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01/02/2008
2008: a morte da globalização neoliberal Immanuel
Wallerstein A ideologia da
globalização neoliberal tem feito uma trajectória triunfante desde o início
dos anos 80. Não foi de facto uma ideia nova na história do moderno
sistema-mundo, apesar de ter sido anunciada como tal. Era na verdade a velha
ideia de que os governos do mundo deviam sair do caminho das grandes e
eficientes empresas, nos seus esforços para dominar o mercado mundial. A
primeira implicação política era que os governos, todos os governos, deviam
permitir que essas corporações atravessassem livremente cada fronteira com os
seus bens e o seu capital. A segunda implicação política era que os governos,
todos os governos, deviam renunciar a qualquer papel como proprietários
destas empresas produtivas, privatizando qualquer uma que fosse de sua
propriedade. E a terceira implicação política era a de que os governos, todos
os governos, deveriam minimizar, se não eliminar, todo e qualquer tipo de
transferências de bem-estar social para as suas populações. Esta velha ideia
sempre esteve ciclicamente na moda. Nos anos 80, estas
ideias foram propostas como uma visão oposta às igualmente velhas visões
socialista e/ou keynesiana que tinham prevalecido na maioria dos países à
volta do mundo: de que as economias deviam ser mistas (estado mais empresas
privadas); de que os governos deviam proteger os seus cidadãos das
depredações das corporações estrangeiras quase monopolistas; e de que os
governos deviam tentar igualar as oportunidades de vida, transferindo
benefícios para os seus residentes menos abastados (especialmente nas áreas
da educação, da saúde e das garantias de rendimentos por toda a vida), o que
exigia evidentemente a colecta de impostos dos residentes mais ricos e das
empresas. O programa da
globalização neoliberal tirou vantagem da estagnação mundial que começou
depois de um longo período de expansão global sem precedentes, desde o
pós-1945 até ao início dos anos 70, que encorajara o domínio político das
visões socialistas e/ou keynesianas. A estagnação dos lucros criou problemas
de balança de pagamentos a um grande número de governos do mundo,
especialmente no Sul global e no chamado bloco socialista de nações. A
contra-ofensiva neoliberal foi liderada pelos governos de direita dos Estados
Unidos e da Grã‑Bretanha (Reagan e Thatcher) mais as duas principais
agências financeiras intergovernamentais – o Fundo Monetário Internacional e
o Banco Mundial –, e estes em conjunto criaram e impuseram o que veio a ser
chamado de Consenso de Washington. O slogan desta política conjunta global
foi cunhado por Mrs. Thatcher: TINA, sigla em inglês de Não Há Alternativa. O
slogan tinha a intenção de transmitir a todos os governos a mensagem de que
tinham de entrar em linha com as recomendações políticas, ou seriam punidos
pelo crescimento lento e pela recusa de assistência internacional no caso de
virem a enfrentar dificuldades. O Consenso de
Washington prometeu um renovado crescimento económico para todos e uma saída
para a estagnação global. Politicamente, os proponentes da globalização
neoliberal tiveram grande sucesso. Governo após governo – no Sul global, no
bloco socialista e nos fortes países ocidentais – privatizaram indústrias,
abriram as fronteiras ao comércio e às transacções financeiras, e fizeram
cortes no estado de bem‑estar social. As ideias socialistas, mesmo as
ideias keynesianas, foram amplamente desacreditadas na opinião pública, e as
elites políticas renunciaram a elas. A consequência visível mais dramática
foi a queda dos regimes comunistas na Europa central e do Leste e na ex-União
Soviética, mais a adopção de uma política amigável ao mercado pela ainda
nominalmente socialista China. O único problema com
este grande sucesso político foi não ter sido acompanhado pelo sucesso
económico. A estagnação dos lucros das empresas industriais continuou em todo
o mundo. A subida do mercado bolsista por todo o mundo baseou-se não em
ganhos produtivos mas sim em manipulações financeiras especulativas. A distribuição
dos rendimentos em todo o mundo e dentro dos países tornou-se muito
distorcida – um grande aumento no rendimento dos 10% mais ricos e
especialmente do 1% mais rico das populações mundiais, mas um declínio no
rendimento real do resto das populações mundiais. As desilusões com as
glórias de um “mercado” irrestrito começaram a aparecer em meados dos anos
90. Pudemos observar este fenómeno em muitos eventos: o regresso ao poder de
governos mais orientados para o bem‑estar social em muitos países; o
regresso dos apelos a políticas governamentais proteccionistas, especialmente
por parte de movimentos sindicais e organizações de trabalhadores rurais; o
crescimento mundial de um movimento de alterglobalização cujo lema era «um
outro mundo é possível». Esta reacção política
cresceu lenta mas firmemente. Entretanto, os promotores da globalização
neoliberal não só insistiram como aumentaram a sua pressão com o regime de
George W. Bush. O governo de Bush forçou simultaneamente a distribuição
distorcida dos rendimentos (via grandes cortes de impostos aos muito ricos) e
uma política externa de militarismo unilateral (a invasão do Iraque).
Financiou estas políticas por uma fantástica expansão do endividamento
através da venda de títulos do Tesouro dos EUA aos controladores das reservas
mundiais de energia e das instituições de produção a baixo custo. Parecia bom no papel,
se tudo o que se lesse fossem os números das Bolsas de Valores. Mas era uma
bolha de super‑crédito que estava fadada a estourar, e está agora a
estourar. A invasão do Iraque (mais do Afeganistão mais o Paquistão) está a
mostrar-se um grande fiasco político e militar. A solidez da economia dos
Estados Unidos foi desacreditada, provocando uma queda radical do dólar. E as
Bolsas do mundo estão a tremer à medida que enfrentam o furo da bolha. Que conclusões
políticas estão a tirar governos e populações? Parece haver, de imediato,
quatro. A primeira é o fim do papel do dólar americano como moeda de reserva
do mundo, que torna impossível a continuidade da política de
super-endividamento tanto do governo dos Estados Unidos quanto dos seus
consumidores. A segunda é o regresso a um alto grau de proteccionismo, tanto
no Norte global quanto no Sul global. A terceira é o regresso da aquisição
por parte do Estado das empresas falidas e da implementação de medidas
keynesianas. A última é o regresso das políticas sociais redistributivas. A balança política está
a oscilar de novo. A globalização neoliberal será descrita daqui a dez anos
como uma oscilação cíclica na história da economia-mundo capitalista. A
verdadeira questão não é se esta fase está encerrada, mas se a oscilação para
trás será capaz, como no passado, de restaurar um estado de relativo
equilíbrio no sistema-mundo. Ou os estragos foram demasiados? E estaremos
agora a viver um caos mais violento na economia-mundo, e portanto no
sistema-mundo no seu conjunto? |