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20/03/2008
O princípio do fim do apartheid – Cuito Cuanavale 20 anos depois – Hugo Janeiro Alberto Núñez Betancourt escreveu num artigo publicado
recentemente no diário Granma, que a «história de África se faz antes e
depois de Cuito Cuanavale». Com justiça se pode produzir tal afirmação, uma
vez que depois da batalha ali travada, profundas mudanças na correlação de
forças ocorreram na África Austral, permitindo não apenas a consolidação da
soberania de Angola, como ainda a independência da Namíbia e o nascimento de
uma nova África do Sul, liberta do apartheid. «Cuito Cuanavale foi a
viragem para a luta de libertação do meu continente e do meu povo do flagelo
do apartheid», Nelson Mandela, Cuba,
Julho de 1991 A localidade que deve o
seu nome à confluência de dois rios, o Cuito e o Cuanavale, e que fora uma
pista militar da NATO na antiga colónia portuguesa, era, dez anos depois da
independência, uma peça central no xadrez militar e político de Angola. Em 1985, as forças
angolanas lançaram uma forte ofensiva contra os bandos da UNITA acoitados
junto da fronteira com a Namíbia, no Sul do país. A operação não logrou
desbaratar o contingente de Savimbi e os batalhões sul-africanos que
acorreram em seu auxílio. As Forças Armadas Populares de Libertação de Angola
(FAPLA) viram-se obrigadas a erguer com as tropas cubanas uma linha de defesa
com 750 quilómetros, entre o porto marítimo de Namibe e a cidade de Menongue,
nas costas do Cuito Cuanavale, impedindo que Savimbi e os sul‑africanos
penetrassem no coração de Angola. Em Julho de 1987, nova
investida das FAPLA, desta feita em Mavinga, no Sudoeste de Angola. A
envergadura da operação quase garantiu a derrota da UNITA, não fossem
novamente as Forças de Defesa da África do Sul (SADF, na sigla inglesa). Perante o cenário de
vitória do governo do MPLA e consequente afirmação da soberania angolana, Pretória
contra‑atacou. Nove mil homens da UNITA e do contingente territorial
sul-africano na Namíbia, tanques e carros de combate, camiões blindados,
moderna artilharia e aviões Mirage F-1, encurralaram as unidades de elite das
FAPLA no Cuito Cuanavale. A 9 de Novembro preparavam-se para aniquilá-las e
dar o golpe na conquista do povo angolano, a sua independência. COMO UM BOXEUR Face ao problema
criado, o presidente angolano José Eduardo dos Santos pede ajuda a Cuba para
fazer frente aos agressores. Fidel Castro, ciente da importância da derrota
das forças reaccionárias para os povos da região, decide, a 15 de Novembro de
1987, depois de uma exaustiva análise da situação, reforçar o contingente de
internacionalistas em Angola, a começar pelo envio dos melhores pilotos
cubanos para a base aérea de Menongue, a partir da qual começam a dar
resposta aos invasores sul-africanos. Fidel encarrega o
general Cintra Frias, experimentado guerrilheiro da Sierra Maestra e antigo
combatente em Angola, do comando da frente Sul. O presidente cubano acompanha
as operações militares e coloca em marcha uma operação logística memorável.
No espaço de dias, transfere para Angola milhares de homens, centenas de
tanques e de peças de artilharia, grupos antiaéreos e dezenas de aviões, em
viagens de 15 horas até Luanda, e, depois, outras tantas horas por terra até
ao Cuito Cuanavale. Fidel sabia que deixava
Cuba defendida pelo povo e por uns restos de armamento, mas aceitou o
compromisso revolucionário de ajudar os patriotas africanos. Mais, o
Comandante haveria de confessar a uma delegação de políticos sul-africanos
com quem reuniu em Havana, entre os quais se encontrava o então líder do
Partido Comunista Sul-Africano, Joe Slovo, que aquela era a oportunidade não
apenas de salvar o Cuito, mas de expulsar definitivamente as SADF de Angola. «Desde o primeiro
momento a nossa ideia foi acumular forças para atacar noutra direcção, a
exemplo do que faz um boxeur, que com
a mão esquerda sustém, e com a direita desfere o golpe. Cuito Cuanavale foi a
mão esquerda, e a direita foram as forças que se acumularam», disse. RUMO AO SUL Entre Dezembro de 1987
e Março de 1988, as SADF bombardeiam os agrupamentos de Angola e Cuba
estacionados no Cuito Cuanavale. Diversos ataques de infantaria apoiados por
unidades mecanizadas do regime racista encontram a resistência inexpugnável
de cubanos e angolanos, que não cedem um palmo de terra e ditam a perda de
peças e homens às forças ocupantes. O derradeiro assalto
sul-africano ao Cuito Cuanavale dá-se entre 21 e 23 de Março, mas a investida
foi travada abruptamente pelo contingente conjunto, a tal «mão esquerda», que
desta forma abriu caminho ao avanço imparável das colunas angolano-cubanas no
Sudoeste de Angola. O plano já havia sido
