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27/12/2007
As crises de 2008 Jorge Cadima No campo económico, o
esperado rebentar da bolha especulativa e de endividamento, que sustentou
artificialmente a economia dos EUA desde 2001, está a alastrar para a banca e
a economia produtiva. O Economist
(22.12.07) estima que 200 a 300 mil milhões de dólares de empréstimos à
compra de habitação nos EUA nunca chegarão a ser pagos. Um relatório da
Comissão para a Economia do Congresso dos EUA estima que dois milhões de
famílias norte-americanas irão perder as suas casas nos próximos dois anos
(BBC, 5.11.07). Nomes grandes da finança internacional continuam a anunciar
prejuízos colossais. Entretanto, são mobilizados os recursos públicos para
salvar os centros do capitalismo mundial da bancarrota. O governo britânico
já assumiu o astronómico montante de 55 mil milhões de libras (75 mil milhões
de euros) de dívidas do falido banco Northern Rock. O Economist (22.12.07), ao dar a notícia, faz abertamente
campanha pela sua nacionalização (conceito que, afinal, só é tabu quando
serve o interesse público…). Em 12 de Dezembro, cinco bancos centrais (EUA,
Canadá, Inglaterra, Suíça e o Banco Central Europeu) anunciaram uma
intervenção concertada nos mercados financeiros. Num só dia (18 de Dezembro)
o Banco Central Europeu injectou 350 mil milhões de euros (cerca de duas
vezes e meia o PIB anual de Portugal) em empréstimos a bancos, procurando
evitar uma crise de liquidez no final do ano. O “dinheiro dos contribuintes”,
que não existe para salvar postos de trabalho, para a saúde ou o ensino,
jorra em vagas infindáveis quando se trata de limpar o esterco deixado atrás
de si pelas pilhagens multi-milionárias de financeiros que acumulam riquezas
obscenas à custa da vida de milhões de seres humanos. Mas é cedo para saber
se mesmo a teta do Estado poderá evitar o descalabro. É neste contexto, e com
o Médio Oriente e o Afeganistão a arder, que as potências imperialistas
parecem decididas a reabrir uma frente de guerra nos Balcãs. Numa sessão do
Conselho de Segurança da ONU, presidida pelo MNE de Itália Massimo D’Alema (primeiro-ministro
quando os aviões da NATO descolavam desse país para bombardear a Jugoslávia,
em 1999), os representantes da União Europeia e dos EUA recusaram a proposta
russa para o prosseguimento de negociações entre a Sérvia e os
albano-kosovares. «”As possibilidades de uma solução negocial estão esgotadas”,
afirmaram os sete representantes UE-EUA» (La Repubblica, 20.12.07), e agora «é necessária uma presença
civil e militar». Para quê? Para que «com o apoio dos EUA e da UE, os
albano-kosovares declarem a esperada independência da Sérvia» (BBC,
19.12.07). Ou seja, para impor pela força o ulterior desmembramento de um
país, em violação da Carta da ONU e da própria resolução 1244 do Conselho de
Segurança que pôs fim à guerra de 1999. Dizem que há que separar o Kosovo
para respeitar a vontade da população. Mas recusam que esse mesmo conceito
seja aplicado às zonas de maioria sérvia no Kosovo ou na Bósnia. Para não
falar, claro, do País Basco ou da Irlanda do Norte. Em 1999 culpavam
Milosevic. Hoje, depois do golpe de 2000, estão no poder na Sérvia os “amigos
do Ocidente”. Pouco importa. Como sempre, por detrás do atear das chamas nos
Balcãs escondem-se outras motivações do imperialismo e um embate que vai
marcar o ano de 2008: a confrontação com a Rússia e a sua enorme, mas
autónoma, importância energética. Nem mesmo a crise económica detém os
apetites de guerra do imperialismo. Pelo contrário, alimenta-os. |