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22/01/2008
Quem cabe no mundo? Carlos Fernández Liria *
Se os nossos sistemas
políticos fossem o que dizem ser, em todos os parlamentos estar-se-ia a
discutir agora um gráfico elaborado por Mathis Wackernagel, investigador da
Global Footprint Network (Califórnia). Mas não parece que o assunto tenha
chamado demasiado a atenção. E no entanto, o gráfico resulta demolidor para
as mais firmes certezas da nossa classe política e, evidentemente, para os
critérios mais evidentes dos votantes. Sobretudo, num mundo político em que
esquerda e direita enchem a boca com os objectivos do “desenvolvimento sustentável”. A coisa é bem simples.
O eixo vertical representa o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH),
elaborado pelas Nações Unidas para medir as condições de vida dos cidadãos
tomando como indicadores a esperança de vida ao nascer, o nível educativo e o
PIB per capita. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
considera o IDH “alto” quando é igual ou superior a 0,8, estabelecendo que,
em caso contrário, os países não estão “suficientemente desenvolvidos”. No
eixo horizontal mede-se a quantidade de planetas Terra que seria preciso
utilizar caso se generalizasse a todo mundo o nível de consumo de um dado país.
Wackernagel e a sua equipa fizeram os cálculos para 93 países entre 1975 e
2003. Os resultados são tremendos e surpreendentes. Se, por exemplo, se chegasse
a generalizar o estilo de vida do Burundi, sobrar-nos-ia ainda mais de metade
do planeta. Mas o Burundi está muito abaixo do nível satisfatório de
desenvolvimento (0,3 de IDH). Em contrapartida, o Reino Unido, por exemplo,
tem um excelente IDH. O problema é que, para o conseguir, precisa de consumir
tantos recursos que, se o seu estilo de vida se generalizasse, far-nos‑iam
falta três planetas Terra. Os EUA tem também boa nota em desenvolvimento
humano; mas a sua “impressão ecológica” é tal que seriam necessários mais de
cinco planetas para generalizar o seu estilo de vida. Percorrendo o resto dos
93 países, compreende-se que há motivos para que o trabalho de Wackernagel se
intitule O mundo suspende em desenvolvimento sustentável. Como não há mais que um planeta Terra, é óbvio
que só os países que se situem no área colorida do gráfico (acima de 0,8 em
IDH, sem ultrapassar o número 1 de planetas disponíveis) têm um
desenvolvimento sustentável. Só os países compreendidos nessa área seriam um
modelo político a imitar, pelo menos para aqueles políticos que queiram
conservar o mundo a médio prazo ou que não estejam dispostos a defender o seu
direito (talvez racial, divino ou histórico?) a viver indefinidamente muito
acima do resto do mundo. Ora bem, ocorre que a
área em questão está praticamente vazia. Há um só país no mundo que – por
agora, pelo menos – tem um desenvolvimento aceitável e sustentável
simultaneamente: Cuba. A coisa, evidentemente,
dá muito que pensar. Para começar porque é fácil discernir que a maior parte dos
balseros cubanos fugiram e fogem do
país procurando esse outro nível de consumo que não pode ser generalizado sem
destruir o planeta, isto é, reivindicando o seu direito a ser tão globalmente
irresponsáveis, criminosos e suicidas como o são os consumidores estado‑unidenses
ou europeus. Teríamos muito pouca vergonha, desde logo, se condenássemos a
pretensão dos demais de imitar o modo como devoramos impunemente o planeta.
Mas reconhecer-se-á que a imagem mediática do assunto muda de forma radical:
do que realmente fogem é do consumo responsável em busca do Paraíso do
consumo suicida e, por interesses estratégicos de acosso a Cuba, são
recebidos como heróis da Liberdade em vez de lhes fecharem as portas como se
faz com aqueles que fogem da miséria, por exemplo, do Burundi (a quem se
trata como uma praga da qual há que proteger‑se). A nível geral, a coisa
é muito mais interessante. É muito significativo que o único país sustentável
do mundo seja um país socialista. Costuma ser um lugar comum entre os
economistas que o socialismo resultou ruinoso e ineficaz de um ponto de vista
económico. Surpreende que, num mundo como este, a falta de competitividade
possa ainda considerar‑se uma acusação de importância. Em termos de
desenvolvimento sustentável, a economia socialista cubana parece ser
maximamente competitiva. Em termos de desenvolvimento suicida, não cabe
dúvida, o capitalismo é‑o muito mais. A maior censura que se
pode fazer ao sistema capitalista é, precisamente, que é incapaz de se deter
e incapaz inclusive de amainar a marcha. O capitalismo é um sistema preso do
seu próprio impulso. O economista J. K. Galbraith dizia que «entre os muitos
modelos do que deveria ser uma boa sociedade, nunca ninguém propôs a
passadeira rolante». No entanto, constatamos que, ainda que ninguém o tenha proposto,
este absurdo parece ter‑se imposto de facto: no capitalismo, cada um
trata de se impor à concorrência aumentando a sua produtividade para não
perder mercado mas, ao se encontrarem todos na mesma corrida, não chega nunca
o momento em que se possa deter este aumento ininterruptamente crescente do
ritmo e a concomitante delapidação de recursos. Perante esta dinâmica
absurda, devemos exigir o direito a deter‑nos. Não podemos permitir
que os nossos ministros da Economia continuem a convencer‑nos de que
“crescer” abaixo de 2 ou 3% é catastrófico, e não podemos permitir que os
nossos políticos continuem a propor como solução aos países pobres que imitem
os ricos. É materialmente impossível. O planeta não dá para tanto. Quando
propõem esse modelo sabem que, na realidade, estão a defender algo muito
diferente: que nos fechemos em fortalezas, protegidos por vedações cada vez
mais altas, donde possamos literalmente devorar o planeta sem que ninguém nos
incomode nem nos imite. É a nossa solução final, um novo Auschwitz invertido
no qual em lugar de fechar as vítimas, fechamo‑nos a nós a salvo da
arma de destruição massiva mais potente da história: o sistema económico
internacional. ______ * Carlos Fernández
Liria é professor titular de Filosofia na Universidade Complutense de Madrid. |