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05/12/2007
Cimeira Europa-África:
Mugabe não pode ser a árvore que esconde a floresta Mamadou Ba A propósito da Cimeira
União Europeia‑África dos Chefes de Estados e de Governos,
levantaram-se várias vozes, umas a favor e outras contra a dita cimeira. A
cacofonia é tanta que quase ninguém se entende com ninguém nem com nada. Como é costume, alguns
pseudo‑intelectuais da Europa, do alto do seu pedestal da pretensa
superioridade civilizacional do Ocidente, apressaram-se logo a fazer da
participação de Mugabe o assunto mais relevante da cimeira. Como se não
bastasse, com a tal propensão europeia para dar lições disto e daqueloutro,
as opiniões e posições restringiram todo o debate sobre os direitos humanos à
escala global à triste figura de Mugabe. Com este circo, a
Europa finge-se preocupada com os direitos humanos no continente africano,
mas nem uma palavra sobre o genocídio do Darfur. Nem tem vergonha de se
sentar à mesma mesa com outros ditadores, desde que estes não belisquem os
interesses neocoloniais da Europa. Aliás, a birra do
senhor Brown e o “empenho” do senhor Sócrates relativamente ao convite (ou
não) ao senhor Mugabe só têm um nome: o confronto entre o imperialismo luso
em deliquescência e o imperialismo britânico no quadro da chamada realpolitik! Sócrates, ao
supostamente desbloquear o “impasse” em que entraram as relações Europa‑África,
desde a Cimeira do Cairo, quer reforçar o peso de Portugal em África. E o
Senhor Brown, também pressionado pelo eurocepticismo britânico, não quer ser
o primeiro-ministro que vai enfraquecer o poder da coroa britânica no
continente. Caricatamente, Brown,
enquanto recebia na Downing Street em “união de espírito” o rei Abdallah da
Arábia Saudita – esse grande democrata que não hesita em espezinhar os seus
concidadãos em nome dos dogmas fundamentalistas da teocracia que dirige com
mãos de ferro –, irritava-se “sinceramente” com a vinda do senhor Mugabe a
Lisboa! A vinda do Mugabe a Lisboa, segundo Brown, era um sinal de
desistência dos valores dos direitos humanos que a Europa estava a dar aos
seus parceiros africanos! O que era, naturalmente – para quem se arroga da
superioridade civilizacional europeia – inadmissível! E claro que, para o
senhor Brown, receber o senhor das arábias (“dono” de um dos países, dos
maiores produtores de petróleo e compradores de armas no mundo), mesmo que
seja um teocrata, inimigo de qualquer espécie de liberdade a não ser a de
reprimir e manter o seu povo no mais profundo obscurantismo, e em cujo léxico
a palavra democracia não existe, não é sinal nenhum de desistência da defesa
dos direitos humanos. Do petróleo é que Brown
não está disposto a desistir, aliás tal como o senhor Sócrates, que também
por nada deste mundo abdicará do petróleo de Angola e de outras
matérias-primas do continente. Perante o petróleo e a
sede de lucro, o valor dos direitos humanos torna-se um assunto apenas
acessório. Aliás, alguns dias
depois de o senhor Brown se ter declarado contra a presença do Mugabe em
Lisboa, o senhor Sócrates assinava com pompa e circunstância em Acra, com o
senhor John Kiffur, presidente do Gana, o convite a todos os líderes
africanos, incluindo Mugabe. Mas se, por um lado,
este senhor representa hoje uma das faces mais visíveis do que é mais
desprezível em África e no mundo, a larga maioria dos dirigentes africanos no
poder (nalguns casos há mais de um quarto de século), simbolizam o mesmo para
os povos africanos votados à pobreza mais extrema. Por outro lado, a
Europa não tem moral para dar lições de democracia em África, quando nunca
deixou de apoiar tais ditadores, fomentando e alimentado guerras atrozes,
financiando rebeliões, patrocinando golpes de estado, saqueando as
matérias-primas do continente, estrangulando as suas economias com as
maleitas do liberalismo económico, empurrando milhões de africanos para a
migração devido à cruel miséria que se vive em África. A ÁRVORE QUE ESCONDE A
FLORESTA O senhor Mugabe é
apenas a árvore que esconde a floresta dos muitos ditadores que permanecem no
poder com a complacência da Europa e que se sentarão à mesa com os líderes
europeus. Pois a presença de
senhores como Omar Bongo do Gabão, há um mais de um quarto de século no
poder; Blaise Compaoré do Burkina Fasso, fomentador e financiador das maiores
atrocidades cometidas em África desde o genocídio do Ruanda, nomeadamente, na
Serra Leoa, na Libéria e no Costa de Marfim; o ditador líbio, Khadafi, no
poder desde 1969 e outrora inimigo número um do Ocidente; o sanguinário
predador das liberdades, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, no poder desde 1979
na Guiné-Equatorial; Omar El Bachir do Sudão, há décadas no poder e
patrocinador do actual genocídio do Darfur; José Eduardo dos Santos, que
transformou as receitas das matérias-primas angolanas em bens e riqueza
pessoal e familiar, no poder desde 1979 em Angola; Hosni Mubarak, o déspota
