interferir nos assuntos internos de um Estado», ameaçando edulcorar um dos princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas (artigo 2, número 7).

 

Houve demasiado exemplos que mostram que este tipo de intervenção tem objectivos de dominação, que é e permanece a expressão mesma de um novo imperialismo. E mesmo quando não é o caso, a ocupação de tropas estrangeiras no terreno provocou mais mal que bem.

 

HELMUT SCHMID ADVERTE CONTRA A ARROGÂNCIA DO OCIDENTE

 

O antigo chanceler federal social-democrata Helmut Schmid não deixa de apelar à prudência no que diz respeito à vontade de interferir nos assuntos de outros países e considera que é a expressão de uma arrogância do Ocidente, que pretende saber melhor.

 

O que se deve pois pensar desta “responsabilidade de proteger”, quando o governo federal alemão tenta justificar no seu “Livro Branco” de 2006 as suas intervenções armadas no estrangeiro?

 

Ficamos ainda mais alertados ao ouvir o apelo a uma intervenção armada em Myanmar – a pretexto da “responsabilidade de proteger” –, após a catástrofe causada pelo tornado e a hesitação das autoridades locais em deixar entrar os socorros e os jornalistas ocidentais. Estes apelos chegam­‑nos não apenas por parte dos meios de comunicação social de massa alemães, como o Deutschlandfunk, mas também por parte de um co­‑autor do relatório do ICISS de 2001, que foi também presidente da associação “International Crisis Group (ICG), o australiano Gareth Evans. De acordo com o jornal The Guardian de 12 de Maio, ele declara que a recusa do governo de Myanmar corresponderia a um crime de guerra e que isso poderia justificar uma intervenção armada no espírito da “responsabilidade de proteger”. Mas Evans não é o único membro duvidoso da comissão. Para os leitores alemães, o nome do antigo general alemão, Klaus Naumann, é antes de mais inquietante, ele que no início do ano exigiu o envio de tropas de combate alemãs para o Afeganistão o despeito da vontade da grande maioria da população alemã, e que, com outros antigos generais, exige o direito da OTAN ao primeiro ataque nuclear contra países que não possuem a arma nuclear. Suspeita-se mesmo que Naumann foi nomeado para esta comissão depois do papel primordial que desempenhou como general da OTAN aquando da guerra conduzida contra a Jugoslávia em violação do direito internacional. Isso porque certos meios queriam que a noção desacreditada de “intervenção humanitária” fosse substituída pela de “responsabilidade de proteger”.

 

MAS NEM TODOS INDUZEM A OPINIÃO EM ERRO

 

Apresentando as coisas desta maneira, não se deve contudo esquecer que havia também outros membros que nada tinham a ver com as duas pessoas mencionadas acima, nesta comissão. São nomeadamente o russo Vladimir Lukin e o suíço Cornelio Sommaruga. As Nações Unidas não se encontram fora da política dos seus países­‑membros e são essencialmente eles quem designa os membros delegados nas comissões.

 

Na crítica do conceito de “responsabilidade de proteger”, também não se tem em conta que são as Nações Unidas que são responsáveis por esta diligência.

 

O VERDADEIRO PROBLEMA DIZ RESPEITO AO GENOCÍDIO, AOS CRIMES DE GUERRA, À LIMPEZA ÉTNICA E AOS CRIMES CONTRA A HUMANIDADE

 

O problema existe: certas autoridades estatais já não protegem as suas populações do genocídio, dos crimes de guerra, da limpeza étnica ou dos crimes contra a humanidade – seja porque não têm os meios para se oporem ou porque elas mesmas estão implicadas nestes factos, seja porque já não funcionam. As causas são múltiplas, frequentemente provocadas do exterior ou por interesses de dominação. Os Estados ocidentais desempenham aí frequentemente um papel desastroso. Não obstante, estas populações têm direito à ajuda.

 

A PREVENÇÃO E A RECONSTRUÇÃO DEVEM ESTAR NO CENTRO DAS PREOCUPAÇÕES

 

Embora os aspectos militares se encontrem no centro do debate público, a noção de “responsabilidade de proteger” põe muito mais o acento na prevenção e na reconstrução. O que teria, tanto mais se nisso se pensar honestamente, consequências fundamentais para a política dos agressores no mundo ocidental e do sistema económico mundial actual – mas também sobre os genocídios persistentes e as destruições sistemáticas, nomeadamente no Afeganistão, no Iraque e na Palestina. De acordo com um interveniente aquando de uma conferência sobre este tema em Bona (ver abaixo), o Iraque apresentaria todas as condições para uma aplicação do conceito “responsabilidade de proteger”. As tropas de ocupação estadunidenses deixam as populações caminhar para a ruína, e ao mesmo tempo erigem, ao custo de milhares de milhões de dólares, imensas bases militares. Joseph E. Stiglitz e Linda J. Bilmes escrevem no seu novo livro intitulado Uma guerra de 3 biliões de dólares: «Enquanto no resto do país a água limpa, a corrente eléctrica e os tratamentos médicos faltam, as bases militares formam ilhotas de bens de consumo perfeitas. Aí se encontram instalações desportivas, grandes lojas, restaurantes Fast Food (incluídas sucursais da Burger King, da Pizza Hut e da Baskin­‑Robbins-Eiscrem, abertas 24 horas por dia), uma sucursal da empresa de aluguer de automóveis Hertz, cinemas, instalações de ar condicionado, conexões Internet por satélite, televisão por cabo e conexões telefónicas internacionais.»

 

AS CONSEQUÊNCIAS PARA A POLÍTICA DO OCIDENTE

 

Na Faixa de Gaza, bloqueada por Israel, a maior parte das crianças, de acordo com um relatório recente vindo da cidade de Gaza, nascem golpeadas pela anemia, devido à ausência de alimentação adequada, sofrendo as próprias mães de escassez; esta provoca também uma malformação dos fetos. Assiste-se diariamente a partos prematuros, com um défice de peso. Não há praticamente medicamentos para mulheres grávidas. A taxa de pobreza situava-se em Abril em 67%. 77% da população de Gaza sofre de doenças devidas à subnutrição. Mesmo as crianças recebem apenas 61% das suas necessidades de calorias. As autoridades médicas de Gaza lançam um grito de alarme quanto à ameaça que pesa sobre a vida e a saúde de numerosas crianças ainda por nascerem.

 

É NECESSÁRIO EFECTUAR UM DEBATE DE FUNDO HONESTO

 

No plano internacional, existe um debate sério e honesto a propósito do conceito de “responsabilidade de proteger”, tendo os participantes consciência das veleidades de esvaziamento. O colóquio organizado pela fundação alemã Stiftung Entwicklung und Frieden (Fundação para o Desenvolvimento e a Paz) nos dias 29 e 30 de Novembro de 2007, tendo por tema «A “responsabilidade de proteger”: um progresso, promessas vazias de sentido ou luz verde para intervenções “humanitárias”?» é um exemplo disso. A documentação que acompanha esta manifestação dá a impressão que, mesmo na Alemanha, é ainda possível debater questões de política internacional. Não se pode deixar para os poderosos deste mundo o cuidado de definir o conceito de “responsabilidade de proteger”; a participação dos cidadãos e das cidadãs é de primeira importância. Isso pressupõe consagrar-se seriamente à discussão e, sobretudo, conduzir um amplo debate público que permita a todos exprimir a sua opinião.

 

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[1] Micheline Calmy-Rey, O dever de protecção em conflitos armados: ponte de vista político. Discurso no Fórum Suíça humanitária. Voltaire, 13/05/2008.