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24/04/2008 A prova incontestável de um neoliberalismo criminoso Damien Millet Politis; traduzido de CADTM O artigo 25 da
Declaração Universal dos Direitos do Homem estipula que «qualquer pessoa tem
direito a um nível de vida suficiente para assegurar a sua saúde, o seu
bem-estar e os da sua família, nomeadamente para a alimentação, o vestuário,
o alojamento, os cuidados médicos bem como para os serviços sociais
necessários». No momento em que o custo das matérias primas explode nos
mercados mundiais, este direito à alimentação é escarnecido pelo modelo
económico neoliberal promovido à força pelo trio infernal Fundo Monetário Internacional
(FMI)/Banco Mundial/Organização Mundial do Comércio (OMC). Após uma baixa
muito importante dos custos durante mais de vinte anos, a inversão de
tendência teve lugar no segundo semestre de 2001. Dirigida primeiro sobre o
sector da energia e dos metais, atingiu seguidamente os géneros alimentícios.
A tendência é extremamente forte. Em um ano, os preços do arroz e do trigo
acabam de duplicar. O barril de petróleo atingiu 115 dólares, a onça de ouro
1000 dólares, o alqueire de milho 6 dólares. Os stocks cerealíferos estão no nível mais baixo desde há um
quarto de século. O custo de uma refeição aumentou tão fortemente que em mais
de trinta países a população desceu à rua para gritar a sua revolta. As explicações
avançadas são frequentemente apresentadas de forma factual: desarranjos
climáticos reduzindo a produção cerealífera na Austrália e na Ucrânia; aumento
do preço do petróleo repercutido sobre os transportes e em seguida sobre as
mercadorias; procura crescente da China e da Índia; desenvolvimento dos agro‑combustíveis
excluindo 100 milhões de toneladas de cereais do sector alimentar em 2007. Numerosos
intervenientes recusam‑se a questionar o quadro económico no qual
estes fenómenos se produzem. Assim, Louis Michel, Comissário europeu para o
desenvolvimento e a ajuda humanitária, teme «um verdadeiro tsunami económico
e humanitário» em África. A expressão é ambígua porque a imagem do tsunami
faz referência a uma catástrofe natural que nos ultrapassa e descarta
demasiado facilmente diversos responsáveis. Recentemente, o FMI e o
Banco Mundial quiseram soar o sinal de alarme. Foram desbloqueados fundos de emergência.
Mas quem recordará que a ajuda pública ao desenvolvimento vertida em 2007
pelos países ricos se reduziu em 8,4%? Desde 1970, prometeram contribuir com 0,7%
do rendimento nacional bruto, mas não excede 0,28% em média, apesar de
manipulações estatísticas (inclusão das reduções de dívidas, das despesas de
reconstrução no Iraque e no Afeganistão, etc.). Além disso, esta ajuda é muito
maioritariamente concedida com base em critérios geopolíticos,
independentemente das necessidades reais. E quem porá em causa os
todo-poderosos mercados financeiros? Nos Estados Unidos, os organismos de
crédito hipotecário emprestaram nestes últimos anos a um sector da população
já fortemente endividado, sendo a taxa moderada durante dois anos antes de
aumentar fortemente. Os prestamistas afirmavam aos clientes que o seu bem imobiliário
ganharia rapidamente valor. Em 2007, a bolha imobiliária estoirou. A crise propagou-se
então a múltiplos actores financeiros que tinham erigido estonteantes pirâmides
de dívidas e conduzido enormes operações fora do balanço. A especulação deslocou-se
então para outro sector que se tornou mais lucrativo: o das matérias primas,
empurrando os custos para cima. Enfim, quem frisará que
o Banco Mundial parece sobretudo inquieto porque as perturbações sociais
ameaçam a globalização neoliberal, estruturalmente geradora de pobreza,
desigualdades e corrupção, proibindo qualquer forma de soberania? Durante os
anos 1980 e 1990, os países do Sul foram obrigados a seguir os diktats neoliberais sob a forma de políticas de
ajustamento estrutural: redução das superfícies destinadas às culturas
alimentares e especialização em um ou dois produtos de exportação, fim dos
sistemas de estabilização dos preços, abandono da auto-suficiência em
cereais, fragilização das economias por uma extrema dependência das evoluções
dos mercados mundiais, forte redução dos orçamentos sociais, supressão dos
subsídios aos produtos básicos, a abertura dos mercados e a colocação em
concorrência desleal dos pequenos produtores locais com sociedades
transnacionais… Actualmente, as
populações do Sul pagam o duro preço. As instituições postas em causa devem prestar
contas. Um tímido mea culpa num
relatório semi‑confidencial não pode ser suficiente, porque cometeram
o crime de impor um modelo económico que privou deliberadamente as populações
pobres das protecções indispensáveis e que demonstra o seu malogro em termos
de desenvolvimento humano. Três linhas impõem-se
então: a anulação da dívida externa pública dos países do Sul; o abandono
definitivo das políticas neoliberais; a substituição do FMI, do Banco Mundial
e da OMC por instituições democráticas, finalmente preocupadas em garantir os
direitos fundamentais e o princípio não negociável de soberania alimentar. ______ * Damien Millet, porta-voz do CADTM França (Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro
Mundo), autor de L’Afrique sans dette, CADTM/Syllepse, 2005. |