egípcio desde 1981 no poder no Cairo e que se prepara para fazer do Egipto
uma aristocracia, lançando para a sua sucessão o filho Gamal; etc., etc., não
incomoda os mais virulentos críticos da presença do Mugabe em Lisboa. Não
será caso para se perguntar, qual afinal é o critério empregue pelos tais
defensores da democracia, da liberdade, dos direitos humanos e do progresso
económico em África quando, pelos vistos, dormem descansados com a presença
dos piores ditadores africanos em Lisboa? Esta duplicidade de
critérios revela o mais ignóbil da agenda da União Europeia: o seu único
interesse não são, de modo algum, os direitos humanos nem a democracia, mas
sim os interesses económicos. Ao determo-nos na
teatralização dos direitos humanos na agenda da cimeira, arriscamo-nos a
passar ao lado do que realmente importa analisar e discutir nas relações
entre a Europa e África. CONTORNOS MAQUIAVÉLICOS A opinião pública
europeia está praticamente a leste dos contornos maquiavélicos das relações
entre a União Europeia e o continente africano. O único aspecto dessa relação
com que lida todos os dias e da pior maneira é o da imigração. A imigração
entra-nos casa adentro pelo bombardeamento televisivo e pelo discurso
securitário e xenófobo dos governantes europeus. A Europa, sedenta de
democracia, de direitos humanos, de desenvolvimento e de boa governação é a
mesma que nega os direitos mais elementares aos imigrantes africanos, que
militariza o controlo dos fluxos migratórios ao usar dispositivos militares
contra eles, que criminaliza a mobilidade e até os afectos de milhares de
imigrantes, como se fossem criminosos. A Europa que quer o
desenvolvimento do continente africano é a mesma que na voz do ministro
alemão da Defesa, Franz Joseph, dizia sem despudor, ao falar da região dos
Grandes Lagos, que «a estabilidade nesta região rica em minerais é benéfica
para a indústria alemã». E outra figura alemã não menos importante, Eckart
Von Klaeden, Conselheiro da Chanceler alemã Ângela Merkel em Assuntos
Externos, corroborava a importância estratégica que constitui o controlo das
matérias-primas do continente, declarando: «têm lá riquezas subterrâneas
importantes para a segurança, tais como o urânio e o berílio. Podem cair em
mãos incompetentes». É por isso que o que
deve merecer a mobilização das organizações do movimento social são, sem
dúvida, entre muitos outros aspectos nefastos da relação UE-África, as
negociações entre a África e a União Europeia das novas parcerias económicas,
conhecidas pela sigla portuguesa APE (Acordos de Parceria Económica). Porque,
como na Conferência de Berlim de 1884, onde as potências europeias dividiram
a África à régua e esquadro para assentar o seu imperialismo como quem divide
um bolo, os APE reeditam o feito colonial sob o manto diáfano da livre
concorrência em nome do liberalismo económico. É certo que a
realização ou não da cimeira não é, de longe, o barómetro da política
colonial da Europa em África. Porque na verdade, independentemente da cimeira
ou não, o que é certo é que o saque das matérias‑primas prossegue com
cada vez maior fulgor, e a imposição do modelo económico neoliberal é uma
realidade que torna a vida dos milhões de africanos num infernal quotidiano,
devido ao estrangulamento económico, à dependência alimentar, ao empobrecimento
crónico, etc. No entanto, a sua realização não deixa de ser um momento
político para todos os que lutam por uma alternativa ao neoliberalismo que
caracteriza o neocolonialismo europeu nas suas relações com os outros povos,
nomeadamente os da África. Desde 1963, com a
Convenção de Yaundé (Camarões), passando pela Convenção de Lomé (Togo) em
1975, até ao Acordo de Cotonou (Benim) em 2000, a União Europeia procurou
sempre condicionar as trocas comerciais com as suas ex-colónias. De facto, apesar de
todas as suas insuficiências e lacunas graves, o quadro de Lomé, ainda que
com pouca margem, permitia alguma resistência e protecção das economias
frágeis dos países africanos. Sob pressão da OMC
(Organização Mundial do Comércio) o Acordo de Cotonou veio impor os APE
contra o quadro ACP (África, Caraíbas e Pacifico) de Lomé que vigorava desde
1975. Mesmo sendo verdade que
os acordos de Lomé tinham vindo a sofrer alterações bastante profundas nos
últimos anos até 2000 com o Acordo de Cotonou comparativamente ao seu
espírito inicial, com as exigências do FMI e do Banco Mundial, nomeadamente
com os planos de ajustamento estrutural, o que é certo é que as condições
impostas nas negociações dos APE são incomparavelmente desfavoráveis ao
continente africano. As poucas condições
favoráveis que decorriam dos acordos de Lomé, como sejam os mecanismos de “estabilização
das exportações” conhecidos por Stabex, nomeadamente para os produtos agrícolas,
o Sysmin para os produtos minerais e o apoio e o financiamento de
infra-estruturas e programas agrícolas vão acabar. DESEQUILÍBRIO DAS
