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24/04/2008 Ainda Correia da Fonseca Chama-se Murat Karnaz,
é turco-alemão, ruivo, de pele clara. E de religião islâmica. Esteve preso
durante cinco anos em Guantámano, de onde só foi libertado, ao que parece a
pedido pessoal da chanceler Angela Merkel junto de George W. Bush. Entretanto
e ao longo daqueles cinco anos Murat Karnaz foi torturado de várias maneiras:
espancado abundantemente, objecto de simulações de afogamento, algemado de
pés e mãos durante semanas, suspenso pelos pulsos durante cinco dias e cinco
noites ao longo dos quais era regularmente espancado (neste caso, um médico
verificava de seis em seis horas que ele podia continuar a suportar a
tortura, o que inevitavelmente lembra os médicos torcionários e da PIDE),
longamente privado da visão mediante a aplicação de um capuz, decerto ainda o
mais que não nos foi contado e que nós não podemos imaginar. Com tudo isto,
queriam que ele confessasse pertencer à Al Qaeda. Mas essa confissão não
podia ele fazê‑la porque seria falsa. Os carrascos chegaram mesmo ao
ponto de até no momento da libertação já determinada tentarem trocá-la pela
assinatura de uma confissão escrita, aproveitando-se da previsível ânsia de
liberdade que compreensivelmente dominava o prisioneiro. Também então Murat
Karnaz resistiu, ele que soubera resistir aos cinco anos de martírio apenas
ancorado na certeza da sua inocência, no desatino que havia sido a
arbitrariedade brutalíssima da sua prisão, talvez na força da sua fé
religiosa, já que convicções políticas excepcionalmente firmes não parece que
as tivesse. Afinal havia sido preso no Afeganistão porque ali se dirigira,
parece que como muitos outros, numa espécie de turismo confessional, visando
aperfeiçoar-se como crente islâmico, talvez um pouco como muitos cristãos
visitam Roma e outros lugares santos do catolicismo para se sentirem
reforçados na sua fé. Só que, para desgraça de Murat Karnaz, o 11 de Setembro
ocorrera havia pouco, os Estados Unidos haviam declarado guerra ao “terrorismo”
e pagavam a tantos dólares por cabeça quem denunciasse suspeitos de pertença
à Al Qaeda. Murat foi, pois, denunciado por um qualquer afegão sem escrúpulos
resolvido a embolsar uns dólares que lhe fariam jeito, e é improvável que
tenha sido o único a ir para Guantámano nessas circunstâncias. Tivesse ele a
pele e o cabelo mais escuros, não fosse ele meio alemão, e provavelmente
ainda estava sob torturas na famigerada base norte-americana. ENQUANTO O HORROR DURAR A história de Murat Karnaz, impressionante mas não surpreendente,
souberam-na os telespectadores da SIC Notícias na passada semana ao assistirem
a mais uma emissão do 60 Minutos, o programa de reportagens da CBS
obviamente insuspeito de anti‑americanismo primário, excepto
porventura aos olhos do dr. Pacheco Pereira, indefectível advogado do
projecto Bush/USA para o mundo. É essa recente emissão que justifica a
atenção que esta dupla coluna hoje dispensa à dramática odisseia de Murat.
Poderá porventura objectar‑se, porém, perguntando-se se valerá a pena
voltar a falar de Guantámano, dos seus torcionários e das suas vítimas,
quando o assunto já foi tantas vezes abordado e denunciado, inclusive, nos
tempos mais recentes, a propósito da vergonhosa cumplicidade de governos
portugueses na prática desses crimes contra a humanidade (ou, na alternativa,
do humilhante desprezo norte-americano pela soberania portuguesa e pela
dignidade do nosso país). Contudo, acontece que Guantámano, carrascos e
prisioneiros, continuam a ser realidade. Que os Estados Unidos, arrogantes e
impudicos, persistem no crime que escandaliza o mundo e perturba os seus
aliados mais submissos. Não surpreende que seja assim: embora dando sinais de
estarem já a resvalarem pela encosta de uma decadência que é diagnosticada
por um número crescente de observadores, os Estados Unidos prosseguem uma
política de dominação mundial que permanentemente recorre à violência sob
diversas formas, desde as guerras em que directamente participa liderando as
operações até à prática de golpes de Estado organizados pelos seus serviços
secretos em países estrangeiros. Ora, enquanto o horror de Guantámano
persistir, parece não só ser justificado como até ser eticamente obrigatório
que se fale dele, que não se abrande na denúncia e na indignação. Sendo
assim, é claro que andou muito bem o 60 Minutos ao vir contar‑nos
o que aconteceu a Murat Karnaz. E, em consequência, que não terá sido mau que
aqui tenhamos vindo fazer o registo dessa emissão. |