gizado, a 6 de Março, por Havana e Luanda. Ao mesmo tempo que defendiam o
Cuito Cuanavale, preparavam 40 mil soldados cubanos, trinta mil angolanos e
cerca de dois mil da SWAPO (South West African Peoples Organization), para
uma ofensiva rumo à fronteira com a Namíbia. A ideia era desbloquear a «mão
direita» do boxeur. Acompanhavam aquele
autêntico «punho de ferro», como lhe chamou Rolando Rodriguez Garcia, «cerca
de mil tanques junto com mais de mil e seiscentas armas antiaéreas e peças de
artilharia, uns mil transportes blindados e todos os aviões de combate
disponíveis». «Não restem dúvidas que, caso tivesse sido necessário, aquele
enorme contingente chegaria a Pretória», defende ainda o historiador. As hordas do apartheid
não tiveram outro remédio senão recuar. Para isso, muito contribuiu a
construção, em apenas 60 dias e no decurso da batalha, do aeródromo de
Cahama, capaz de abrigar os MIG-23 cubanos dos bombardeamentos e,
paralelamente, golpear os aeródromos inimigos situados no Norte da Namíbia. Cuito Cuanavale alterou
o curso dos acontecimentos. A 26 de Maio, o chefe das SADF informava que os
cubanos, angolanos e a SWAPO avançavam para Sul e encontravam-se a 60
quilómetros da Namíbia. A aviação cubana
dominava o espaço aéreo e a 8 de Junho já se encontravam a apenas 20
quilómetros da fronteira, alterando o «status quo de maneira decisiva, com sérias implicações
políticas e militares», como constatou o general Jannie Geldenhuys, citado
por Piero Gleijeses em artigo publicado no passado dia 31 de Janeiro no Granma. Entre os soldados e
patentes militares da SWAPO o momento era histórico, pois pela primeira vez
podiam avançar abertamente sobre o seu país combatendo as forças ocupantes
sul-africanas. Os últimos soldados da
África do Sul saíram de Angola a 30 de Agosto de 1988. A Namíbia só haveria
de conquistar a independência a 21 de Março de 1990, depois da vitória
eleitoral da SWAPO e a designação de San Nujoma para a presidência do país. Importa também recordar
que os sucessos militares em Angola calaram fundo entre o povo, dando‑lhe
revigorada força para lutar pela autodeterminação e contra o apartheid na
Namíbia. Basta recordar que a 4
de Maio de 1988, em pleno conflito, o governo sul-africano liderado por Pik
Botha celebrou com uma parada militar em Oshakati, no Norte da Namíbia, o
10.º aniversário do massacre de Cassinga. A reacção à arrogância foi uma
impressionante movimentação de massas que desafiou a repressão policial do “poder
branco”. GENUÍNO
INTERNACIONALISMO A 25 de Maio de 1991,
Fidel Castro recebe o último grupo dos 50 mil combatentes provenientes de
Angola. Durante 15 anos passaram por aquele país cerca de 350 mil cubanos em
missão internacionalista. Ali perderam a vida lutando como se de solo pátrio
se tratasse mais de dois mil homens e mulheres. «A missão
internacionalista estava cabalmente cumprida. Os nossos combatentes iniciaram
o regresso à pátria com a cabeça levantada, trazendo consigo unicamente a
amizade do povo angolano, as armas com que lutaram com modéstia e valor a
milhares de quilómetros, a satisfação de dever cumprido e os restos mortais
dos nossos irmãos caídos. A sua missão resultou também decisiva para
consolidar a independência de Angola e alcançar a da Namíbia. Foi ainda uma
contribuição significativa para a libertação do Zimbabué e o desaparecimento
do odioso regime do apartheid na África do Sul», sintetizou Fidel Castro em
discurso proferido a 2 de Dezembro de 2005, em Havana. Duas décadas depois de
Cuito Cuanavale, Cuba prossegue solidária para com os povos que num mundo
cada vez mais desigual e injusto afirmam a soberania popular e o direito a
decidir do seu próprio destino. Milhares de cubanos
encontram-se em missões nas áreas da educação, saúde, ciência e tecnologia, e
tantas outras, sem reclamarem esforços ou exigirem contrapartidas ou lucros,
talvez porque tenham presente que «toda a glória do mundo cabe num grão de
milho», como certo dia afirmou Fidel Castro. MANOBRAS DA CASA BRANCA Rico em petróleo,
jazidas de pedras preciosas e dotado de uma biodiversidade invejável, o
território angolano foi desde sempre alvo da cobiça do capitalismo, que
perdendo posições depois de derrotada a ditadura fascista e colonial portuguesa
em 25 de Abril de 1974, procurou que novos lacaios mantivessem Angola e o seu
povo sob o jugo da exploração. No terreno, uma
poderosa força, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), liderava
a aspiração de independência, mas a orientação política do partido destoava
do alinhamento norte-americano. Neste contexto de
derrota da sua influência na região, Washington iniciou um programa de
