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27/03/2008 Os pecados mortais de Bento XVI Jorge Messias Ainda durante o mês de
Março, será dada à estampa uma nova encíclica de Bento XVI intitulada A
Caridade na Verdade. Terá de se aguardar-se
até lá, como é evidente, e só depois fazer-se uma leitura crítica do seu
texto. Para já, no entanto, a partir de revelações antecipadas por altos
cardeais da Cúria Romana, pode ir-se reflectindo sobre os tópicos principais
do documento, tendo em conta a sua ideia central – a “questão social”. Este catastrófico
problema é abordado pelo Vaticano com a seguinte panorâmica: em todo o mundo
muita pobreza, muita miséria, em contraste com a acumulação de imensas
riquezas e a formação de excessivas fortunas pessoais; a injusta distribuição
universal dos bens produzidos preocupa o Papa; a Santa Sé quer combater este
estado de coisas com os seus próprios meios. Por isso, Ratzinger foi
buscar ao seu baú teológico a lista dos pecados mortais e acrescentou-lhes
mais uns tantos: serão punidas com a condenação ao Inferno as almas daqueles
que em vida cometam crimes contra o ambiente, participem em experiências
científicas duvidosas, realizem manipulações genéticas, acumulem riquezas
excessivas, consumam ou trafiquem drogas, provoquem pobreza, injustiça ou desigualdade
social. É claro que esta necessidade de actualização da ficha dos pecados
mortais só terá efeitos a nível da retórica católica. Em concreto, nada mais
mudará. Bento XVI arrisca-se a pisar terrenos escorregadios. SER IGREJA E SER
NEGÓCIO O Vaticano é
fabulosamente rico e desenvolveu sólidas estruturas neocapitalistas. Por
debaixo do verniz da religião irrompe, a cada passo, o mundo dos interesses e
dos negócios. A reforma das finanças do Vaticano é antiga, não vem de agora.
Surgiu em 1929, quando foi concluído o Tratado de Latrão entre o Estado
fascista italiano e a Igreja Católica. Nessa altura, a título de
indemnizações, Mussolini entregou ao Vaticano uma soma fabulosa muito acima
dos 100 milhões de dólares. O mundo mergulhara numa grave crise financeira,
com a falência da Bolsa de Nova Iorque. Era a altura ideal para investir e
comprar. Foi o que fez o Vaticano. Criou a Administração Especial da Santa Sé
e entregou-a a um capitalista extremamente competente, chamado Bernardino
Nogara. Quase se poderia afirmar que é nessa altura, com a reforma financeira
do Vaticano, que a ideia da globalização da economia começa a esboçar-se. Os investimentos
católicos foram aplicados segundo dois critérios. Num primeiro aspecto,
comprando empresas e gerindo-as directamente, como foi o caso da Italgas. Em
alternativa a essa metodologia, adquirindo posições accionistas em sociedades
onde os capitais da Igreja se infiltram através de investimentos de
interpostas pessoas. Foi deste modo que o Vaticano dominou e domina grupos de
empresas na banca, no ramo eléctrico, nas comunicações, nas instituições de
crédito, nos transportes, na agricultura, no tratamento de águas, nos
cimentos, nos têxteis, nos seguros, etc. Tudo isto se passou – imagine-se! –
há mais de 70 anos. O sistema financeiro da Igreja permitiu ao Vaticano
acumular, desde então, nos seus cofres gigantescos tesouros. Depois de
consolidadas as suas posições dominantes em Itália, o Vaticano alastrou o seu
poder financeiro a todo mundo da globalização. Um outro exemplo final,
só para que se tenha uma ordem de grandeza das responsabilidades morais e
materiais da Igreja na actual “questão social” pode ser dado pelos critérios
expansionistas adoptados pelo Vaticano. Nos anos 30, foi criado
em Itália o IRI – Instituto de Reconstrução Industrial, com a finalidade de
salvar os bancos italianos dos riscos de ruptura causados pela crise
financeira mundial e de pôr em ordem as finanças dessas empresas. O IRI
alcançou deste modo o controlo de 130 grandes firmas italianas.
Transformou-se numa poderosa alavanca da concentração e fusão das empresas
industriais. Por outro lado, autofinanciava-se: por cada lira recebida do
Estado a IRI cobrava doze aos investidores privados. Passados anos, a
instituição dominava 40% dos investimentos italianos na indústria. Nogara apercebeu-se,
desde o início, da importância estratégica do IRI. O Vaticano tornou-se
accionista principal do grupo onde as acções emitidas e o crédito são
disputados por mais de meio milhão de capitalistas. A tendência expansionista
da Igreja ditou depois a criação de uma rede de filiais no estrangeiro,
sobretudo no mercado norte-americano onde a IRI penetrou através do controlo
de posições accionistas dominantes em gigantes como a US Steel Corporation, a
Armco, a Raytheon, a Vitro Corporation e em muitos outros potentados
industriais. Veja-se só que Igreja é esta que nos bastidores domina e faz girar
torrentes de dinheiro enquanto mantém perante o mundo a ficção da sua
caridade e do seu voto de pobreza!... |