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27/11/2007
Annapolis: três mãos
cheias de nada Este post assinala a
reunião que hoje se realiza em Annapolis. Foi escrito de madrugada e não
contém eventuais novidades mais recentes. Trata-se de um breve ensaio pouco
optimista. Mas não é razão para desesperar. Afinal de contas, Annapolis não
modificará nenhum dado substancial. O dia de amanhã é que talvez sim, quando
Bush e Olmert tiverem as suas discussões privadas sobre os restantes assuntos
do Médio Oriente. 1. Estava para ser uma
Conferência e afinal é um Meeting. A
desqualificação é a medida do fracasso para lá dos holofotes e declarações de
circunstância. 2. Annapolis é um
encontro de fraquezas. Israel gostaria de, um
dia, viver em Paz com os seus vizinhos. Mas não tem terra para oferecer.
Muito menos pela mão de um líder a prazo, refém dos religiosos, do partido da
imigração russa e de um exército que nos territórios ocupados se transformou
numa força de polícia. Sem proposta para um horizonte final, Israel só quer
dos palestinianos a segurança dos seus próprios cidadãos contra as
morteiradas artesanais lançadas de Gaza e os homens-bomba da Cisjordânia. A Palestina quer um
Estado. Já agora, viável. Se a primeira condição esbarra na recusa de Israel
em discutir fronteiras – precisamente o que define uma soberania territorial –,
a segunda é um quebra‑cabeças para depois de amanhã. A Palestina quer
ainda a regulação dos contenciosos criados pela História: o direito de
retorno dos refugiados de 1948 e 1967 às suas terras, o desmantelamento dos
colonatos, a capital em Jerusalém. Mas a Palestina parte para Annapolis
dividida e com um líder que depende mais da protecção internacional que do
seu povo. Abbas não tem como dar aos israelitas o que eles querem – o fim dos
grupos armados – nem força para colocar na mesa das negociações o que poderia
calar as armas. Para a Casa Branca a
Palestina tem sido um pormenor. Adquire agora importância porque Bush está de
partida e tudo lhe corre mal. Ele precisa de um número para a fotografia como
de pão para a boca. E quer unir ocidente e líderes árabes moderados contra
Teerão, a derradeira estação da sua atribulada viagem guerreira pelo Médio
Oriente. O diálogo entre israelitas e palestinianos encaixa quer na urgência,
quer na aventura. Mas Bush teria de confrontar o seu principal braço na
região para obter resultados palpáveis. Mesmo que o desejasse – e
manifestamente não quer – falta-lhe a autoridade para isso. Ele é um
imperador com os dias contados. 3. Da soma das
fraquezas resulta esta reunião. Aparentemente, nem declaração comum de
circunstância se fará. Na melhor das hipóteses, Blair anunciará quatro
projectos económicos de uma lista de dez (seis foram rejeitados por
Telavive). E se correr mesmo muito bem, Olmert concretizará a promessa de
libertar 450 prisioneiros, apesar de mais de 600 terem ido parar às prisões
israelitas desde que tal anúncio foi feito. Por outras palavras: se correr
muito bem tudo ficará como dantes. Se correr mal, também. 4. Os outros actores
fazem parte do cenário. Temos a União Europeia em peso e compreende-se: é de
sua competência pagar as facturas dos estragos que Israel faz nos territórios
que ocupou e na prisão de Gaza. Lá estará para garantir que assim continuará
a ser. A Liga Árabe também picou o ponto. Mas nem a Arábia Saudita nem a
Síria apostam um cêntimo no êxito do conclave. Estão lá para dizer que a foto
de família é a sua oferta às aparências. Quanto ao mais, aguardam pelo futuro
presidente dos EUA. 5. Mais importante do
que a reunião de hoje é o encontro de amanhã entre Olmert e Bush sobre o dossier iraniano. Os dois aliados estudarão os cenários e
o modus operandi do próximo capítulo
da guerra preventiva. Os bombardeamentos sobre o Irão continuam em cima da
mesa. Como nela estará também a atitude face à Síria. Para Olmert, a Síria
conta mais do que a Palestina e percebe-se porquê – aí tem os montes Golã
para negociar contra uma separação entre Damasco e Teerão. Já a Casa Branca
dá sinais muito contraditórios. A hipótese de Olmert agrada-lhe, mas poucos
acreditam nela. Teerão sabe que a
pressão não será levantada. Ao proceder, ontem e anteontem, a exercícios
militares que envolveram 8 milhões de pessoas anunciou-o ao Mundo. O exército
de Israel e o Hezbollah fizeram o mesmo no princípio deste mês. Por aquelas
bandas todos levam muito a sério o cenário de guerra. Nós também deveríamos
levar. 6. Cenários de guerra
são o que explicam o actual vazio institucional no Líbano. Nenhum dos blocos
arrisca a iniciativa. Nem a maioria parlamentar elegeu o seu presidente, nem
a oposição avançou para uma situação de duplo poder. Ninguém quer ser
responsabilizado por tomar a iniciativa. E quem pode conquistar o poder - a oposição
– evita fazê-lo porque fácil é o assalto, mas difícil o que se segue. Neste
jogo de nervos, o exército marca pontos. Mas alguém acabará por perder a
cabeça. Sem compromisso, é inevitável a escalada. Também este capítulo será
abordado entre Bush e Olmert. A Casa Branca dá sinais de ter mais do que uma
política. E de qualquer modo delegou em Sarkozy a defesa dos “interesses
ocidentais”, coisa que o seu MNE, Kouchner, gosta de interpretar livremente.
No país dos cedros, o primeiro-ministro tem o mesmo problema de Abbas, mas
agravado: depende de fora e não de dentro. 7. Referindo-se ao
século XX, Hobsbawn chamou-lhe curto. Parafraseando, diria que nos
encontramos numa das mais longas semanas do século XXI. Como se o tempo
tivesse sido suspenso enquanto os guerreiros preparam a batalha. |