auxílio à Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), de Holden Roberto,
e à UNITA, de Jonas Savimbi, socorrendo‑se do Zaire, no caso dos
primeiros, e da África do Sul, no caso dos segundos, como plataformas
giratórias no apoio logístico, treino militar e envio de armas. Na versão oficial da
Casa Branca, o referido programa só foi desencadeado devido à presença em
Angola de tropas cubanas, mas o professor Piero Gleijeses, da Universidade
John Hopkins, demonstra com clareza no seu livro Missões em conflito:
Havana, Washington e África, 1959-1976, que o
então presidente dos EUA, Gerald Ford, ordenou o intervencionismo logo em
Julho de 1975, e que os 480 conselheiros enviados por Havana, a pedido do
MPLA, só chegaram a Luanda em Outubro. Se dúvidas subsistem
sobre esta matéria, Piero Gleijeses cita informações contidas nos relatórios
da CIA, entretanto desclassificados, os quais não só confirmam a
anterioridade da decisão da administração norte‑americana, como
desmentem as declarações do então secretário de Estado, Henry Kissinger, que
perante uma comissão de investigação do Congresso dos EUA, em Janeiro de
1976, alegava que «os relatórios de inteligência indicaram a presença de
assessores, instrutores e militares soviéticos e cubanos». MPLA DERROTA PELA
PRIMEIRA VEZ A REACÇÃO Nutrida pelos
norte-americanos, a FNLA avança a 14 de Outubro de 1975, a partir do Zaire,
com o intuito de fazer capitular o MPLA e assumir a condução do processo de
autodeterminação. Se no Norte o ataque é
conduzido pelas forças reaccionárias angolanas, no Sul o ataque é desferido
pelo exército sul-africano que avança sobre Luanda. Os combates desenrolam-se
até à véspera da declaração de independência. Com efeito, só a 10 de
Novembro, na batalha de Quifangondo, os contingentes combinados do MPLA e de
Cuba, cujas tropas haviam desembarcado no território 72 horas antes, logram a
derrota dos comandados da FNLA, e é à meia noite desse dia que Agostinho Neto
proclama a República Popular de Angola, livre e soberana. Os EUA haveriam de
substituir a FNLA pela UNITA como primeira aposta nas tentativas de golpe, e
de forma assumida e aberta quando, em 1985, Ronald Reagan recebe na Casa
Branca Jonas Savimbi e lhe cede modernos mísseis Stinger. Quanto aos
sul-africanos, derrotados militarmente pela primeira vez por angolanos e
cubanos em Dezembro de 1975, só cruzariam a fronteira com a Namíbia em 27 Março
de 1976. Voltariam, porém; isto apesar do Conselho de Segurança das Nações
Unidas ter aprovado uma moção que condenava a primeira agressão sul‑africana,
sobre a qual os EUA se abstiveram, e instava Pretória a indemnizar a jovem
República Popular de Angola. DIPLOMACIA DE CLASSE Para além de uma
retumbante vitória militar, a campanha angolano-cubana foi aliada a uma
capacidade diplomática de classe. Logo no início dos anos 80, os EUA e a
África do Sul tentaram afastar Cuba da mesa das negociações, acção que
esbarrou na declaração conjunta de Havana e Luanda, de 4 de Fevereiro de
1982, onde se deixava claro que a permanência e retirada das tropas
internacionalistas era uma questão bilateral entre Estados soberanos, em
conformidade com o artigo 51 da Carta da ONU. Incapazes de vencer a
guerra, os sul-africanos compareceram a um primeiro encontro em Londres, a 4
de Maio de 1988. A este seguiram-se outros em Genebra, Brazzaville, Nova
Iorque e Cairo, e foi na capital do Egipto, em Junho, que Cuba e Angola encurralaram
a África do Sul e o “mediador” norte-americano. Os representantes de
Washington reconheciam a superioridade militar cubana, mas tentavam obter
garantias sobre a conduta futura de Cuba. Em vão. Mesmo nesse contexto, o
então presidente sul-africano, Pik Botha, insistiu em retirar para a Namíbia
e não da Namíbia, proposta que não só desrespeitava a resolução 435/78 do
Conselho de Segurança sobre a autodeterminação daquele país, como mostrava a
arrogância da África do Sul no que à intervenção em Angola dizia respeito. O chefe da declaração
cubana, Jorge Risquet, foi lapidar na resposta quando afirmou que «a África
do Sul não obterá nesta mesa o que não pode alcançar no campo de batalha» e
que «só a independência da Namíbia podia dar garantias». Botha e a corja racista
que o acompanhava nos diálogos procurou até Dezembro desse ano – com a
humilhante retirada de Angola, em Agosto, pelo meio –, salvar o decadente
regime, mas a aventura angolana foi o canto do cisne do apartheid
sul-africano, e a 22 de Dezembro de 1988, tal como pretendiam Angola, Cuba e
a SWAPO, Pretória subscreveu na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, os
acordos que asseguraram a integridade angolana, a não ingerência do gigante
do Sul e a independência da Namíbia. |