RELAÇÕES COMERCIAIS No entanto, os APE,
além de porem fim a estes mecanismos, vêm agravar o desequilíbrio das
relações comerciais entre a Europa e a África, agudizando o estrangulamento
económico do continente, pondo em causa, para lá da sua soberania económica,
a sua própria soberania alimentar, acabando assim por empurrar milhões de
africanos para a fome e miséria. O continente africano,
em vez de poder negociar em bloco face à União Europeia, foi obrigado a
dividir‑se em vários blocos regionais, o que naturalmente enfraquece
política e economicamente o processo negocial. Até agora, as negociações eram
no âmbito do grupo dos países ACP, mas o Acordo de Cotonou definiu que teriam
de passar a ser por regiões geográficas, reduzindo-se assim o peso político
que representava o grupo ACP e acabando ainda com os poucos mecanismos
favoráveis que ainda sobreviveram aos vários assaltos do liberalismo
económico imposto pelo FMI. No fundo, o que os APE
preconizam não é uma parceria económica justa com África, mas sim obrigar o
continente a adoptar as leis da OMC e a doutrina neoliberal, abrindo o seu
mercado desigualmente aos produtos europeus, segundo os cânones da livre
concorrência, quando os termos da trocas são completamente desiguais a todos
os níveis. Não é preciso lembrar
que um dos impasses do chamado Ciclo de Doha, nas negociações da OMC, prende‑se
com a imposição das potências ocidentais a um regime de abertura comercial
total aos países pobres, incluindo os do continente africano. Porque, por
exemplo, no ciclo negocial de Doha, os países ACP se recusaram a liberalizar
sectores públicos essenciais e a liberalizar totalmente os serviços para as
multinacionais europeias. A Europa procura alcançar pela pressão e pela
chantagem, através dos APE, o que não conseguiu via OMC. Não é por acaso que os
APE não poupam nenhum sector, do público ao privado, e abrangem todos os
sectores de actividades (agricultura, pesca, comércio, indústria, serviços,
saúde, educação, etc.) Os termos dos APE são
tão escandalosamente desiguais que as próprias Nações Unidas teceram o seguinte
comentário num relatório: «os países desenvolvidos avaliaram que valia a pena
proteger uns 3% a 4% da população activa das más acções de instabilidade e da
baixa tendência dos produtos de base, opondo‑se à utilização de
instrumentos análogos para proteger 70% a 80% da população dos países em
desenvolvimento, muito mais pobres, e cujo único meio de subsistência é a
agricultura». Portanto, como se vê,
estes acordos apenas procuram impor a concorrência desigual entre economias
africanas completamente fragilizadas segundo as normas da OMC. Nos novos
acordos a assinar, a Europa exige uma liberalização económica de todos os
sectores conforme as exigências da OMC, cujas consequências serão
catastróficas para o pequeno campesinato, as pequenas unidades de produção
locais e para as finanças locais: concorrência entre os produtos importados
da Europa, subvencionados, e os produtos locais; supressão das barreiras
aduaneiras, empobrecimento galopante, dependência económica e financeira,
etc. Os APE contemplam,
entre os mais de vinte acordos comerciais impostos pela OMC, os três mais
nocivos na sua relação com o continente africano, nomeadamente o AGCS (Acordo
Geral de Comércio em Serviços), o AoA (Acordo sobre Agricultura) e ADPIC
(Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio).
A assinatura desses acordos seria o triunfo final do neocolonialismo liberal
sobre a África, porque acaba com a sua soberania económica, alimentar e
cultural. Importa, porém,
salientar que a oposição à celebração destes acordos não se compadece com
meias tintas do tipo: os acordos são uma imposição da OMC e, contra isso, não
há nada a fazer; o que se pode fazer é adiar a data limite do fecho das
negociações (31 de Dezembro de 2007), para dar tempo ao continente africano
para se preparar para a nova era do comércio mundial. Nos últimos anos, a
Europa tem conseguido impor ao continente africano as suas teses liberais em
torno de todos os aspectos das sua relações bilaterais ao ponto de fazer
aceitar aos dirigentes africanos a mercantilização dos seus cidadãos. Assim,
o controlo da imigração, por exemplo, vem como aspecto essencial na
celebração dos acordos de ajuda ao desenvolvimento. Militarização e
criminalização da imigração, outsourcing da
guerra, externalização das fronteiras, controlo económico e financeiro do
continente, eis os eixos da cimeira de Lisboa. Mais uma vez, o inenarrável
senhor Mugabe não passa de um pretexto para serenar as consciências daqueles
que têm uma agenda imperialista para a África. «O imperialismo não
morreu. Tornou-se neoliberal. Mas como permanece sempre a criança nos traços
do adulto, ele permanece reconhecível.» A cimeira de Lisboa é
cenário do império, a sua substância é o liberalismo económico. Os APE são a
face crescida da cara do neocolonialismo europeu em África. |